sábado, 1 de janeiro de 2011

O Ano do Lobo Mau

Hoje é o primeiro dia do ano. Ainda estou na minha preguiça social, onde todo lugar bom é o lugar onde eu não estou. 2011 é ano de crise. Fala-se da crise como se ela fosse um personagem, o lobo mau da história. Crescemos em tamanho mas continuamos crianças no coração, na cabeça, nas atitudes. Não pensávamos em crise quando decidimos comprar o LCD em 24 vezes nas Casas Bahia. Também não se falava na crise quando entramos no financiamento do apartamento novo, lindo, um charme, uma pechincha, e que levava 60% do salário meu junto com o do meu marido. Para aprovação do crédito, papai foi meu fiador. Claro, se não fizermos assim, não teremos nada nunca! Aquela história de guardar moedas no cofrinho, ensinada pela minha mãe, e esperar juntar até ter dinheiro suficiente para comprar o disco novo, a bijoux da loja? Não, isso é coisa de criança. Hoje, eu cresci e faço um financiamento bancário. E se eu perder o emprego? Se eu me separar do meu marido? Se tivermos alguma doença? Se nascer um filho? Não, isso depois se vê. Afinal, ainda me pode sair o Euromilhões. E vem a crise. O lobo mau, para atrapalhar os planos da Chapeuzinho Vermelho que queria pegar o atalho para a casa da vovó.

E lá vamos nós, consumidores de cores embevecidos pelo emocionante brilho dos shopping centers, passar o cartão de crédito que nos dá 40 dias sem juros para pagar. Precisamos de um vestido novo para a virada de ano. Um vestido branco, que nos traga paz. Uma calcinha amarela, que nos traga dinheiro e lá uma coisa vermelha ou cor de rosa, pois amor e paixão nesta vida são essenciais. Queria mesmo poder comprá-los numa loja a pagar em 40 dias.

O que eu faço com um mundo que deixou de ser meu? Como dizer para o meu coração que sou mulher sem raízes, e que no lugar onde eu estiver, ali será o meu reino? Não tem como. Meu coração é surdo e teimoso. Teima em sentir saudades de casa, saudades de mim. Teima em me dizer que o eu hoje é um eu fingido, um eu inventado, como a planta que mudamos de lugar e reclama, amarelando as folhas e negando flores mas ainda assim, é uma planta.

Verónica Vidal