segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Jujubas da TV

Outro dia teria sido o aniversário do meu pai, se ele ainda estivesse vivo. Sempre lembro dos aniversários, nunca sei as datas de falecimento. Considero-me uma privilegiada. Tenho memória seletiva e, quanto mais o tempo passa, mais seleta são as coisas que se fixam na minha memória. Lembro pouco ou nada de gente aborrecida, de rusgas e de acontecimentos tristes. Sobra a saudade de uma vida não lá muito bem vivida, mas muito bem imaginada.

Do meu relacionamento com meu pai, pouca coisa guardei, muita coisa fantasiei. Não tive um pai dos filmes e novelas, que levam filhos ao parque a soltam pipas no gramado. Éramos todas meninas, e naquela época era mais difícil encontrar pais que se relacionassem com filhas. E se não era, gosto de pensar que sim, porque assim era para mim. Nada me marcou mais - positivamente - do que uma noite qualquer, dessas em que aos 7 anos a gente levanta da cama diretinho para o banheiro, apertada. Tínhamos uma TV muito grande, em preto e branco, daquelas de válvulas. Meu pai chegava do bar e tirava do bolso da calça 3 pacotes de jujubas, daquelas jujubas grandes e redondas, coloridas, dispostas uma em cima da outra e que formam uma lingüiça. Eram as minhas preferidas! Colocou-as em cima da televisão, ao lado da antena. Eu sabia que só as receberia no dia seguinte, mas a visão daquelas jujubas em cima da TV encheu meu coração de amor pelo meu pai.

Passado algum tempo, esqueci disso. Comecei a pensar que nada me compraria. Hoje vejo que não. Ainda sou comprada por jujubas. Não quero saber de pessoas perfeitas, não quero o politicamente correto, não espero o sucesso em todos. Fico feliz com as jujubas que trouxerem para mim.