quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Retrata-me, Boticelli!


Ai,ai.. Tenho cá um fraco por cabelos grisalhos. Sempre tive.
Bem, “sempre” é meio muito, mas, digamos assim, desde antes dos branquinhos aparecerem na minha cabeça, eu já admirava os cabelos prateados de alguns homens. E assim, volto a pensar que a ditadura da moda e da beleza que nos é impingida foi criada com o intuito mórbido de nos sacrificar.

A voz da mamãe ainda ecoa na minha cabeça quando então me penteava os cabelos: Não chore. Mulher pra ficar bonita tem que sofrer!

Fui a uma clínica de estética marcar uma “depilação definitiva à luz pulsada” – ou qualquer coisa parecida com isso. A primeira notícia não era ruim: Não dói nada – Garantiu-me a especialista. Depois disse que eu deveria depilar a região com lâmina. Pensei: E depois, quando começar a nascer? Vai coçar horrores! Pensei e perguntei. Ela garantiu que não, que os pelos nasceriam fininhos. Como o objetivo era me livrar dos pelos indesejáveis lá daquela região onde normalmente não bate o sol, a preocupação fazia todo o sentido. O que não fazia sentido era o investimento financeiro que se há de fazer para isso. 55 € por sessão, com a oferta de uma grátis, no clássico estilo leve dois e pague um. Já que eu só tenho uma periquita, pensei no que faria com a minha sessão de oferta, mas antes de fazer a pergunta idiota, a mocinha prontamente me respondeu: Ah! Não basta só uma sessão, claro. Pois é, a coisa anda mesmo moderna. Mulher, para ficar bonita ainda sofre. Mas é diferente. É no bolso.
Já que é dia de arraso mesmo, precisava desabafar cá uma coisinha: Quero assassinar o treinador da academia que freqüento. Motivo: Chamou-me de gorda. Assim se desenrolará a minha defesa: O sujeito, com pouco mais que metade da minha idade, queda de cabelo pronunciada e um jeitinho simpático que nos impede de xingá-lo, insistentemente me telefona para marcarmos uma maldita avaliação – explico: depois de 1 ano no ginásio, segundo ele, eu deveria fazer a tal avaliação. Caí na esparrela e concordei. Depois do pesa-mede pra lá e pra cá, o guri dá-me o resultado: “Você está gorda! Não deveria estar pesando X e com flexibilidade Y, com massa adiposa M” e um sem fim de nomes e técnicas que só serviram para me deprimir e me deixar com uma vontade enorme de mandá-lo enfiar aquela parafernália toda no fundo do seu orifício excretor. Como sou boa menina, não fiz isso. Fiz cara de paisagem e fui para a esteira, amaldiçoando o dia em que o infeliz nasceu. Odeio pessoas que adoram se exercitar. Daquelas que acordam numa manhã de sábado, de camiseta e shortinho, prontinhas para correr no calçadão, enquanto você se enrola ainda mais nas cobertas dando graças por dormir mais um pouquinho? E as que suam nas aulas de spinning? Eu não dou duas rodadas naquela porcaria. Aliás, para mim, a série Sex and the City seria perfeita se aquelas atrizes não fossem todas tão forçosamente magras. Pelo menos são feias, o que já é um alento. Cada dia detesto mais e mais ser boa menina.
É. Gostaria que voltássemos à moda renascentista, quando as mulheres eram fielmente retratadas por pintores clássicos, que chapinhavam pincéis em tintas e nossas maravilhosas curvas e celulites ganhavam ares de perfeição. Se eu gosto dos cabelos grisalhos, porque eles não haveriam de gostar das nossas curvas renascentistas? Por que razão eu devo dar ouvidos a um fedelho com metade da minha idade? Sei lá. Mas eu tenho que me despedir. Tá na hora de ir pro ginásio.