quinta-feira, 14 de novembro de 2013

As Palavras Certas de um Certo Livro

Eu, assim como muita gente que anda solta por aí neste mundo, sou apaixonada por livros. Muitos deles agregaram valores fundamentais à minha vida. E não caio aqui no lugar comum de dizer que a Bíblia é o livro responsável pela minha imensa mudança de vida. Primeiro porque não é verdade. Não evidencio grandes mudanças de vida, sempre tive uma vidinha monótona. Segundo, porque a Bíblia é, para mim, um conjunto de livros à parte de absolutamente tudo, que não se categoriza.

Dito isto, volto à primária, quando ganhei meu primeiro livrinho do Monteiro Lobato: Reinações de Narizinho. Naquele mesmo ano, ganhávamos de presente de Natal da mamãe um conjunto de três livrinhos cada uma. E assim a coisa foi. E foi. Eu e minhas irmãs amamos ler porque na nossa casa os livros viviam por ali. Coloridos, de gente grande e de gente pequena. Revistinhas da Mônica e do Pato Donald, Agatha Cristhie e A.J.Cronin, Albert Camus e Eça de Queiroz. Nada era menor, nada era complicado demais. Dentro das capas havia mais uma história e assim eram os livros para a minha mãe e assim eles o são para mim. Todos, sem exceção, desde os do curso aos dos meus autores preferidos, por quem eu me apaixono perdidamente, estando eles vivos ou mortos. 

E um dia, minha mãe deixou de falar em livros. E nunca mais falou comigo. Foi-se embora sem me dizer adeus. Odiei o mundo inteirinho por isso, mas fiz sempre cara bonita porque aprendi que é feio odiar o mundo. Queria que Deus morresse, mas nunca disse isso, porque é feio dizer coisas más de Deus. Com tanta gente má no mundo, porque Ele tinha que levar logo a minha mãe? Eu até tinha candidato pronto para ir no lugar dela. Mas nunca disse nada, e todos me congratulavam por eu ser tão positiva, por ter reagido tão bem diante de tamanha tragédia. Não conheciam o meu pavoroso eu de dentro. Eu não me deixava conhecer. O tempo passou e, como sempre acontece com o tempo, a ferida sarou. Mas a minha culpa por ter odiado a Deus nunca sarou. Já havia feito as pazes com Ele, mas nunca me perdoava por um dia tê-Lo odiado. E durante estes anos que se passaram, ainda que eu falasse de felicidade e do amor de Deus, sempre vinha aquela ponta solta: ...mas um dia, eu quis que Deus morresse. Para quem tem fé, sabe que isso é um punhal cravado. 

E um dia, vi o pastor da minha própria igreja com uns livros na mão. Perguntei que livros eram, tive que pedir para comprar. Li e reli. Li novamente. Chorei como o olho na capa. Mentira, meu olho fica congestionado quando choro e faço caras estranhas. Mas chorei porque entendi, chorei porque me via ao espelho. Foi como retirar o curativo e ver que já não havia mais ferida. Numa linguagem paternalista, tão diferente de outros tantos livros que eu havia lido sobre o tema, todos altamente técnicos e que invariavelmente me faziam pensar se eu precisava de um psiquiatra, este quase me colocava ao colo e me dizia: "filha, é mesmo assim". E pensei que, quando Deus levou a minha mãe, Ele, que tudo sabe, é claro, já havia planejado inspirar o autor a escrever este livro, porque eu gosto muito de ler e não seriam palavras quaisquer que me curariam, mas palavras certas de um certo livro. Ganhei dedicatória no meu livro. Queria muito tê-lo lido antes, teria-me poupado anos de angústia. 

Para a nossa casa, compramos livros de culinária e de bricolage. Quando nasce o nosso primeiro filho, compramos livros de puericultura, mas não estamos preparados para as perdas na nossa vida. Não queremos falar nisso, não queremos saber. E, quando perdemos, seja uma pessoa amada ou um emprego, é menos doloroso se  soubermos o que nos espera. Por isso e muito mais, minha receita de felicidade e boa saúde agora é: 2 litros de água por dia, 3 peças de fruta, meia hora de caminhada, legumes e folhosos, música, um punhado de amigos, oração diária, um bocadinho de estudo, um bocadinho de trabalho e "O Ser Diante do Luto". Porque perder faz parte de viver. Só sofre, aquele que ama.

Verónica Vidal - ao Pr. Marcos Amazonas - esse é o meu jeito de dizer muito obrigada por ter escrito o livro, e o quão importante ele é para mim, e sei que para muitos. Eu ainda acho que havia de haver uma lei que obrigasse a todas as pessoas do mundo a lê-lo, mas é que nem todas falam português e isso ia ser uma chatice.