quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Reconstrução

Ah, moço! Não havias de ter me deixado partir. Devias ter-me perseguido, suplicado para que eu ficasse. E eu ficaria, assim, como quem sucumbe aos encantos do amor. Mas não, deixaste-me ir, soltaste-me, como a criança que solta o balão de gás e ele sobe ao céu, para nunca mais voltar. E eu subi aos céus, mas subi com a cabeça povoada da tua imagem, da tua voz, das tuas mãos. Os teus abraços a atazanarem-me o juízo que por mais que eu deles me tentasse livrar já não conseguia. Tinha carregado teus braços enlaçados na minha cintura. Bem sei eu que o tempo, inimigo dos que amam, desbotará a tua face da minha memória, amarelecerá o teu sorriso, emudecerá a tua voz nos meus ouvidos. Já as minhas crises de meninice passaram, não sofro por abandonos, posto que visitaste a minha vida, foi passagem, foste um nômade, nem pousada por ali fizeste, mas acendeste-me com sonhos, com música, com sorrisos. Foste uma doce e terna primavera.

Dos livros que li, das músicas que ouvi, estiveste comigo sem te dar conta. Nas noites frias, nas estradas longas, foste meu companheiro incansável. Mas o agora já é e o passado já foi. Sou mulher do agora, mulher de presente, sou presente. E caminho sozinha o meu caminho, até que encontre pousada noutro coração, até que outra alma se faça presente e então novas palavras fluirão, novas músicas serão entoadas e poesia, ah, sim, a poesia ganhará mais cores. Porque quando se ama, não se lê poesia. Olha-se poesia, imerge-se em poesia. E desfruto do meu caminhar solitário, para namorar-me a mim mesma, enamorar-me de mim mesma, a fim de me certificar se não larguei pedaços meus pelos cantos do mundo. Ah, sim, uma música. Sempre, sempre, com uma música.

Verónica Vidal

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Mulher - vende-se aos pedaços

Qual é o momento de mudar o visual? E por que mudar? Quem foi que determinou que peitos de silicone são mais interessantes do que os naturais? Em que momento na história, as mulheres começaram a se encher de hormônios, a entupir seus fígados com anabilizantes e levantar peso, levantar peso, levantar peso, até ficarem com corpos musculosos e disformes, coxas divididas e abdômens trincados? Lembro-me de brincar que a minha Barbie namorava o Falcon do meu primo Marcelo. Acontece que as mulheres consideradas lindas pela mídia de hoje, se parecem muito mais com o Falcon do que com a Barbie. Deixaram de lado o modelo anoréxico impossível de atingir da boneca magrela para o modelo super-músculo impossível de atingir da mulher bombada. O que há de errado com a naturalidade? 

Hoje vi uma mulher completamente desprovida de adornos. Cabelos curtos, fios brancos que reinavam gloriosos, salvos de qualquer tintura. No rosto, zero de maquiagem. Não se pode dizer que era propriamente bonita ou feia. Enquanto falava comigo digitava qualquer coisa num teclado. Lindas mãos. Vez por outra, sorria. Belo sorriso. Já havia conversado com esta mesma mulher umas poucas vezes mas, é curioso como, dependendo do nosso estado de espírito, somos capazes de observar coisas que antes nos passavam imperceptíveis. O que a mulher nem bonita e nem feia tinha, de verdade, era uma beleza sincera. Por uns poucos segundos senti-me estranha, falsa, com minhas unhas envernizadas e o meu rosto escondido debaixo de um reboco de bases e pós e blushes e batons. Queria dizer que eu também tinha cabelos brancos mas que eu os falseava com umas mentirosas madeixas louras. Mas não, não disse nadinha, já que a minha palavra falada não é tão boa quanto a escrita e a moça não ia entender patavina do que eu estava para ali a dizer. 

A padronização do corpo feminino escraviza-nos cada vez mais, especialmente as mais jovens, é bem verdade. São cabelos que obrigatoriamente têm que ser lisos, barrigas necessariamente chapadas, peitos e bundas XXL, equilibrados em cinturas S, numa crescente mercantilização da mulher. Quem estiver fora do padrão, está fadada ao insucesso. Mas insucesso de que? Em recente reportagem li que um norte americano mantinha um "relacionamento sério" há 13 anos com duas bonecas ultrarealistas. Ora, na era dos tudo-de-silicone e dos cursos express, que geram diplomas e pouca reflexão, em épocas em que substitui-se facilmente uma leitura pela TV ou videogame, casar com uma boneca não é tão surreal assim. 

Não, talvez eu ainda não assuma meus cabelos brancos, ou dispense o batom. Muito provavelmente não deixarei de ter as unhas arranjadas. Uma inocente ida ao cabelereiro não corrompe ninguém. Mas sempre que vir uma mulher em sua beleza natural, sentirei que não estamos vendidas. E viva Frida Kahlo!!!

Verónica Vidal - às lindas mulheres cuja beleza são necessárias 4 consultas para que se perceba.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

As Palavras Certas de um Certo Livro

Eu, assim como muita gente que anda solta por aí neste mundo, sou apaixonada por livros. Muitos deles agregaram valores fundamentais à minha vida. E não caio aqui no lugar comum de dizer que a Bíblia é o livro responsável pela minha imensa mudança de vida. Primeiro porque não é verdade. Não evidencio grandes mudanças de vida, sempre tive uma vidinha monótona. Segundo, porque a Bíblia é, para mim, um conjunto de livros à parte de absolutamente tudo, que não se categoriza.

Dito isto, volto à primária, quando ganhei meu primeiro livrinho do Monteiro Lobato: Reinações de Narizinho. Naquele mesmo ano, ganhávamos de presente de Natal da mamãe um conjunto de três livrinhos cada uma. E assim a coisa foi. E foi. Eu e minhas irmãs amamos ler porque na nossa casa os livros viviam por ali. Coloridos, de gente grande e de gente pequena. Revistinhas da Mônica e do Pato Donald, Agatha Cristhie e A.J.Cronin, Albert Camus e Eça de Queiroz. Nada era menor, nada era complicado demais. Dentro das capas havia mais uma história e assim eram os livros para a minha mãe e assim eles o são para mim. Todos, sem exceção, desde os do curso aos dos meus autores preferidos, por quem eu me apaixono perdidamente, estando eles vivos ou mortos. 

E um dia, minha mãe deixou de falar em livros. E nunca mais falou comigo. Foi-se embora sem me dizer adeus. Odiei o mundo inteirinho por isso, mas fiz sempre cara bonita porque aprendi que é feio odiar o mundo. Queria que Deus morresse, mas nunca disse isso, porque é feio dizer coisas más de Deus. Com tanta gente má no mundo, porque Ele tinha que levar logo a minha mãe? Eu até tinha candidato pronto para ir no lugar dela. Mas nunca disse nada, e todos me congratulavam por eu ser tão positiva, por ter reagido tão bem diante de tamanha tragédia. Não conheciam o meu pavoroso eu de dentro. Eu não me deixava conhecer. O tempo passou e, como sempre acontece com o tempo, a ferida sarou. Mas a minha culpa por ter odiado a Deus nunca sarou. Já havia feito as pazes com Ele, mas nunca me perdoava por um dia tê-Lo odiado. E durante estes anos que se passaram, ainda que eu falasse de felicidade e do amor de Deus, sempre vinha aquela ponta solta: ...mas um dia, eu quis que Deus morresse. Para quem tem fé, sabe que isso é um punhal cravado. 

E um dia, vi o pastor da minha própria igreja com uns livros na mão. Perguntei que livros eram, tive que pedir para comprar. Li e reli. Li novamente. Chorei como o olho na capa. Mentira, meu olho fica congestionado quando choro e faço caras estranhas. Mas chorei porque entendi, chorei porque me via ao espelho. Foi como retirar o curativo e ver que já não havia mais ferida. Numa linguagem paternalista, tão diferente de outros tantos livros que eu havia lido sobre o tema, todos altamente técnicos e que invariavelmente me faziam pensar se eu precisava de um psiquiatra, este quase me colocava ao colo e me dizia: "filha, é mesmo assim". E pensei que, quando Deus levou a minha mãe, Ele, que tudo sabe, é claro, já havia planejado inspirar o autor a escrever este livro, porque eu gosto muito de ler e não seriam palavras quaisquer que me curariam, mas palavras certas de um certo livro. Ganhei dedicatória no meu livro. Queria muito tê-lo lido antes, teria-me poupado anos de angústia. 

Para a nossa casa, compramos livros de culinária e de bricolage. Quando nasce o nosso primeiro filho, compramos livros de puericultura, mas não estamos preparados para as perdas na nossa vida. Não queremos falar nisso, não queremos saber. E, quando perdemos, seja uma pessoa amada ou um emprego, é menos doloroso se  soubermos o que nos espera. Por isso e muito mais, minha receita de felicidade e boa saúde agora é: 2 litros de água por dia, 3 peças de fruta, meia hora de caminhada, legumes e folhosos, música, um punhado de amigos, oração diária, um bocadinho de estudo, um bocadinho de trabalho e "O Ser Diante do Luto". Porque perder faz parte de viver. Só sofre, aquele que ama.

Verónica Vidal - ao Pr. Marcos Amazonas - esse é o meu jeito de dizer muito obrigada por ter escrito o livro, e o quão importante ele é para mim, e sei que para muitos. Eu ainda acho que havia de haver uma lei que obrigasse a todas as pessoas do mundo a lê-lo, mas é que nem todas falam português e isso ia ser uma chatice.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quando Desamamos






E o mundo não acabou. Algumas pessoas nasceram, outras tantas morreram, mas o mundo segue caótico para uns e tedioso para outros, como sempre foi. Um dia, nós é que estaremos acabados para o mundo. E, um a um, o deixaremos. E prestaremos contas ao Criador do que foi feito durante esse tempo. Não é uma questão de acreditar ou não. É .  A Terra não muda de ritmo porque eu choro. Sendo assim, lamentar não adianta.

Longe é um lugar que só existe para determinar o tanto de saudade que eu sinto. Saudade é o amor que faz o coração chorar por saber que quem amamos ou o que amamos está longe. Se longe só existe para determinar saudade, digo ao meu coração que o que mais importa é a alegria de amar. Não desamamos. Um amor nunca esvanece. Ele simplesmente migra de uma pessoa para outra. Quem ama, amará sempre.
O amor deixa marcas indeléveis naquele que ama. É para sempre. Por isso é preciso que ele seja cultivado. Não porque ele morra, mas porque viaja. Vai morar noutro sítio, vai buscar outra terra mais favorável. Uma alma repleta de paixão não sobrevive sobre terra árida. Se a tua terra é árida, dê um jeito de regá-la. Vigie. Ou o amor que te acompanha migrará como as andorinhas. Mas não voltará. E nunca mais o verá. Há pessoas incapazes de amar. Conseguem, no máximo, gostar. Um gostar sem sal nem açúcar, momentâneo, prático. Já eu, amo morrer de amor. E acordar feliz no dia seguinte.

Somos todos prisioneiros da nossa própria ignorância. À medida em que se descortina o conhecimento, pequenas frestas são abertas na nossa cela. Temos preguiça de saber. Saber requer esforço. E pior: exige atitude. A ignorância é confortável. Mas não nos faz feliz. A mediocridade nos mata. É como morrer em vida.

Ser feliz requer dedicação. Dedicação com a própria vida. Por isso, eu não tenho tempo para dar ouvidos a quem quer tomar conta da minha vida. Eu mesma mal consigo fazê-lo. Preciso me dedicar a desfrutar do restinho do calor do sol, do friozinho da manhã, da música gostosa que toca. Preciso dar o ombro à amiga que está chateada. Preciso beber 2 litros de água e comer 3 peças de fruta por dia. Ir ao ginásio, trabalhar, estudar. Orar, sem cessar. Tudo isso, sem deixar de retocar o batom.


Verónica Vidal - Ser amado é bom. Mas nada no mundo é melhor do que amar de verdade. O exercício do amor já é um prazer por si só. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Insensatez

E é porque me inspiras e é porque me seduzes e é porque me excitas e é porque me encantas. E é porque passa o tempo, e havias de fazer algo de péssimo, a fim de quebrar o encantamento, mas não o fazes, e sigo assim, enfeitiçada, perdida, atordoada.

E é porque me socorres e é porque me curas e é porque me escutas. E num diálogo não verbal diz-se tudo e mais ainda. Em palavras diz-se tudo aquilo que não se queria dizer. É melhor ser muda. Mas nada muda.

E quando te fazes frágil e julgas desencantar-me, fazes-te menino e te fazes mais humano, menos herói, mais real, mais perto. Mais doce. E a insensata dependência que me ata a ti tira-me o conforto, descontrola-me, mete-me medo. Desejo a insanidade mental declarada a fim de viver declaradamente o desejo insano. Quero todas as coisas, da forma mais egoísta possível, e talvez, apenas talvez, consiga.

Verónica Vidal - triste daqueles que não vivem paixões insensatas, loucos amores, daqueles inexplicáveis. Durem o quanto durem, são essenciais.

sábado, 14 de setembro de 2013

Meia-idade em crise

 
E quando a dúvida bate à porta, a insegurança esbraveja e não há quem nos ouça, empurrando-nos para um lago mudo de tristeza? Seriam estes alguns dos sintomas da crise existencial que nos assola na meia idade?
 
Seria esta sensação de impotência diante de um futuro que antes vislumbrávamos sereno, como prémio por uma dura vida de plantio, mas que se apresenta ácido e estreito devido à pilhagem que o sistema impiedosamente tem feito aos nossos celeiros, o sentimento de desesperança que nos tornará seniores?
 
Talvez a tal crise da meia-idade ataque mais comumente a homens que a mulheres. Nossos meninos passam então a se sentir emasculados, uma vez que o governo é o primeiro a lhes capar a virilidade financeira enquanto nós exibimos a nossa independência conquistada à custa de queima de sutiãs. Quando é que o fosso entre as Amélias e as Pagus da vida será eliminado? Ainda teremos por quanto tempo guerras sexistas veladas dentro de casa, que fazem com que releguemos os nossos companheiros à categoria de competidores inimigos e eles nos enxerguem como usurpadoras da sua preciosa masculinidade?
 
Ganhamos hoje companheiros - maridos, namorados, amantes - que tendem a lutar contra um sem fim de cobranças, numa idade que já deveriam supostamente ter encontrado o equilíbrio financeiro e emocional. Às portas de mudarem de categoria no escalão da vida, quando deixarão então de serem adultos produtivos para se tornarem velhos ociosos, o medo lhes invade a alma, pois percebem que tudo o que haviam sonhado, planejado e construído desfaz-se como um castelo de cartas. E é nessa hora que o nosso título de companheira deveria lhes valer. Mas não. Enterramo-nos nas nossas conversas fiadas de filhos e netos e cores de vernizes e lipgloss, orgulhamo-nos em pagar o batom com o nosso próprio salário e chamamos a isso independência. Mas ainda assim, queremos que ele nos pague a conta do restaurante. Mais um paradigma social.
 
E nos surpreendemos quando cada vez mais aumenta o número de amigos, conhecidos e celebridades que decidem jogar tudo para o alto à beira dos quarenta, cinquenta anos. Largam trabalhos estáveis,  longos e insossos casamentos pelo simples resgate da juventude, da esperança, como última chance de fazer o novo de novo, numa tentativa de valorização pessoal.
 
"E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele." Gen. 2:18
Se não somos ajudadoras, negamos a nossa origem, o nosso propósito.
 
Verónica Vidal
 
 

sábado, 31 de agosto de 2013

A menina e o cookie

A menina brincava de bonecas de papel, casinha e Barbies. Vivia no seu mundo cor-de-rosa de menina. Todos os domingos, vestia o seu melhor vestido e tocava piano para encantar as visitas, que muito se admiravam do bom comportamento da menina. Não dizia asneiras e na escola suas notas eram azuis como o mais limpo céu.
 
Um dia, a menina foi à cozinha e viu um cookie.
 
Era um cookie num jarro de vidro transparente. Um daqueles cookies cheios de pepitas de chocolate. O jarro de vidro estava fechado, em cima de uma prateleira muito alta, impossível da criança alcançar.
 
Mas a menina passou a ir à cozinha mais vezes, por gosto até. Sabia ser o cookie um biscoito, nunca tinha comido um, mas aquele não era um biscoito como as bolachas de leite lisinhas que lhe davam para o lanche. Era diferente. As imperfeições da sua superfície o tornavam tão fascinante que ela já não podia mais parar de pensar nele. Sabia perfeitamente que o cookie não era para ela. Cookies são para adultos, não para meninas pequenas. As pepitas de chocolate sujariam seu lindo vestido. Ela sabia disso. Ainda assim, começou a pensar em formas de chegar à prateleira. Uma escada, talvez. Não, poderia cair e quebrar a perna.  E como abrir o vidro?
 
Ser uma menina bem comportada e que toca piano é muito difícil.

Verónica Vidal

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Liberdade na Mordaça


E porque esta minha língua enrolada, que misturou-se a línguas estrangeiras e  perdeu-se no sentido e na loucura e castigada foi de tanto falar o que lhe ia na alma mas que socialmente não era aceite dizer, insiste em tentar buscar sons onde não existe eco. Porque já adormecida estava, e entorpecida e largada, fui então sacudida e despertada, arrancada do lodaçal da minha mesmice, do doce conforto da minha gaiola, para o rasgar do desejo incontido, do proibido gritante, sem palavras para gritar. Porque  tinha que haver música, tinha que haver dança, tinha que haver poesia, tinha que haver risos, tinha que haver paixão. Era imperioso fazer-me perder o fôlego, fazer arder-me estômago, tremer as pernas, na vontade surda da fusão, o unir de bocas, o juntar de corpos, o lamber suores, mas como é quente aqui! E o meu coração mostruoso, adestrado para calar, nasceu de retalhos picados, como um Frankenstein de Mary Shelley, parte dócil e castrado e a outra furiosamente egoísta.


Verónica Vidal - ser boazinha todos os dias é muito chato. Quer dizer, deve ser. Eu nunca fui. Nem um dia.








segunda-feira, 15 de julho de 2013

Hombres enamorados - No creo, pero que los hay, los hay!

E neste último sábado, dia 13 fui a uma sessão de autógrafos do livro de poesias "Templo do Fogo Insaciável", de António Vilhena.
 
Uma conversa leve e descontraída com o autor, que correu na loja de uma amiga, a livraria Celas, e foi esta a primeira vez que fui a um evento literário aqui em Coimbra. Muito diferente das grandes festas normalmente patrocinadas pelas Saraiva da vida lá no Rio, ou dos lançamentos nas bienais do livro, este cabia na sala da nossa casa. E isso criava um clima de intimidade que seria impossível se ali estivessem apinhadas trezentas pessoas. De brinde ganhávamos a leitura de algumas das poesias do livro, lidas ali pelo próprio criador. A leitura de um poema, quando provém diretamente da boca do autor, tem um outro perfume. Vem com a entonação que ele quis dar ao seu texto, com uma veracidade e um calor que ele mesmo quis imprimir à obra. Nem sempre nós conseguimos o mesmo efeito quando a lemos em casa. O fato é que eu não estava preparada para uma poesia que me roubasse o coração. Já conhecia o autor de uma outra obra, também de poesias, que me havia sido ofertada. Mas este livro é diferente do anterior. Ardente, inquietante, de uma poesia arrebatadora que nos rouba a alma. E de todo eu não esperava aquele momento perturbador. Menos ainda que um homem desnudasse ali os meus próprios sentimentos como se deles fossem. Faltou-me a roupa, senti-me nua, faltou-me o fôlego, vi-me muda.

Intriga-me saber que homens possam sofrer de carências afetivas, sentimentos tão tipicamente femininos. Talvez a minha quase total ignorância sobre o universo masculino tenha me tornado numa crítica ferrenha do chamado sexo forte. Cresci rodeada de mulheres. Mãe, irmãs, filhas, amigas, amigas das irmãs, amigas das filhas. Enfim, muito laçarote cor-de-rosa pela minha casa. Ouvir de um homem que o que ele precisa é de um abraço é desconcertante, posto que é raro. A maioria quer mesmo é pegar no teu peito. Talvez este tenha descoberto que o caminho mais sexy seja, na realidade, o do abraço, o do entrelaçar de mãos. Talvez uma mulher já lhe  tenha segredado e ele, finalmente, a tenha escutado. Ou talvez, só talvez, haja mesmo homens cujo carinho não seja apenas ingrediente para a conquista, mas tempero para a vida.

E assim nós, homens ou mulheres, seres concebidos com a necessidade incontrolável da paixão, pessoas que não se contentam com o beijo de ontem ou o abraço da semana passada, antes carecem do seu quinhão diário de toque, do eu te amo fora de horas, somos meio assim, feito cãezinhos abandonados. Apaixonamo-nos por quem nos dê migalhas de carinho, por quem nos estenda a mão.  Ainda que por breves momentos, que por poucas semanas, apaixonamo-nos. Pelo professor de matemática, pelo carteiro, pelo escritor que até já morreu, pelo colega de classe, pelo namorado, pelo marido. Porque o que amamos, sempre, é o amor.

Verónica Vidal  -“Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay” -  a Miguel de Cervantes Saavedra  é imputada a autoria da frase, que caiu no dito popular espanhol.

domingo, 14 de julho de 2013

Há noites quase perfeitas - é verão

E o verão que tanto demorava para aparecer chegou de sopetão. Apareceu tórrido, lancinante, a nos encher de calores, feito o António Banderas no filme... ah, todos! O verão daqui é um bafo quente e seco, diferente do Rio 40 graus a que eu estava acostumada onde, apesar dos famosos 40 graus - às vezes mais - quase sempre tem aquela brisazinha e invariavelmente é húmido, de forma a nos fazer transpirar feito torneiras rotas e assim regulando um bocadinho a temperatura corporal.

Tudo acontece no verão. Os festivais de música, as festas, as feiras populares e, é claro, as férias. Tenho a impressão de que as pessoas andavam enfiadas numa gaiola por 9 meses inteiros e no verão são soltas pelas ruas, desesperadas, sem saber o que aproveitar primeiro. E então vem a época da praia, as revistas que prometem a dieta detox-enxuga-últimos-quilos, e o arrependimento de ter passado todo o inverno agarrada a presuntos e salsichas, queijos e vinhos, leitão e pastéis de nata. Lá vai a mulherada para os centros de estética a fim de eliminarem as celulites e pneus que saltam pelo biquini. Os atletas de verão acotovelam-se nos parques e beiras das pistas, todos em prol da saúde e boa forma cuja determinação mais uma vez, só há de durar 3 meses.
 
As paixões de verão também nos parecem mais interessantes. Vamos combinar que sexo debaixo de dois cobertores e um edredom não é a mesma coisa que pular pelado em cima da cama. Ah, é claro, tem sempre o inconveniente dos mosquitos, do suor naquela noite excessivamente quente, já que nunca estamos preparados para o calorão, apesar dele chegar todos os anos, igualmente ardente feito malagueta em acarajé. Colecionamos cobertores e aquecedores, mas nunca temos um ventiladorzinho chinfrim encostado para os dias de calor. E basta o sol derreter nossos corpos debaixo dos telheiros da cidade, a correria desvairada às lojas para comprar ventiladores, ar-condicionado e afins, faz lembrar dia de Cosme e Damião no Rio. É, eu também comprei um. Era o penúltimo. Tive sorte.

Nem tudo é bom, nem tudo é ruim no verão das bandas do lado de cá. Para quem espera pelas férias, o calor escaldante até faz jeito, já que tenta-se a todo custo um bronzeado a jato nas leitosas peles que andaram cobertas por meses a fio. Para quem amarga o labor debaixo de suor, sem samba ou cerveja, só resta é reclamar do calor, coisa que o povo sabe fazer sempre bem.

Para mim, deliciosas são as longas tardes, as doces noites, onde se pode passear sem os pesados casacos. Apreciar a lua, ou a noite sem lua, passear à beira mar. Estes são os meus programas de verão. Há quem ame o sol. Eu prefiro a lua.

Verónica Vidal

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Desvire o Santo Antônio, que ele já não casa ninguém!

Quero um pedido de casamento inesquecível, que seja televisionado, que exploda na internet e tenha milhões de likes. Quero uma festa de casamento memorável, com vestido de princesa, dia da noiva e chegada em carruagem à igreja ornada de flores. Quero uma lua-de-mel em Paris, com fotos de beijos na Torre Eiffel e passeios pelo Sena. Hei de casar na primavera européia, quando as flores embelezam as cidades e todo o cenário esteja perfeito. Voltaremos para casa e seremos felizes para sempre. 

E pareceu-me que a felicidade ficou resumida a um único parágrafo, já que o árduo trabalho será a construção da vida a dois, que só se dará depois da festa. É o tijolo a tijolo, o bom dia querida/o, o real interesse no bem estar do outro é que fará fluir felicidade. Paris sem amor, será sempre somente uma cidade. É mais fácil conquistar um novo amor do que recuperar o que está perdido dentro da sua própria casa. O novo amor é sempre surpresa, não conhece seus defeitos, você não conhece os dele. Ele ainda não te decepcionou, você ainda não o magoou. Talvez por esse motivo, tantos casais se separem. Porque antes de tudo, perderam-se dentro de casa. Porque deixaram de andar de mãos dadas, deixaram de fazer carinho no rosto, massagens nos pés, deixaram de se elogiar, e, quando o fazem, é de forma mecânica e cheira a obrigação. Fazem sexo. Bem menos vezes e com menos animação. E, quando o fazem, é de forma mecânica e cheira a obrigação. Saem juntos, jantam juntos. Mas são apenas duas pessoas separadas, dispostas no mesmo espaço. Casamento sem namoro está fadado ao insucesso. Se você tem preguiça de namorar, não case. Nem ao menos vire o Santo Antônio de cabeça para baixo, siga meu conselho e mantenha sua solteirice intacta. Ou colecione divórcios. Ou infelicidade. Ou chifres. Ou um conjunto disso tudo, num cofret desastradamente embalado.

É verdade Santo António
Que pr'ocê fazer casar
É preciso que te deixem
Sempre de pernas pro ar?

Então eu vou te virar
E um pedido vou fazer
E só te deixo de pé
Depois que você me atender

...
Li essas quadras há muitos anos, num livro que havia lá por casa, parte integrante de uma enciclopédia que usávamos para fazer trabalhos de escola na primária. Nunca esqueci do poeminha, que tem mais duas estrofes. E, com o tempo, misturado às histórias de Cinderela que são contadas às meninas, notava que tudo acabava com o "achar um marido", como se esse fosse o objetivo de vida de todas nós, e a felicidade plena estaria aí. Mas eu não via felicidade plena na vida da minha mãe. Eu queria a felicidade plena dos filmes, dos livros, das histórias. Não aceito menos.

Eu não tive um pedido de casamento inesquecível, nem uma festa memorável. Não tenho ao menos uma foto do meu casamento e eu não era uma noiva especial. Era inverno e fazia frio. Não houve lua-de-mel em Paris. Tudo isso, ainda que lindo, é dispensável. O que não posso prescindir é de um casamento sem namoro.

"Se você quer ser meu namorado, ai que lindo namorado, você poderia ser. Se quiser ser somente meu, exatamente essa coisinha, essa coisa toda minha, que ninguém mais pode ter. Você tem que me fazer um juramento, de só ter um pensamento, ser só meu até morrer" (Vinicius de Moraes - adaptado)

terça-feira, 16 de abril de 2013

Coimbra Tem Mais Encanto em Vários Cantos

Rio Mondego e Parque Verde ao fundo - Coimbra
Hoje acordei com o canto dos passarinhos. De imediato lembrei-me da cena em que Branca de Neve canta com os bichinhos, no desenho de Walt Disney. Logo que o sono me saiu do olho, percebi que a primavera timidamente começava a se instalar, apesar das garras do inverno ainda estarem bem fincadas por aqui, com toda a sua pluviosidade cinzenta como o chumbo. Aqui e acolá já se notam flores a desabrocharem lentamente, arrancando mais sorrisos das pessoas, que também vão se abrindo junto com o tempo. As orquídeas da varanda abriram, as azaléas que já no ano passado pensei terem sido devoradas pelas formigas, ressuscitaram. A primavera por aqui é assim: faz-se notar, todos os dias, botão a botão.

Quando eu morava no Rio, fazia um lindo percurso de casa para o trabalho. Era um trajeto de cartão postal, absolutamente inesquecível. Cruzava a Ponte Rio-Niterói diariamente, com a linda vista da Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, por uns bons 30 minutos em trânsito livre. Aquela vista era incansavelmente elogiada, por mim e por todos, com exceção dos mal humorados que são incapazes de se deleitar com uma vista bonita, ainda que seja a do Rio de Janeiro. Por alguns minutos, tudo fica perfeito, porque o céu se encontra com o mar, porque as nuvens são brancas e porque a topografia é um desenho de Deus, e Ele nos ama, para nos permitir viver ali, e apreciar aquela maravilha. Depois, voltamos a pensar nas nossas vidas e nos nossos problemas e nas contas para pagar, mas aqueles preciosos minutos de relaxamento fornecidos pela linda vista são uma bênção sem tamanho, são a recarga de energia necessárias para continuarmos com o fardo que algumas vezes é a vida. Eu preciso de um lugar bonito.Preciso desta energia visual para começar o meu dia, ou para terminá-lo. Competir com a vista do Rio de Janeiro seria difícil, muito difícil.

Logo que vim morar por aqui, debati-me como peixe fora d'água, agarrado pelo anzol. Somente via que perdera o mar, que não mais nadava no lindo oceano azul. Custei muito a perceber as belezas da nova terra, pois andava ocupada demais lamentando a falta que me fazia o calor e a música, a praticidade e toda uma facilidade de convívio que eu havia deixado para trás. Achava interessante uma e outra novidade, animais da fazendinha que antes só poderia ver no espaço "Bichos da Fazenda" dentro do Zoológico, atrás de uma grade, como pertencentes a uma realidade muito distante, agora podiam comer da minha mão e moravam no meu quintal. Ainda assim faltava a bela paisagem. Eu morria pelo visual carioca, pelo trajeto bonito de casa para o trabalho. Até que Caetano Veloso me disse, dentro do carro, às 8:30 da manhã: "...porque Narciso acha feio o que não é espelho...". E eu abri os olhos para apreciar a fileira de plátanos que se estendem pela estrada Nacional 111, desde a rotunda da Cidreira até chegar a Coimbra. Árvores ligeiramente inclinadas, que cresceram beijadas pelo vento, ordenadamente dispostas e que refletem as diferentes estações do ano com toda a magia. Até ontem estavam nuas do inverno. Hoje, já se vestem de folhas e uma ou outra flor vai colorindo o caminho. Chego ao trabalho e tenho o Parque Verde debruçado sobre mim, como que a convidar-me ao passeio à hora do almoço. Patinhos a pedirem migalhas de pão enquanto encantam meus olhos em seus tranquilos desfiles pelo rio Mondego. E eu, guardo a minha saudade no bolso e agradeço a Deus, porque Ele me ama, por me permitir viver aqui, e apreciar esta maravilha. Hoje volto para casa ouvindo uma música de Rui Veloso.


Verónica Vidal - ainda se encanta quando precisa parar na estrada para deixar passar um rebanho de ovelhas. 


quarta-feira, 20 de março de 2013

Pés que Correm - Ultrapassando Limites

Minha brilhante conclusão é a de que a enorme façanha da vida muitas vezes não vai além do sair dos lençóis. Inúmeros dias meu desejo solene é estar enroscada feito um caracol, até que a velhice me leve e que o pó me consuma. Passo a semana toda esperando ardentemente pela sexta-feira, simplesmente para que chegue o sábado e eu não saiba o que fazer com ele. Às vezes para não fazer nada. Falta-me propósito. Falta-me o tesão. 

Pela primeira vez, meu marido e mais um casal de amigos correram uma maratona inteirinha. São 42,195 km. É muito chão. E você até pode dizer: E daí? Muita gente corre maratonas. Talvez você conheça alguns, talvez você corra. Eu não corro nem daqui à esquina, na verdade não me dá prazer algum em correr, o que não me impede de admirar a determinação de quem o faça. Muito além da admiração, faz-me pensar na vida e nos seus propósitos.

Por que afinal, corriam eles, se não era por medalhas, por fama ou por dinheiro? Por que afinal, correm aqueles mais de 7 mil anônimos que lá estavam inscritos na famosa maratona de Sevilla? Para superar suas próprias marcas, para testar seus limites, respondia uma vozinha lá no fundo.

E por ter essa mania de pensar, segui pensando. Pensei que todos nós temos limites que precisamos superar. Sejam os ponteiros da balanca que têm que descer um bocadinho, seja aquele curso que queríamos ter feito há uns 20 anos atrás e nunca fizemos, seja a carta de condução que nunca tiramos, ou que tiramos, engavetamos, mas não conduzimos. Todos nós temos limites a superar, sejam eles da enormidade de maratonas, sejam minúsculos como uma caminhada à esquina, todos são, para nós, grandes façanhas. Toda grande façanha começará com um passo. De cada vez. Todos os dias, uns poucos passos de cada vez. Algum investimento, alguma renúncia, um bocadão de esforço e plum! A felicidade do limite ultrapassado é indescritível. 

Sair da concha, afastar os lençóis para o lado, catar o tesão que caiu no chão, lavar a cara e falar tem sido minha maratona diária. Ir trabalhar é só o meu escudo. Meu marido é a minha inspiração. Porque, se hoje, ele vai dar uma corridinha, eu vou ler mais um bocadinho, e em voz alta, muitas palavras com R e com L, porque o rato não raro rói as palavras que queríamos falar e de tanto não falarmos, elas nos ficam enterradas no peito e na garganta, e nos morrem na cabeça, empurrando-nos de volta à concha e aos lençóis.

Verónica Vidal - Parabéns, Mário! Na maratona que é a nossa vida, és o meu campeão, com 4 min de vantagem!



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Natal III - Sobre esta Pedra edificarei a minha vida

No dia 26 precisávamos devolver o carro que tínhamos alugado. Fim de ano no Rio de Janeiro é sinônimo de cidade lotada, todos sabemos disso. Fazer reservas com antecipação, é obrigatório. Até mesmo nas Rent-a-Cars. Mas eu não estava nada triste, a cidade é bem provida de tranporte público, não tínhamos intenção de ir para longe e encontrar estacionamento na Zona Sul já se havia revelado um martírio. Ok. 

Eis que tia Denise - a tia miss, que apaixonou-se pela Bahia e pelo baiano, não nesta ordem, é claro - telefona e diz: "Vamos à casa da Gisele?". Eu já sabia que iria lá, não sabia como, mas iria. Falei com meu marido, que de férias topa tudo, até fila do INPS, e pedimos instruções para lá chegar. Ora bem: Tia Denise não vive mais no Rio há uns muitos anos. Eu não vivo mais no Rio há uns outros tantos. Como ir de ônibus de Botafogo à Pedra de Guaratiba? Resultado: 1:20 min à espera de um ônibus que nunca vinha, um português sentado na calçada e o tempo a correr. Telefonei de volta à minha tia e resolvemos pegar um ônibus comum para a Barra, e de lá pegaríamos um BRT, conhecido como "Ligeirão". Parecíamos duas figurinhas recém saídas de uma comunidade amish: Tudo era novo, tudo era "fixe". Desejei ter um Ligeirão do Zambujeiro a Coimbra. Fiquei a pensar porque os brasileiros engrandecem suas coisas ao batizá-las, como Ligeirão, Orelhão, Mineirão, Mergulhão, Mensalão... Bem, melhor deixar essas conversa para outra hora.

E, depois de muitos telefonemas daqui pra lá, de lá pra cá, chegamos. Minha madrinha estava à nossa espera na saída da estação. Tio Carvalho ao volante, abraços e beijos e lá fomos conhecer sua casa nova. Muitas coisas aconteceram naquele dia. Muitas coisas com palavras e montanhas de coisas sem um único fonema. Havia lá uma peixada à nossa espera. Segundo o meu Mário, o melhor almoço que ele já teve no Rio. Mas esse é o jeito dele de dizer: "Caraca, isso aqui tá uma delícia" (livre tradução minha).

Depois do almoço, Mário se esparrama na rede da varanda, enquanto eu e minhas tias tagarelamos na sala. Mulheres falam muito, eu sei. mas nós juntas, falamos mais. 

Tia Gisele e seu marido, Mário Carvalho (sim, ele também é Mário, um tipo porreiro, como diz o meu), vivem na Pedra de Guaratiba há uns tantos anos - sou péssima de datas, não exijam muito de mim - e são pastores líderes de uma igreja protestante. É óbvio que a vida não foi sempre assim. Ele é um tipo bonachão e prático. Ela é um tipo carismática e doce. 

Eu tenho uma relação muito especial com a minha madrinha. Sei que não é uma relação de amor em via única, há reciprocidade e muita, mas é que há coisas que não se explicam em palavras, porque não há letras suficientes para desenhar determinadas relações. Ela é jovem demais para ser minha mãe, mas nossas vidas sempre se entrelaçaram de um jeito ou de outro, empurradas por um não sei o quê de misterioso. Ela lá estava no meu primeiro emprego. E no segundo. Nunca me olhou torto e nunca me julgou. Sempre me abraçou. E passados muitos anos, quando ficamos pessoas grandes, conhecemos o mesmo Deus, e professamos a mesma fé, e falamos a mesma língua. E hoje eu olho para trás e vejo que esta é a língua que falamos desde sempre, o que não tínhamos era bons ouvidos. 

Saímos de lá com muita pena. Pena de não termos ficado mais tempo. Pena de não termos ficado para dormir. Pena de eu não ter mexido na maquiagem dela. E saímos felizes. Porque, se ela tivesse ido à casa da vovó na véspera de Natal, eu provavelmente não estaria ali. E é assim que Deus escreve. Certo. Nós é que entortamos as linhas. E eu me fui com a certeza de que Deus me ama. É mais um jeito que Ele tem de dizer.

Verónica Vidal - Quem tem ouvidos ouça

Natal II - A Morte do Boneco de Gengibre

Eu bem que tinha tentado trazer a novidade européia do biscoito de gengibre para o nosso Natal brazuca, mas ele não resistiu ao calor dos trópicos e desmanchou-se todo. Foi igualmente comido, mas nunca virou um homenzinho. Minha sobrinha pergunta: E não vai haver pudim de leite? Claro, eu faço o pudim para ela. São duas meninas completamente diferentes na personalidade, as minhas sobrinhas. Uma, com a doçura do mel, que já se adivinha a suavidade. A outra, com sabor a sapoti, mais rara, é preciso tirar a pele, e quem provou nunca mais esquece. Chegamos enfim à polémica do pudim: Valéria insistia que o pudim deveria levar 5 ovos e eu usei 6. E lá ficou aquela discussão infantil entre duas mulheres pra lá dos quarenta acerca da diferença de um ovo no pudim. Por mais idiota que se possa parecer, essas são coisas que só acontecem com irmãos. E eu sinto muita falta de discussões por um ovo, ou por quem vai sentar ao lado da mamãe. Mas o pudim ficou um espetáculo. O calor na cozinha era intenso e meu marido preparava o bacalhau - genuíno português, trazido em genuíno contrabando, escondido nas malas, entre vinhos e azeites. Afinal, como casar com um português, levar o português ao Brasil e não levar um bacalhau português no Natal? A alfândega que reveja seus processos, pois isso cria problemas familiares sérios, e a lei na minha família é primordial. O bacalhau foi feito em dose dupla. Já que teríamos dois natais. A cozinha fervia. O ventilador que lá estava para amenizar o calor, começava a tomar as formas do Tom Cruise. Passei a amá-lo com intensidade.

Partimos para o primeiro Natal. Eu com uma travessa de Bacalhau à Gomes de Sá ao colo, mala do carro cheia de presentes, fomos buscar Thaissa e seguimos para casa da vovó.

Saímos da casa da vovó antes das duas da manhã. Eu conduzia um carro alugado, que teimava em ter a embreagem mais alta do que o meu pé pequeno e que me obrigava a levantar a perna a cada mudança de marcha. É, confesso. Tenho preguiça de dirigir. Sou daqueles condutores de um carro só, cujo veículo vai praticamente sozinho de casa para o trabalho e que, quando precisa mudar de carro ou de percurso, ou se perde ou fica à procura dos botões de acender faróis, alavancas de limpa-para-brisas. Mas, não havia remédio. Eu tinha feito um acordo com o maridão de que, desta vez, ele podia estar à vontade para um ou outro copo de cerveja que eu conduziria na volta. Promessa é dívida. E sem GPS.

Minha memória falhou pouco e conseguimos cruzar a Serra Grajaú-Jacarepaguá e ao passar pela Teodoro da Silva, em Vila Isabel, minha infância e adolescência ainda martelavam aqui na memória. Era um tal de "morei ali", "estudei ali", e assim cruzamos o Rebouças e chegamos à Lagoa, ao Humaitá, onde vive a minha irmã que nos hospedou, mais espcificamente no quarto da minha sobrinha Taila, que cedeu, feliz e contente, seu quarto para a nossa estada. Encontramos acordados alguns dos remanescentes celebradores natalinos. Ainda haveria o Dia do Natal. O dia 25. A troca de presentes das filhas da D. Lina. Nestas horas, o meu pai sempre teve papel secundário, como eram os pais na maioria dos casos, pelo menos os da minha época de menina. Éramos as filha da Lina, e assim permanecemos, até hoje. E a organização da mesa de Natal e das festinhas ainda têm um quê da mamãe. 

Dormimos, acordamos e, quem estava já estava e quem não estava foi chegando. As filhas da D. Lina se multiplicaram em mais filhas, maridos, noivos, enteados, gatas e peixes. Por aqui não há a organização portuguesa de sentarem-se à mesa para almoçar ou jantar. Sentamos à mesa, sim. Mas levantamos, e sentamos de novo, ou levantamos e sentamos na almofada se não há lugar para todos. Nunca alguém deixou de ser convidado por falta de cadeiras e nunca alguém deixou de ir por falta de convite. E trocamos presentes. Claro, é Natal! Trago comigo todos os dias o cheiro deste Natal, pois meus presentes ou têm cheiro ou os carrego junto a mim, e cheiros despertam-me memórias. Minhas filhas riem de tudo e riem de nada. Minhas sobrinhas fazem o mesmo. E percebo que eu e minhas irmãs não somos diferentes. Temos apenas um pouco mais de anos e um pouco mais de quilos, já que acumulamos mais natais do que elas e ninguém passa incólume a uma mesa como a nossa.

Verónica Vidal - de perto, todos são loucos. Mas nós somos um bocadito mais. E eu gosto.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Natal I - Tradição existe para ser quebrada

 Os tempos por cá andam difíceis, toda a gente a reclamar da falta de dinheiro, muitos a perderem seus empregos e os negócios levando mais calotes do que se pode suportar. Assim sendo, ficou decidido que nestas férias eu daria a conhecer ao meu marido, in loco, duas das coisas que mais amo: O Natal na Casa da Minha Avó e o Reveillón de Copabana. Sem dúvida, é um desafio colocar aqui, em poucas palavras, eventos memoráveis como esses. 

Voltar para casa em épocas festivas tem sempre um sabor diferente. Comigo também é assim, claro. Ando fora do meu ninho há uns 10 anos, e passar Natal e Ano Novo em casa, é tudo no melhor estilo "De Volta Para o Passado".

Na falta de uma máquina do tempo, compramos uma passagem Lisboa - Rio pela TAP. Logo na chegada, fomos recebidos pelo delicioso bafo quente da minha cidade maravilhosa. Irmã, cunhado, sobrinho, filha e genro à minha espera no aeroporto. Porque brasileiro é assim. Nada de pegar táxi. Família espera mesmo é no aeroporto, ainda que o avião chegue de madrugada e atrase horas. E ali percebi que minha família me ama. É um jeito de dizer sem falar.

E isto acabou por virar um conto, e já que assim é, comecemos então por um capítulo.


Natal I - Tradição existe para ser quebrada


Fomos dos primeiros a chegar à casa da vovó. Lá estavam já alguns primos baianos acariocados, sua filhota fofa, minha tia miss Rio de Janeiro que abaianou e um amigo-gente-boa, que já tinha sido de tudo que era lugar mas aportou pelo Rio e ali foi ficando, por força da vida, por força das amizades, por força daquele não-sei-quê que a gente nunca sabe. Toni. Gaúcho. Era mais um sotaque, mais um na família, porque assim é que é, vai-se abraçando quem chega e quem chega vira dono e toma pedaço.

Logo aparece meu irmão, e eu esmago com abraços um homem feito, como se ainda 5 anos tivesse. Já não o via há tanto tempo. E conto-lhe do dia em que havia esquecido dele em casa. Foi numa festinha de aniversário da minha filha Camila, que iríamos comemorar no Corcovado. Meti a criançada no carro e seguia pelo túnel quando, diante do burburinho das crianças no carro eu reclamo: "Meninas, fiquem quietas, o único que está quietinho é o Washington"  E elas imediatamente respondem: "Mãe, o Washington não está aqui". Eu tinha me esquecido de ir buscá-lo! Ele devia ter uns 5 anos, na altura. Deixei as crianças junto aos outros pais, próximo ao lugar da festinha e corri de volta para buscar meu irmão. Com 5 aninhos ele estava todo arrumadinho, sentadinho na cama, a baloiçar os pezinhos e disse: "Você demorou!". Não lembro da minha explicação, mas decerto que não foi a verdadeira. Como dizer a uma criança de 5 aninhos que ela havia sido esquecida? Pois só agora, passados tantos anos, confessei meu pecado. Foi catártico.

Meu irmãozinho cresceu. Está noivo e dirige. Ele é fruto do segundo casamento do meu pai, que já por cá não anda, mas sua mãe lá estava, e, apesar de pequenina, com razão cresce uns poucos centímetros de orgulho que tem nele. Coincidência ou não, minha avó só decidiu entrar em cena depois que meu manito chegou. Até então, para ela, a festa de Natal ainda não havia começado.Tive uma ponta de vaidade por isso. Coisa feia esses sentimentos que teimo em não arrancar de mim.

Uma ou outra coisa muda, como a churrasqueira que já foi um monte de tijolos amontoados num canto ao pé da jaqueira, depois ao lado do muro e agora deu lugar a um aparato todo tecnológico, com entradas e saídas de vapor, e coisas do tipo. Fiquei achando que seria preciso tirar cursinho para usar a churrasqueira nova. Mas a verdade é que o churrasco estava lá. A turma do muro, aqueles que ficam mais perto da cerveja e dos petiscos, também lá estavam, bem mais contidos do que outrora, já que a lei seca não perdoa e o guaraná vira então o rei da noite, e isso só serviu para provar que álcool nunca fez falta para a alegria da festa. Havia um diversidade de petiscos, mas o sucesso geral foi a sacanagem. Nunca dei tanta credibilidade ao sabor em si, mas quem batizou esta mistureba espetada num palito é um génio. Anónimo, mas é. Você não sabe o que é sacanagem? Monique manda a receita. Guilherme faz. Na próxima, vai rolar até um molhinho. Ou não, sei lá. Sempre alguma coisa fica esquecida. É tradição nas festas da minha família e ainda assim está tudo muito bem.

Minha filha armou-se em criança e foi brincar de Polly, com a desculpa de montar o brinquedo da priminha, já que a distribuição de brinquedos para os menores foi mais cedo, uma vez que cambaleavam de sono e já ameaçavam com o chororô típico dos dois, três aninhos. O calor intenso nos obrigava a ficar na varanda, onde a festa estava animada pelo som de gosto tremendamente duvidoso do vizinho, mas ajudando na economia da contratação de um DJ para a nossa própria balada. De qualquer forma, ninguém se lembraria mesmo da música que tocava, pois a conversaria era tanta até que se faz tarde demais e nada da minha madrinha chegar. Como eu já disse, minha madrinha é minha tia, mas madrinhas e padrinhos são tios especiais, e a minha é a mais especial de todas, pois, além de ser minha, é madrinha de praticamente todas as crianças da família, grandes e pequenos, para o meu ciúme mortal. Preciso expurgar isso do meu coração. Coisa feia.

O que eu nunca disse, é que ela sempre foi uma atrasilda*, mas era perdoada pelo atraso pois vinha acompanhada de uma travessa com um quitute delicioso. Mas ela não foi. O quitute também não. E eu chorei. Porque esqueci que eu já era adulta e tinha entrado na minha máquina do tempo, no meu "de volta para o passado". E chorei muitos baldes de choro, pois as crianças de três anos já tinham recebido seus brinquedos e eu não tinha recebido o meu. E porque não se pode entrar numa máquina do tempo assim, sem mais nem menos, pois o dono do tempo é Deus. E eu nem sabia que Ele estava preparando para mim o meu presente de Natal. 

Lágrimas secas, minha tia miss, que sempre agitou a criançada e nunca deixou a peteca cair fez-me lembrar a minha avó. A lágrima pode durar um minuto, mas a alegria, há que perdurar para sempre. Porque é verdade.

Era a hora da oração, já quase meia noite. Era hora de distribuir presentes, de abraços e beijos, de Feliz Natal, de amigo oculto.

E a foto oficial ficou esquecida. Sempre alguma coisa fica esquecida. Mas ainda assim, fica tudo bem.

E a Monique me disse, uns dias depois, que no dia seguinte meu padrinho tinha ido de manhã à padaria comprar pão.




Verónica Vidal - Aprendendo que amor, tempo e festa, são coisas transcendentais. Não podem ocupar um um espaço determinado. Vou perceber um pouquinho mais disso, daqui a pouco.


* Nota do autor - Palavra inventada por alguém, ou por mim mesma, sei lá, porém sem registro autoral.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Uma História de Princesas e Castelos.

 Quando as minhas filhas eram pequenas, gostavam de ouvir histórias. Havia uns fascículos que eram vendidos aos domingos e assim completava-se uma coleção de historinhas infantis. Aquilo lá vinha acompanhado de umas fitas cassete, que não só contavam a historinha que o livrinho trazia escrito mas também as canções. Até hoje lembro de várias das musiquinhas. E vez por outra eu sinto falta do mundo mágico dos contos de fada das histórias infantis, das princesas e heróis, dos castelos e sapatinhos de cristal.

Ainda há poucos dias, tive a grata felicidade de perceber que continuamos rodeados dos heróis e princesas. Eles apenas mudaram de roupas. Sem dúvida, usar cristal nos pés não há de ser lá muito confortável.

Quando conheci meu marido, ele gostava de correr e já o fazia há muitos anos. Enfiava um short, metia uns tênis, e saía correndo. Para quem corre 5 km., está ótimo. Ao perceber que ele corria 20 km., minha chatice natural aflorou e passei a reclamar de inúmeras coisas. Uma delas era: O sapatinho já não poderia ser um qualquer. E assim começou. Daí para juntar-se a um grupo de amigos e correrem meias-maratonas, trails, maratonas, foi consequência. E é aí que nossa história começa.

Eu tinha certeza de que conhecia a moça de algum lugar, mas ainda não havia atinado de onde. Tinha aquela beleza clássica, desprovida de adornos, aquele meio sorriso tímido de quem quase pede desculpas por ser feliz.  E foi na preparação para uma destas maratonas que encontrei seu Cavaleiro, à procura de um sapatinho, indeciso na escolha. Maratona corrida, etapa vencida, a moça bonita lá estava, firme e linda, como se nada se tivesse passado, como se o frio não lhe tivesse congelado os dedos, como se a chuva não lhe tivesse fustigado a cara. Quis a divina vontade que eu viesse a viver numa terra recheada de castelos.  E quis ainda a vontade divina que houvesse tempestade neste dia e nos faltasse luz em casa. E lá fomos nós, conhecer o castelo da moça e seu Cavaleiro.
Edward Coke, um político do século XVI, já dizia que a casa de um homem é o seu castelo. Políticos não costumam dizer muita coisa que se aproveite, mas este aí, por acaso, falou algo de jeito. O fato é que, naquele castelo, respirava-se amor por todos os pontos. As casas contam histórias sobre seus habitantes. Casas extrememente arrumadinhas, como as de revista Vogue, dão-me uma qualquer impressão estéril, impessoal, assexuada, e não me fazem sentir que alguém ali vive. Aquela ali não, era mesmo um castelo. Desde o cobertor jogado no sofá, demostrando que aconchegava, à toalha de mesa aos quadradinhos, passando pela mobília antiga de sala displicentemente colocada. Notei um detalhe na mobília e a moça distraídamente me explicou: Foi comprada de segunda mão. Tinha uma expressão tão tocante, e tão rara nas pessoas de hoje em dia, que vivem para mostrar, que têm salas que não usam, cozinhas que não entram. Então, lembrei-me de onde eu a conhecia: Era do cinema, era dos livrinhos das histórias das minhas filhas, era do grande ecrã. Era a princesa Lara, que, sabendo-se princesa, vestia a armadura e lutava como um cavaleiro.

E o seu Cavaleiro, pode até nunca se decidir a escolher sapatilhas, mas escolhe uma princesa como ninguém!

Verónica Vidal - aprendendo a reconhecer a nobreza, mas feliz por ver que ela ainda existe.