sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Pequenos Passos

Imagem: Twin Heart, by Christian Schloe 
E nós íamos juntas ao colégio Guanabara, cada uma de nós segura pelas mãos da D. Lina. E envergávamos nossas lancheiras cor-de-rosa e amávamos nossa professora, a tia Conceição. Era o pré-primário, nosso primeiro ano de escolinha.

E brincávamos de roda e de pique alto na vila onde morávamos. E desfolhávamos marias-sem-vergonhas para fazermos unhas postiças, bem presas nos nossos dedos com cuspe. E disputávamos quem embalava melhor o carrinho da bebé.

Mas ela logo entrou para a primeira série e eu fiquei para trás. Já não podia mais estar na mesma sala de aula da minha irmã. Ela tem um ano a mais, é mais esperta, está à frente. E eu fui, mal e mal, seguindo os seus passos.
Nos bailinhos de carnaval no Clube Vasco da Gama, onde exibíamos as nossas fantasias – sempre iguais, nunca repetidas – habilmente confeccionadas pela D. Lina – dançávamos sempre de mãos dadas ou bem pertinho uma da outra, que era para não nos perdermos. Fomos índias, baianas, havaianas, empregadas domésticas, usamos sarongues e pareôs.
Nossa primeira vez na discoteca foi memorável. D. Lina nos levou e por lá ficou, enquanto nos acabávamos na matiné de domingo do Olaria. E um dia fomos à discoteca no clube de Iguaba. Sem a mamãe. À noite. Com rapazes. Não, não fomos. Minha irmã foi. Eu era só a irmã mais nova que tinha que ir também. E fui junto.

E fui crescendo à volta dos amigos da minha irmã, que sempre compartilhou comigo um bocadinho de tudo. Era como se ela primeiro experimentasse a sopa a ver se estava muito quente, muito salgada, para só depois eu ir provar também. Toda a nossa infância e pré-adolescência foi assim, até que ficamos gente grande e cada uma seguiu seus próprios passos. Já não usamos mais roupas iguais, já não frequentamos mais os mesmos lugares, já nem vivemos mais no mesmo país. Mas para sempre ela será a primeira, a minha irmã mais velha.

Verónica Vidal
À minha irmã Valéria, que não é minha gémea mas toda a gente achava que sim, os meus parabéns!

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A verdadeira história da Mulher Maravilha e seu filho herói

Imagens não cedidas. Fonte: Arquivo secreto da Mulher Maravilha
Ainda no outro dia assisti o filme da Mulher Maravilha. Impossível não bater aquela saudade da infância. Eu costumava brincar de Mulher Maravilha com a minha irmã mais nova. E saltávamos da janela para o sofá a fim de salvarmos um qualquer personagem imaginário em perigo. E cantávamos a música da série, no nosso inglês inventado, para dar ênfase às ações de salvamento. 

Mas a verdade é que nós conhecemos a Mulher Maravilha verdadeira e toda a sua história.

JP, filho dos meus primos Monique e Cunha, nasceu com espinha bífida - ou mielomeningocele. É dessas coisas que lemos e temos que ir ao google para descobrir o que é. Quando eu conheci JP, ele era um bebê de uns 6 a 8 meses, com as duas perninhas engessadas. Era gorducho e fofinho como todo bebê, mas com pouca esperança de vida, assim diziam os médicos e assim nos foi segredado. Só que o JP é filho da minha prima, mulher nascida na família mágica que é a minha. E ele foi crescendo em meio a zilhões de cirurgias nas pernas, na cabeça e sabe-se mais lá o que, intervaladas com infecções de urina, com curativos e com amor. Muito amor. E a minha prima Monique o carregava ao colo, muito depois desse tempo de bebê, sendo já JP um garoto crescido e pesado, levava-o para um sem fim de tratamentos, de hospitais, de exames, mas também a aulas e a festas. E JP foi crescendo sabendo que era amado e que era especial, porque seus pais nunca esconderam dele os seus superpoderes. Foi mais ou menos nesta época que eu comecei a desconfiar de que ela era a Mulher Maravilha. É mais do que uma semi-deusa. É que o próprio Deus está com ela, todos os dias.

Casou-se com um policial, homem grande e forte, que livra os mortais dos perigos das ruas. Não poderia ser diferente. E, sendo a mulher que é, deu ao JP uma linda irmã bailarina e cor-de-rosa. Assim a família completou-se perfeitamente, como num filme. Vive dia a dia a sua missão e colhe aqui e acolá os louros da vitória. Luta com seus braceletes mágicos e agarra a vida com o laço da verdade.

JP cresceu desafiando a ciência e as previsões da medicina. Fez um ano, dois, três, quatro e muito antes disso já sabíamos que a conversa da vida breve viraria história. Foi pajem no casamento da nossa prima. Eu, que sempre sonhei ser daminha de casamento e nunca fui contemplada, via e revia as fotos da cerimónia, com aquele crescente orgulho de prima. E lá estava JP, de fraque, sentado na sua super cadeira de rodas, sorriso aberto a cada flash. Nunca vi uma foto sequer com JP sério ou triste. Todas elas exibem aquele sorrisão delicioso.

Hoje JP ingressa na Universidade Federal do Rio de Janeiro. É curioso como ele passa os dias a ensinar a todos nós como se deve viver a vida. Agora vai ensinar a mais pessoas que o importante é viver, amar e sorrir, além das informações acadêmicas que acabam por ser importantes para a vida profissional. Heróis são assim. Sabem sempre um bocado mais do que nós e usam seus superpoderes para nos proteger. João Pedro é o herói que nos ensina que tudo se pode superar, que todos temos superpoderes, só precisamos é aprender a usá-los.

Verónica Vidal - a orgulhosa prima da Mulher Maravilha e do seu filho herói.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Família - conjunto de pessoas que amamos.

Já reconheço pouco da minha família alargada. Quando falo de família alargada, falo de todo aquele mundão de gente aparentado de alguma forma, seja por relações de sangue ou por afinidades. Minha árvore genealógica recente é tão complicada que me dá preguiça de explicar. Tenho tias que não são exatamente tias e primos que não são exatamente primos por conta de diferentes casamentos aqui e acolá. A questão é que eu cresci sem me aperceber disso porque esses assuntos nunca foram colocados. Não havia uma tia "menos tia" porque não era irmã do meu pai ou um primo "menos primo" porque seria filho de um meio irmão - gente o que é essa coisa de meio irmão? Somente agora, quando preciso explicar ao meu marido a lista do quem é quem, deparo-me com essas questões. E aborreço-me profundamente com observações do tipo: "Ah, então ele não é nada teu tio!" Não, na casa da minha avó não é assim. 

Minha avó é quase centenária. Chama-se Alice, mas para mim sempre foi vó, porque não conheci outra. Ela gosta de festas e ensina pelo exemplo. Não é mulher de dizer: "faz, assim, faz assado, faz cozido ou ensopado". Quando eu era pequena, ela fazia coisas do jeito dela e eu ficava feliz em ver o resultado. Quantas vezes ouvi minha mãe ou uma tia, a reclamar qualquer coisa da vida e receber o sábio conselho da vovó: "Ah, deixa isso para lá". E lá ia ela passar um café. Com o tempo, aprendi que valorizamos demasiado os problemas. Aliás, valorizamos demasiado pequenas coisas até que elas se tornem em problemas. Quando estou por aqui, encafifada com alguma coisa besta na cabeça, ouço a voz da vovó lá ao fundo: "Ah, deixa isso para lá". E vou tomar um café. Já vi vovó irritada, ou melhor, a ter um rompante de irritação. Seria estranho se nunca tivesse tido um ou outro rompante, pois tinha a casa sempre cheia, primeiro de filhos, depois de filhos e netos, e muitas vezes de um sem fim de gente que não se pode relacionar assim, de sopetão. E por ter visto um ou outro rompante da vovó, perdôo os meus próprios rompantes e sigo a vida.

A verdade é que carregamos conosco a nossa família. Aprendemos tantas coisas com ela que nos é impossível desarraigar sua influência. Quando somos abençoados com uma família numerosa e bagunçada como é a minha, simplesmente não desejamos extirpá-la de nós, ainda que nos tornemos gente grande. Há uns dois anos uma das minhas tias estava cá em casa de visita e, num dia em que saíamos de carro para algum lugar, disse-me que eu não devia encostar a cabeça no banco enquanto dirigia. "É perigoso, dá sono." Desde então, nunca mais descansei a minha cabeça naquele encosto de pescoço. Realmente dá sono. E um sem fim de coisas que faço ou deixo de fazer porque a minha família mora em mim.

A família há de se reunir em peso na casa da vovó para o dia do seu aniversário. Minha família celebra a vida. Eu vivo longe e não posso lá estar, mas absolutamente amo as conversas sobre os preparativos: Um diz que vai levar um salpicão, o outro um bolo, o outro não tem tempo e vai comprar pronto. O fato é que a casa vai ficar em festa, as pessoas vão chegando, o alarido vai aumentando e a vovó fica feliz. Vão tirar fotos e mais fotos, eu vou perguntar "Que bebé é esse?" - porque sempre nasce mais um que eu ainda não conheci - vou tentar identificar os tios, tias, primos e primas que não vejo há muito tempo e vou ficar com o coração apertadinho por estar longe. E é nessa hora que eu me lembro do livro do Richard Bach, que ganhei de um colega quando eu tinha uns 15 anos: "Longe é um lugar que não existe". 

Verónica Vidal