quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Reconstrução

Ah, moço! Não havias de ter me deixado partir. Devias ter-me perseguido, suplicado para que eu ficasse. E eu ficaria, assim, como quem sucumbe aos encantos do amor. Mas não, deixaste-me ir, soltaste-me, como a criança que solta o balão de gás e ele sobe ao céu, para nunca mais voltar. E eu subi aos céus, mas subi com a cabeça povoada da tua imagem, da tua voz, das tuas mãos. Os teus abraços a atazanarem-me o juízo que por mais que eu deles me tentasse livrar já não conseguia. Tinha carregado teus braços enlaçados na minha cintura. Bem sei eu que o tempo, inimigo dos que amam, desbotará a tua face da minha memória, amarelecerá o teu sorriso, emudecerá a tua voz nos meus ouvidos. Já as minhas crises de meninice passaram, não sofro por abandonos, posto que visitaste a minha vida, foi passagem, foste um nômade, nem pousada por ali fizeste, mas acendeste-me com sonhos, com música, com sorrisos. Foste uma doce e terna primavera.

Dos livros que li, das músicas que ouvi, estiveste comigo sem te dar conta. Nas noites frias, nas estradas longas, foste meu companheiro incansável. Mas o agora já é e o passado já foi. Sou mulher do agora, mulher de presente, sou presente. E caminho sozinha o meu caminho, até que encontre pousada noutro coração, até que outra alma se faça presente e então novas palavras fluirão, novas músicas serão entoadas e poesia, ah, sim, a poesia ganhará mais cores. Porque quando se ama, não se lê poesia. Olha-se poesia, imerge-se em poesia. E desfruto do meu caminhar solitário, para namorar-me a mim mesma, enamorar-me de mim mesma, a fim de me certificar se não larguei pedaços meus pelos cantos do mundo. Ah, sim, uma música. Sempre, sempre, com uma música.

Verónica Vidal