segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Natal II - A Morte do Boneco de Gengibre

Eu bem que tinha tentado trazer a novidade européia do biscoito de gengibre para o nosso Natal brazuca, mas ele não resistiu ao calor dos trópicos e desmanchou-se todo. Foi igualmente comido, mas nunca virou um homenzinho. Minha sobrinha pergunta: E não vai haver pudim de leite? Claro, eu faço o pudim para ela. São duas meninas completamente diferentes na personalidade, as minhas sobrinhas. Uma, com a doçura do mel, que já se adivinha a suavidade. A outra, com sabor a sapoti, mais rara, é preciso tirar a pele, e quem provou nunca mais esquece. Chegamos enfim à polémica do pudim: Valéria insistia que o pudim deveria levar 5 ovos e eu usei 6. E lá ficou aquela discussão infantil entre duas mulheres pra lá dos quarenta acerca da diferença de um ovo no pudim. Por mais idiota que se possa parecer, essas são coisas que só acontecem com irmãos. E eu sinto muita falta de discussões por um ovo, ou por quem vai sentar ao lado da mamãe. Mas o pudim ficou um espetáculo. O calor na cozinha era intenso e meu marido preparava o bacalhau - genuíno português, trazido em genuíno contrabando, escondido nas malas, entre vinhos e azeites. Afinal, como casar com um português, levar o português ao Brasil e não levar um bacalhau português no Natal? A alfândega que reveja seus processos, pois isso cria problemas familiares sérios, e a lei na minha família é primordial. O bacalhau foi feito em dose dupla. Já que teríamos dois natais. A cozinha fervia. O ventilador que lá estava para amenizar o calor, começava a tomar as formas do Tom Cruise. Passei a amá-lo com intensidade.

Partimos para o primeiro Natal. Eu com uma travessa de Bacalhau à Gomes de Sá ao colo, mala do carro cheia de presentes, fomos buscar Thaissa e seguimos para casa da vovó.

Saímos da casa da vovó antes das duas da manhã. Eu conduzia um carro alugado, que teimava em ter a embreagem mais alta do que o meu pé pequeno e que me obrigava a levantar a perna a cada mudança de marcha. É, confesso. Tenho preguiça de dirigir. Sou daqueles condutores de um carro só, cujo veículo vai praticamente sozinho de casa para o trabalho e que, quando precisa mudar de carro ou de percurso, ou se perde ou fica à procura dos botões de acender faróis, alavancas de limpa-para-brisas. Mas, não havia remédio. Eu tinha feito um acordo com o maridão de que, desta vez, ele podia estar à vontade para um ou outro copo de cerveja que eu conduziria na volta. Promessa é dívida. E sem GPS.

Minha memória falhou pouco e conseguimos cruzar a Serra Grajaú-Jacarepaguá e ao passar pela Teodoro da Silva, em Vila Isabel, minha infância e adolescência ainda martelavam aqui na memória. Era um tal de "morei ali", "estudei ali", e assim cruzamos o Rebouças e chegamos à Lagoa, ao Humaitá, onde vive a minha irmã que nos hospedou, mais espcificamente no quarto da minha sobrinha Taila, que cedeu, feliz e contente, seu quarto para a nossa estada. Encontramos acordados alguns dos remanescentes celebradores natalinos. Ainda haveria o Dia do Natal. O dia 25. A troca de presentes das filhas da D. Lina. Nestas horas, o meu pai sempre teve papel secundário, como eram os pais na maioria dos casos, pelo menos os da minha época de menina. Éramos as filha da Lina, e assim permanecemos, até hoje. E a organização da mesa de Natal e das festinhas ainda têm um quê da mamãe. 

Dormimos, acordamos e, quem estava já estava e quem não estava foi chegando. As filhas da D. Lina se multiplicaram em mais filhas, maridos, noivos, enteados, gatas e peixes. Por aqui não há a organização portuguesa de sentarem-se à mesa para almoçar ou jantar. Sentamos à mesa, sim. Mas levantamos, e sentamos de novo, ou levantamos e sentamos na almofada se não há lugar para todos. Nunca alguém deixou de ser convidado por falta de cadeiras e nunca alguém deixou de ir por falta de convite. E trocamos presentes. Claro, é Natal! Trago comigo todos os dias o cheiro deste Natal, pois meus presentes ou têm cheiro ou os carrego junto a mim, e cheiros despertam-me memórias. Minhas filhas riem de tudo e riem de nada. Minhas sobrinhas fazem o mesmo. E percebo que eu e minhas irmãs não somos diferentes. Temos apenas um pouco mais de anos e um pouco mais de quilos, já que acumulamos mais natais do que elas e ninguém passa incólume a uma mesa como a nossa.

Verónica Vidal - de perto, todos são loucos. Mas nós somos um bocadito mais. E eu gosto.