quarta-feira, 18 de junho de 2008

"Eu queria ter na vida simplesmente..."

"Eu queria ter na vida simplesmente, um lugar de mato verde, prá plantar e prá colher. Ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela, que é prá ver o sol nascer..."

Precisamos estar cientes e conscientes de tudo. Precisamos ler a última VEJA, assistir o jornal Nacional, ler o JB e conhecer um pouco de tudo, discursando com ares de profundo conhecedor seja lá no que for, para galgarmos o respeito da sociedade e, quanto mais convincentes e charlatães formos, mais admirados seremos. É preciso ter opinião e defendê-la ferrenhamente, ainda que esta possa ser mudada por uma ou outra observação do interlocutor, com todas as minhas garras eu preciso vencer a disputa verbal que se entrelaça nos meios sociais cada vez mais acirradamente.

Já nem me lembro mais o que disputo: Se é a admiração do chefe e conseqüentemente uma possível promoção, se é a atenção do bonitão que nem é tão bonitão assim, mas fala bem e isso me atrai, é "in". Além de "culta" e "articulada" preciso ser espirituosa e bem humorada. Minha mãe teria definido como "palhaça". É isso. Preciso fazer o outro rir, de situações que normalmente seriam condenáveis. É o chamado "humor fino". Não sei quem o definiu assim, mas viramos escravos dele assim como o já somos da falsa cultura, informação atualizadíssima e das idéias e ideais.

Além das unhas feitas, o corpo malhado - ai de quem confesse, como eu, que morre de preguiça até mesmo de caminhar - o cabelo domado e toda a discursaria de arriba, mulher do século 21 tem que saber transar e muito bem. E de camisinha - pelo menos alardear que seu sonho dourado é uma boa camisinha. Não se faz mais amor, não se casa mais, não se constrói mais família. Por que isso é brega, é pequeno, é menor. Hoje em dia a gente transa. E depois não transa mais porque "não tem nada a ver", porque "rolou, foi uma coisa de momento". Há pouco tempo um homem discursava na minha frente os problemas da migração do campo para as grandes cidades. Minha resposta para ele foi: "Então, vamos para o campo!" O que certamente ele encarou como uma evasiva a um problema declarado que eu não queria continuar a debater, foi na verdade, um convite literal: Tive vontade de pegar o sujeito que estava na minha frente, botar dentro do carro e seguir para a menor cidade que encontrasse. Por um segundo, todas as respostas e libertações terrenas estavam diante dos meus olhos: Sem VEJA, sem JB, sem ódio às organizações GLOBO, sem disputa por atenção, enfim, só capinar, plantar, colher - já que o exercício é grande, não precisaria malhar. Só manteria o sexo (afinal, ele não era nada mal) e com as camisinhas faria bolas de aniversário para quando lembrássemos que um de nós faria aniversário. A fidelidade seria inevitável diante do fim de mundo que nos encontraríamos. O mundo seria então perfeito. Mas o celular tocou, tirando-me do torpor do sonho e lembrando-me de que tinha que checar as aulas de inglês das minhas filhas, preparar a aula da escola dominical, tomar a pílula para não menstruar, ler a VEJA, checar os e-mails, trabalhar no dia seguinte, marcar manicure...