quarta-feira, 17 de junho de 2015

♫ Caminhando e cantando ♪

Aventura em imagens

Ter visitas em casa é a coisa mais chata do planeta. Eu não tenho o menor talento para fazer sala, para servir coisinhas. Por isso eu opto por receber amigos. Amigo tem que aprender de imediato onde ficam os copos e onde é o caminho da geladeira. Amigo precisa saber logo como se abre a janela do banheiro e onde fica o Gleid, porque nessa vida humana, nenhum de nós bebe perfume.  

Ter uma família como a minha é uma bênção sem tamanho. Porque todos são deliciosamente aconchegantes, maravilhosamente barulhentos e completamente diferentes uns dos outros. 

Minha tia Denise - a eterna miss - trouxe seu marido e todo o seu frescor para a minha casa. Senti-me como que roubando o tempo dos dois, como a criança que ganha um brinquedo no Natal e quer brincar com ele de dia e de noite, e acaba por capotar por falta de energia mas nunca por falta de vontade. 

E eles haviam feito um desvio em sua viagem de férias pela Europa, só para me visitar. E eles ainda ficaram mais uns poucos dias, só para me agradar. E cantaram e tocaram violão. E fizeram show de música brasileira numa casa de fados de Coimbra. 

Nessa visita descobrimos que um Mário português tem parantesco próximo com um Ademar baiano. Em algum lugar na história o DNA destes maridos se misturaram de forma tal, que um ficou como o outro e o outro como o um. Mais ou menos assim. É bem verdade que Mário não toca violão tão bem como o Ademar, mas reconheço que eu destruo com maestria toda e qualquer música que começar a cantar. Nós os quatro fazemos dois casais perfeitos. Musicalmente falando, também.

Eu acho que, quando perdemos nossa mãe, catamos migalhas de amor de mãe aqui e ali. E reconhecemo-lo mal ele desponta. Porque é só quando se ama muito uma pessoa e se  tem a liberdade de dizer: "Não pinte seu quadro de amarelo. Você será mais feliz se pintá-lo de vermelho. Eu já pintei quadros, e é melhor o vermelho, vai por mim." E diz-se porque o desejo que o outro seja feliz é maior do que o desejo de ser aprovado. Quem ama, não liga se o outro vai ficar amuado. Ele diz: "Não sobe na árvore, que você cai."
E então senti-me amada. Ainda que a minha tia seja muito mais jovem do que a minha mãe seria, senti aquele calor de conselho de mãe, que é coisa impossível de descrever. 

E por cá ando eu, juntando as minhas tintas vermelhas. Porque descobri que esperto é aquele que aprende com os sábios.

Ao Ademar, sábio homem que roubou o coração da tia Denise.
À minha tia miss, que sempre foi linda mas é mesmo estonteante por dentro.

Verónica Vidal