terça-feira, 16 de novembro de 2010

Pelo Mundo, Mas de Cabresto

Chichén Itzá - Yucatán (México)
Ahhh... férias, férias! Voltei numa terça, após uma viagem cansativa, sacolejante e apertada.

Fui ao México com o meu marido-tudo-de-bão. Fomos para lá, brincar de rico na Riviera Maya, passear por Cancun e testar o sistema de engorda dos resorts. Não chegamos ao ponto de participar das actividades promovidas pela equipe de animação do hotel, mas confesso aqui e só aqui: que deu uma vontadinha, lá isso deu!

E lá estávamos nós, a passear pelas ruínas Maias e a descobrir que tudo o que sabíamos era diferente do que é de verdade e que muito provavelmente, o que dizem que é de verdade nunca existiu.

Até que, num destes centros de artesanatos preparados para virar o turista de cabeça para baixo até cair a última moedinha, passa um grupo de quatro norte americanos e um deles pergunta para o outro se a pessoa que os estava a atender seria a dona da loja. O interrogado, do alto de sua arrogância vomita: Claro que não! Eles não têm capacidade para serem donos de nada. Isso tudo pertence às cadeias de hotéis europeias. A expressão “eles não têm capacidade” latejava no meu ouvido. Uma mistura de sentimentos ferveu. De repente, fiquei feliz pelos ataques terroristas sofridos pelos USA. De repente, meu sangue terceiro mundista esperneava dentro de mim. Cheguei a abrir a boca para falar que ele sim, não tinha capacidade para sair do seu umbigo e enxergar outras formas de sociedade. Mas não cheguei a dizer nada. Acho que ele não teria a capacidade necessária para compreender. E vou passar ainda um bom tempo a amar o que é considerado brega, o que é considerado pobre.

Morando em Portugal, não tenho mais a oportunidade de ouvir o homem da Kombi a gritar pelo alto-falante: Pamonha, pamonha, pamonha! E senti falta disso (é, a minha crise é uma loucura!!!). Ainda fazem o concurso da Garota da Laje? Jurei que, se eu voltasse e a bunda ainda estivesse no lugar, eu me candidataria. Só dispensaria o piscinão de Ramos, porque minha crise brega não havia chegado ainda a tanto.

Mas… eis que de repente, não mais que de repente, eu me deparo com a vitória do Tiririca nas urnas. Essa notícia curou a minha crise na horinha. Quando o voto ainda era no papel, a gente votava no Macaco Tião, no Rinoceronte Cacareco, tudo bem. Mas eles não eram eleitos! E mais: a grande polémica DEPOIS das eleições: Ele sabe ler? Ele não sabe ler? Enquanto a educação no Brasil for relegada a último plano, enquanto os professores mal pagos e mal treinados forem obrigados a passar o aluno de ano, ainda que ele não tenha obtido uma aprendizagem satisfatória, enquanto a escola pública estiver crivada de balas e o traficante determinar se tem ou não aula, o eleitor, tratado como gado, votará em quem o coronel mandar, elegerá o BBB da vez, o palhaço do dia. Ainda tenho esperanças que um dia larguemos o cabresto e possamos votar coerentemente. Ainda acho que temos capacidade.



Verónica Vidal – salário sangrado pelos impostos que alimentam o bolso da corrupção.