quarta-feira, 23 de junho de 2010

Lucinha - uma história, uma vida

Lucinha era assim, não exatamente burra, não exatamente lenta, mas... era uma mulher, por assim dizer, fora do convencional. Foi aprendendo o ofício da costura com a mãe, lá no interior das Minas Gerais, até que um dia, partiu para trabalhar na cidade grande.

Em Belô, Lucinha se perdeu. Literalmente. Perdia-se nas ruas. Na volta para casa, admirava tudo que era prédio, admirava os moços bonitos. E daí, Lucinha se perdeu. No sentido figurado.. Mas nada era figurativo para o seu Zé, pai de Lucinha, que jurava ter a filha virgem e casta até aos dias de hoje, quando a moça, beirando os quarenta no RG mas sem nunca ter saído dos 32, já havia dado mais do que chuchu na serra.

Lucinha, perdida como era, perdeu-se de amores por um cearense bem dotado, corpo musculoso e um cadinho mais novo que ela. Conheceu o cearense através do carteiro, bom de papo, que lhe entregara correspondência errada. A moça, acreditando piamente no amor que dura para sempre, fez as malas e mudou-se para a casa do cearense que, não se sabe porque, passou a exigir muito mais da mesa e do banho do que da cama. A doce Lucinha que sonhava com uma vida de sexo selvagem diário - mas dentro dos bons costumes - viu-se a lavar, passar e cozinhar as comidas nordestinas preferidas do seu amado cearense. Um mês foi o suficiente para nossa querida heroína pedir penico. Com as unhas quebradas de tanto descascar macaxeira, volta para Belô. Seu Zé já não mais acreditaria na virgindade dela, depois de ter ido viver em concubinato libidinoso com um homem mas, pai é pai e acaba por aceitá-la de volta à família, ajuda a filha a pagar o aluguel de uma casinha nos subúrbios de Belzonte e a vida assim corre tranquila para a ex-donzela.

Até que...

Aparece um exemplar de homem alagoano na loja onde Lucinha trabalha. Homem forte, músculos saltitantes, pele trigueira e um cadinho mais novo que Lucinha. Ela sente o despertar de algumas coisas, o umedecer de outras tantas, sacode o cabelo para um lado e para o outro e vai atendender o alagoano, já fazendo planos de casamento no primeiro olá. Rola uma simpatia, o alagoano fareja uma chance de fornicação e, sem mais delongas, se enrolam nos fundos da loja, lá no cantinho do café e das vassouras mesmo. Lúcia Maria já praticamente distribuía os convites do casamento, imaginando-se vestida de noiva, com a ninhada de filhos que planejava, todos à volta dos pais, num domingo à tarde, a assistir o Faustão e a chupar picolé. Fez dieta, gastou o salário numa escova japonesa. Tudo para ele. Este sim, era homem de compromisso. Muito diferente do cearense. Afinal, este era alagoano! Outra coisa! Falava alto, em frente ao espelho, seu nome completo seguido do sobrenome do alagoano, para testar o som de seu futuro nome de casada. Fazia um gesto de aprovação. "Sim, ficou muito bom."

Até que...

Ritinha era a mocinha que trabalhava na lanchonete ao lado da loja de Lucinha. O alagoano tava comendo. Sim, comendo a Ritinha.

Lúcia Maria queria ir no salão pedir o dinheiro da escova japonesa de volta, mas o viado não concordou, dizia que não tinha nada a ver com o pato. As pessoas são mesmo muito incompreensivas hoje em dia.

Verónica Vidal - Lucinhas existem, de verdade. São a vergonha da classe feminina. Se você é uma Lucinha, não leia isso.