quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Natal I - Tradição existe para ser quebrada

 Os tempos por cá andam difíceis, toda a gente a reclamar da falta de dinheiro, muitos a perderem seus empregos e os negócios levando mais calotes do que se pode suportar. Assim sendo, ficou decidido que nestas férias eu daria a conhecer ao meu marido, in loco, duas das coisas que mais amo: O Natal na Casa da Minha Avó e o Reveillón de Copabana. Sem dúvida, é um desafio colocar aqui, em poucas palavras, eventos memoráveis como esses. 

Voltar para casa em épocas festivas tem sempre um sabor diferente. Comigo também é assim, claro. Ando fora do meu ninho há uns 10 anos, e passar Natal e Ano Novo em casa, é tudo no melhor estilo "De Volta Para o Passado".

Na falta de uma máquina do tempo, compramos uma passagem Lisboa - Rio pela TAP. Logo na chegada, fomos recebidos pelo delicioso bafo quente da minha cidade maravilhosa. Irmã, cunhado, sobrinho, filha e genro à minha espera no aeroporto. Porque brasileiro é assim. Nada de pegar táxi. Família espera mesmo é no aeroporto, ainda que o avião chegue de madrugada e atrase horas. E ali percebi que minha família me ama. É um jeito de dizer sem falar.

E isto acabou por virar um conto, e já que assim é, comecemos então por um capítulo.


Natal I - Tradição existe para ser quebrada


Fomos dos primeiros a chegar à casa da vovó. Lá estavam já alguns primos baianos acariocados, sua filhota fofa, minha tia miss Rio de Janeiro que abaianou e um amigo-gente-boa, que já tinha sido de tudo que era lugar mas aportou pelo Rio e ali foi ficando, por força da vida, por força das amizades, por força daquele não-sei-quê que a gente nunca sabe. Toni. Gaúcho. Era mais um sotaque, mais um na família, porque assim é que é, vai-se abraçando quem chega e quem chega vira dono e toma pedaço.

Logo aparece meu irmão, e eu esmago com abraços um homem feito, como se ainda 5 anos tivesse. Já não o via há tanto tempo. E conto-lhe do dia em que havia esquecido dele em casa. Foi numa festinha de aniversário da minha filha Camila, que iríamos comemorar no Corcovado. Meti a criançada no carro e seguia pelo túnel quando, diante do burburinho das crianças no carro eu reclamo: "Meninas, fiquem quietas, o único que está quietinho é o Washington"  E elas imediatamente respondem: "Mãe, o Washington não está aqui". Eu tinha me esquecido de ir buscá-lo! Ele devia ter uns 5 anos, na altura. Deixei as crianças junto aos outros pais, próximo ao lugar da festinha e corri de volta para buscar meu irmão. Com 5 aninhos ele estava todo arrumadinho, sentadinho na cama, a baloiçar os pezinhos e disse: "Você demorou!". Não lembro da minha explicação, mas decerto que não foi a verdadeira. Como dizer a uma criança de 5 aninhos que ela havia sido esquecida? Pois só agora, passados tantos anos, confessei meu pecado. Foi catártico.

Meu irmãozinho cresceu. Está noivo e dirige. Ele é fruto do segundo casamento do meu pai, que já por cá não anda, mas sua mãe lá estava, e, apesar de pequenina, com razão cresce uns poucos centímetros de orgulho que tem nele. Coincidência ou não, minha avó só decidiu entrar em cena depois que meu manito chegou. Até então, para ela, a festa de Natal ainda não havia começado.Tive uma ponta de vaidade por isso. Coisa feia esses sentimentos que teimo em não arrancar de mim.

Uma ou outra coisa muda, como a churrasqueira que já foi um monte de tijolos amontoados num canto ao pé da jaqueira, depois ao lado do muro e agora deu lugar a um aparato todo tecnológico, com entradas e saídas de vapor, e coisas do tipo. Fiquei achando que seria preciso tirar cursinho para usar a churrasqueira nova. Mas a verdade é que o churrasco estava lá. A turma do muro, aqueles que ficam mais perto da cerveja e dos petiscos, também lá estavam, bem mais contidos do que outrora, já que a lei seca não perdoa e o guaraná vira então o rei da noite, e isso só serviu para provar que álcool nunca fez falta para a alegria da festa. Havia um diversidade de petiscos, mas o sucesso geral foi a sacanagem. Nunca dei tanta credibilidade ao sabor em si, mas quem batizou esta mistureba espetada num palito é um génio. Anónimo, mas é. Você não sabe o que é sacanagem? Monique manda a receita. Guilherme faz. Na próxima, vai rolar até um molhinho. Ou não, sei lá. Sempre alguma coisa fica esquecida. É tradição nas festas da minha família e ainda assim está tudo muito bem.

Minha filha armou-se em criança e foi brincar de Polly, com a desculpa de montar o brinquedo da priminha, já que a distribuição de brinquedos para os menores foi mais cedo, uma vez que cambaleavam de sono e já ameaçavam com o chororô típico dos dois, três aninhos. O calor intenso nos obrigava a ficar na varanda, onde a festa estava animada pelo som de gosto tremendamente duvidoso do vizinho, mas ajudando na economia da contratação de um DJ para a nossa própria balada. De qualquer forma, ninguém se lembraria mesmo da música que tocava, pois a conversaria era tanta até que se faz tarde demais e nada da minha madrinha chegar. Como eu já disse, minha madrinha é minha tia, mas madrinhas e padrinhos são tios especiais, e a minha é a mais especial de todas, pois, além de ser minha, é madrinha de praticamente todas as crianças da família, grandes e pequenos, para o meu ciúme mortal. Preciso expurgar isso do meu coração. Coisa feia.

O que eu nunca disse, é que ela sempre foi uma atrasilda*, mas era perdoada pelo atraso pois vinha acompanhada de uma travessa com um quitute delicioso. Mas ela não foi. O quitute também não. E eu chorei. Porque esqueci que eu já era adulta e tinha entrado na minha máquina do tempo, no meu "de volta para o passado". E chorei muitos baldes de choro, pois as crianças de três anos já tinham recebido seus brinquedos e eu não tinha recebido o meu. E porque não se pode entrar numa máquina do tempo assim, sem mais nem menos, pois o dono do tempo é Deus. E eu nem sabia que Ele estava preparando para mim o meu presente de Natal. 

Lágrimas secas, minha tia miss, que sempre agitou a criançada e nunca deixou a peteca cair fez-me lembrar a minha avó. A lágrima pode durar um minuto, mas a alegria, há que perdurar para sempre. Porque é verdade.

Era a hora da oração, já quase meia noite. Era hora de distribuir presentes, de abraços e beijos, de Feliz Natal, de amigo oculto.

E a foto oficial ficou esquecida. Sempre alguma coisa fica esquecida. Mas ainda assim, fica tudo bem.

E a Monique me disse, uns dias depois, que no dia seguinte meu padrinho tinha ido de manhã à padaria comprar pão.




Verónica Vidal - Aprendendo que amor, tempo e festa, são coisas transcendentais. Não podem ocupar um um espaço determinado. Vou perceber um pouquinho mais disso, daqui a pouco.


* Nota do autor - Palavra inventada por alguém, ou por mim mesma, sei lá, porém sem registro autoral.