sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Mulher - vende-se aos pedaços

Qual é o momento de mudar o visual? E por que mudar? Quem foi que determinou que peitos de silicone são mais interessantes do que os naturais? Em que momento na história, as mulheres começaram a se encher de hormônios, a entupir seus fígados com anabilizantes e levantar peso, levantar peso, levantar peso, até ficarem com corpos musculosos e disformes, coxas divididas e abdômens trincados? Lembro-me de brincar que a minha Barbie namorava o Falcon do meu primo Marcelo. Acontece que as mulheres consideradas lindas pela mídia de hoje, se parecem muito mais com o Falcon do que com a Barbie. Deixaram de lado o modelo anoréxico impossível de atingir da boneca magrela para o modelo super-músculo impossível de atingir da mulher bombada. O que há de errado com a naturalidade? 

Hoje vi uma mulher completamente desprovida de adornos. Cabelos curtos, fios brancos que reinavam gloriosos, salvos de qualquer tintura. No rosto, zero de maquiagem. Não se pode dizer que era propriamente bonita ou feia. Enquanto falava comigo digitava qualquer coisa num teclado. Lindas mãos. Vez por outra, sorria. Belo sorriso. Já havia conversado com esta mesma mulher umas poucas vezes mas, é curioso como, dependendo do nosso estado de espírito, somos capazes de observar coisas que antes nos passavam imperceptíveis. O que a mulher nem bonita e nem feia tinha, de verdade, era uma beleza sincera. Por uns poucos segundos senti-me estranha, falsa, com minhas unhas envernizadas e o meu rosto escondido debaixo de um reboco de bases e pós e blushes e batons. Queria dizer que eu também tinha cabelos brancos mas que eu os falseava com umas mentirosas madeixas louras. Mas não, não disse nadinha, já que a minha palavra falada não é tão boa quanto a escrita e a moça não ia entender patavina do que eu estava para ali a dizer. 

A padronização do corpo feminino escraviza-nos cada vez mais, especialmente as mais jovens, é bem verdade. São cabelos que obrigatoriamente têm que ser lisos, barrigas necessariamente chapadas, peitos e bundas XXL, equilibrados em cinturas S, numa crescente mercantilização da mulher. Quem estiver fora do padrão, está fadada ao insucesso. Mas insucesso de que? Em recente reportagem li que um norte americano mantinha um "relacionamento sério" há 13 anos com duas bonecas ultrarealistas. Ora, na era dos tudo-de-silicone e dos cursos express, que geram diplomas e pouca reflexão, em épocas em que substitui-se facilmente uma leitura pela TV ou videogame, casar com uma boneca não é tão surreal assim. 

Não, talvez eu ainda não assuma meus cabelos brancos, ou dispense o batom. Muito provavelmente não deixarei de ter as unhas arranjadas. Uma inocente ida ao cabelereiro não corrompe ninguém. Mas sempre que vir uma mulher em sua beleza natural, sentirei que não estamos vendidas. E viva Frida Kahlo!!!

Verónica Vidal - às lindas mulheres cuja beleza são necessárias 4 consultas para que se perceba.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

As Palavras Certas de um Certo Livro

Eu, assim como muita gente que anda solta por aí neste mundo, sou apaixonada por livros. Muitos deles agregaram valores fundamentais à minha vida. E não caio aqui no lugar comum de dizer que a Bíblia é o livro responsável pela minha imensa mudança de vida. Primeiro porque não é verdade. Não evidencio grandes mudanças de vida, sempre tive uma vidinha monótona. Segundo, porque a Bíblia é, para mim, um conjunto de livros à parte de absolutamente tudo, que não se categoriza.

Dito isto, volto à primária, quando ganhei meu primeiro livrinho do Monteiro Lobato: Reinações de Narizinho. Naquele mesmo ano, ganhávamos de presente de Natal da mamãe um conjunto de três livrinhos cada uma. E assim a coisa foi. E foi. Eu e minhas irmãs amamos ler porque na nossa casa os livros viviam por ali. Coloridos, de gente grande e de gente pequena. Revistinhas da Mônica e do Pato Donald, Agatha Cristhie e A.J.Cronin, Albert Camus e Eça de Queiroz. Nada era menor, nada era complicado demais. Dentro das capas havia mais uma história e assim eram os livros para a minha mãe e assim eles o são para mim. Todos, sem exceção, desde os do curso aos dos meus autores preferidos, por quem eu me apaixono perdidamente, estando eles vivos ou mortos. 

E um dia, minha mãe deixou de falar em livros. E nunca mais falou comigo. Foi-se embora sem me dizer adeus. Odiei o mundo inteirinho por isso, mas fiz sempre cara bonita porque aprendi que é feio odiar o mundo. Queria que Deus morresse, mas nunca disse isso, porque é feio dizer coisas más de Deus. Com tanta gente má no mundo, porque Ele tinha que levar logo a minha mãe? Eu até tinha candidato pronto para ir no lugar dela. Mas nunca disse nada, e todos me congratulavam por eu ser tão positiva, por ter reagido tão bem diante de tamanha tragédia. Não conheciam o meu pavoroso eu de dentro. Eu não me deixava conhecer. O tempo passou e, como sempre acontece com o tempo, a ferida sarou. Mas a minha culpa por ter odiado a Deus nunca sarou. Já havia feito as pazes com Ele, mas nunca me perdoava por um dia tê-Lo odiado. E durante estes anos que se passaram, ainda que eu falasse de felicidade e do amor de Deus, sempre vinha aquela ponta solta: ...mas um dia, eu quis que Deus morresse. Para quem tem fé, sabe que isso é um punhal cravado. 

E um dia, vi o pastor da minha própria igreja com uns livros na mão. Perguntei que livros eram, tive que pedir para comprar. Li e reli. Li novamente. Chorei como o olho na capa. Mentira, meu olho fica congestionado quando choro e faço caras estranhas. Mas chorei porque entendi, chorei porque me via ao espelho. Foi como retirar o curativo e ver que já não havia mais ferida. Numa linguagem paternalista, tão diferente de outros tantos livros que eu havia lido sobre o tema, todos altamente técnicos e que invariavelmente me faziam pensar se eu precisava de um psiquiatra, este quase me colocava ao colo e me dizia: "filha, é mesmo assim". E pensei que, quando Deus levou a minha mãe, Ele, que tudo sabe, é claro, já havia planejado inspirar o autor a escrever este livro, porque eu gosto muito de ler e não seriam palavras quaisquer que me curariam, mas palavras certas de um certo livro. Ganhei dedicatória no meu livro. Queria muito tê-lo lido antes, teria-me poupado anos de angústia. 

Para a nossa casa, compramos livros de culinária e de bricolage. Quando nasce o nosso primeiro filho, compramos livros de puericultura, mas não estamos preparados para as perdas na nossa vida. Não queremos falar nisso, não queremos saber. E, quando perdemos, seja uma pessoa amada ou um emprego, é menos doloroso se  soubermos o que nos espera. Por isso e muito mais, minha receita de felicidade e boa saúde agora é: 2 litros de água por dia, 3 peças de fruta, meia hora de caminhada, legumes e folhosos, música, um punhado de amigos, oração diária, um bocadinho de estudo, um bocadinho de trabalho e "O Ser Diante do Luto". Porque perder faz parte de viver. Só sofre, aquele que ama.

Verónica Vidal - ao Pr. Marcos Amazonas - esse é o meu jeito de dizer muito obrigada por ter escrito o livro, e o quão importante ele é para mim, e sei que para muitos. Eu ainda acho que havia de haver uma lei que obrigasse a todas as pessoas do mundo a lê-lo, mas é que nem todas falam português e isso ia ser uma chatice.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quando Desamamos






E o mundo não acabou. Algumas pessoas nasceram, outras tantas morreram, mas o mundo segue caótico para uns e tedioso para outros, como sempre foi. Um dia, nós é que estaremos acabados para o mundo. E, um a um, o deixaremos. E prestaremos contas ao Criador do que foi feito durante esse tempo. Não é uma questão de acreditar ou não. É .  A Terra não muda de ritmo porque eu choro. Sendo assim, lamentar não adianta.

Longe é um lugar que só existe para determinar o tanto de saudade que eu sinto. Saudade é o amor que faz o coração chorar por saber que quem amamos ou o que amamos está longe. Se longe só existe para determinar saudade, digo ao meu coração que o que mais importa é a alegria de amar. Não desamamos. Um amor nunca esvanece. Ele simplesmente migra de uma pessoa para outra. Quem ama, amará sempre.
O amor deixa marcas indeléveis naquele que ama. É para sempre. Por isso é preciso que ele seja cultivado. Não porque ele morra, mas porque viaja. Vai morar noutro sítio, vai buscar outra terra mais favorável. Uma alma repleta de paixão não sobrevive sobre terra árida. Se a tua terra é árida, dê um jeito de regá-la. Vigie. Ou o amor que te acompanha migrará como as andorinhas. Mas não voltará. E nunca mais o verá. Há pessoas incapazes de amar. Conseguem, no máximo, gostar. Um gostar sem sal nem açúcar, momentâneo, prático. Já eu, amo morrer de amor. E acordar feliz no dia seguinte.

Somos todos prisioneiros da nossa própria ignorância. À medida em que se descortina o conhecimento, pequenas frestas são abertas na nossa cela. Temos preguiça de saber. Saber requer esforço. E pior: exige atitude. A ignorância é confortável. Mas não nos faz feliz. A mediocridade nos mata. É como morrer em vida.

Ser feliz requer dedicação. Dedicação com a própria vida. Por isso, eu não tenho tempo para dar ouvidos a quem quer tomar conta da minha vida. Eu mesma mal consigo fazê-lo. Preciso me dedicar a desfrutar do restinho do calor do sol, do friozinho da manhã, da música gostosa que toca. Preciso dar o ombro à amiga que está chateada. Preciso beber 2 litros de água e comer 3 peças de fruta por dia. Ir ao ginásio, trabalhar, estudar. Orar, sem cessar. Tudo isso, sem deixar de retocar o batom.


Verónica Vidal - Ser amado é bom. Mas nada no mundo é melhor do que amar de verdade. O exercício do amor já é um prazer por si só. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Insensatez

E é porque me inspiras e é porque me seduzes e é porque me excitas e é porque me encantas. E é porque passa o tempo, e havias de fazer algo de péssimo, a fim de quebrar o encantamento, mas não o fazes, e sigo assim, enfeitiçada, perdida, atordoada.

E é porque me socorres e é porque me curas e é porque me escutas. E num diálogo não verbal diz-se tudo e mais ainda. Em palavras diz-se tudo aquilo que não se queria dizer. É melhor ser muda. Mas nada muda.

E quando te fazes frágil e julgas desencantar-me, fazes-te menino e te fazes mais humano, menos herói, mais real, mais perto. Mais doce. E a insensata dependência que me ata a ti tira-me o conforto, descontrola-me, mete-me medo. Desejo a insanidade mental declarada a fim de viver declaradamente o desejo insano. Quero todas as coisas, da forma mais egoísta possível, e talvez, apenas talvez, consiga.

Verónica Vidal - triste daqueles que não vivem paixões insensatas, loucos amores, daqueles inexplicáveis. Durem o quanto durem, são essenciais.

sábado, 14 de setembro de 2013

Meia-idade em crise

 
E quando a dúvida bate à porta, a insegurança esbraveja e não há quem nos ouça, empurrando-nos para um lago mudo de tristeza? Seriam estes alguns dos sintomas da crise existencial que nos assola na meia idade?
 
Seria esta sensação de impotência diante de um futuro que antes vislumbrávamos sereno, como prémio por uma dura vida de plantio, mas que se apresenta ácido e estreito devido à pilhagem que o sistema impiedosamente tem feito aos nossos celeiros, o sentimento de desesperança que nos tornará seniores?
 
Talvez a tal crise da meia-idade ataque mais comumente a homens que a mulheres. Nossos meninos passam então a se sentir emasculados, uma vez que o governo é o primeiro a lhes capar a virilidade financeira enquanto nós exibimos a nossa independência conquistada à custa de queima de sutiãs. Quando é que o fosso entre as Amélias e as Pagus da vida será eliminado? Ainda teremos por quanto tempo guerras sexistas veladas dentro de casa, que fazem com que releguemos os nossos companheiros à categoria de competidores inimigos e eles nos enxerguem como usurpadoras da sua preciosa masculinidade?
 
Ganhamos hoje companheiros - maridos, namorados, amantes - que tendem a lutar contra um sem fim de cobranças, numa idade que já deveriam supostamente ter encontrado o equilíbrio financeiro e emocional. Às portas de mudarem de categoria no escalão da vida, quando deixarão então de serem adultos produtivos para se tornarem velhos ociosos, o medo lhes invade a alma, pois percebem que tudo o que haviam sonhado, planejado e construído desfaz-se como um castelo de cartas. E é nessa hora que o nosso título de companheira deveria lhes valer. Mas não. Enterramo-nos nas nossas conversas fiadas de filhos e netos e cores de vernizes e lipgloss, orgulhamo-nos em pagar o batom com o nosso próprio salário e chamamos a isso independência. Mas ainda assim, queremos que ele nos pague a conta do restaurante. Mais um paradigma social.
 
E nos surpreendemos quando cada vez mais aumenta o número de amigos, conhecidos e celebridades que decidem jogar tudo para o alto à beira dos quarenta, cinquenta anos. Largam trabalhos estáveis,  longos e insossos casamentos pelo simples resgate da juventude, da esperança, como última chance de fazer o novo de novo, numa tentativa de valorização pessoal.
 
"E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele." Gen. 2:18
Se não somos ajudadoras, negamos a nossa origem, o nosso propósito.
 
Verónica Vidal
 
 

sábado, 31 de agosto de 2013

A menina e o cookie

A menina brincava de bonecas de papel, casinha e Barbies. Vivia no seu mundo cor-de-rosa de menina. Todos os domingos, vestia o seu melhor vestido e tocava piano para encantar as visitas, que muito se admiravam do bom comportamento da menina. Não dizia asneiras e na escola suas notas eram azuis como o mais limpo céu.
 
Um dia, a menina foi à cozinha e viu um cookie.
 
Era um cookie num jarro de vidro transparente. Um daqueles cookies cheios de pepitas de chocolate. O jarro de vidro estava fechado, em cima de uma prateleira muito alta, impossível da criança alcançar.
 
Mas a menina passou a ir à cozinha mais vezes, por gosto até. Sabia ser o cookie um biscoito, nunca tinha comido um, mas aquele não era um biscoito como as bolachas de leite lisinhas que lhe davam para o lanche. Era diferente. As imperfeições da sua superfície o tornavam tão fascinante que ela já não podia mais parar de pensar nele. Sabia perfeitamente que o cookie não era para ela. Cookies são para adultos, não para meninas pequenas. As pepitas de chocolate sujariam seu lindo vestido. Ela sabia disso. Ainda assim, começou a pensar em formas de chegar à prateleira. Uma escada, talvez. Não, poderia cair e quebrar a perna.  E como abrir o vidro?
 
Ser uma menina bem comportada e que toca piano é muito difícil.

Verónica Vidal

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Liberdade na Mordaça


E porque esta minha língua enrolada, que misturou-se a línguas estrangeiras e  perdeu-se no sentido e na loucura e castigada foi de tanto falar o que lhe ia na alma mas que socialmente não era aceite dizer, insiste em tentar buscar sons onde não existe eco. Porque já adormecida estava, e entorpecida e largada, fui então sacudida e despertada, arrancada do lodaçal da minha mesmice, do doce conforto da minha gaiola, para o rasgar do desejo incontido, do proibido gritante, sem palavras para gritar. Porque  tinha que haver música, tinha que haver dança, tinha que haver poesia, tinha que haver risos, tinha que haver paixão. Era imperioso fazer-me perder o fôlego, fazer arder-me estômago, tremer as pernas, na vontade surda da fusão, o unir de bocas, o juntar de corpos, o lamber suores, mas como é quente aqui! E o meu coração mostruoso, adestrado para calar, nasceu de retalhos picados, como um Frankenstein de Mary Shelley, parte dócil e castrado e a outra furiosamente egoísta.


Verónica Vidal - ser boazinha todos os dias é muito chato. Quer dizer, deve ser. Eu nunca fui. Nem um dia.