sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Sou retalho de tapete, sou a mistura de várias pessoas

 


E um pedacinho da minha doce e mágica família veio passar o Ano Novo aqui comigo. Trouxeram o calor para amenizar o frio com que dezembro nos tortura todos os anos por estas bandas de cá. Por pouquinhos dias eu ouvi o doce cantarolar do sotaque baiano que enchia o meu pequeno apartamento de musicalidade, de ginga, de xodó. E, de repente, meu pequenino apê virou a Casa da Minha Avó. E lá apareceram os travesseiros e os colchonetes, decidimos quem dormia onde, mudamos de ideias e lá ficamos todos distribuídos pela casa, junto a malas, vinhos, restos de enfeites de Natal e uma gata tranquilona que não estava entendendo nada.

Meu primo e a mulher viajaram para fora do país pela primeira vez, com o objetivo de trazerem seu filho para um intercâmbio. Mas eu desconfio que esta viagem foi todinha planejada por Deus, para que eles me viessem visitar. O menino há de ficar por aqui algum tempo, para estudar, jogar futebol, socializar e aprender como é viver longe das mãos protetoras dos pais. E então eu testemunhei, ali, pai e mãe, hesitantes em largar a corda para que o menino se vá e voe mais longe. Vi o medo e a esperança nos olhos de ambos, brilhando feito as luzinhas da árvore de Natal. Senti a mistura de cautela e coragem, do desejo que o filho tenha todas as chances e oportunidades que lhe aparecerem e da necessidade visceral de aninhá-lo e levá-lo de volta para casa. Mais uma vez senti o orgulho gigantesco que eu tenho pela minha família. Talvez essa seja uma das provas de amor mais contundentes que possamos dar a um filho: Deixá-lo ir, quando o nosso coração grita para que ele fique.

Vivo num mundo doce, e foi assim que eu sempre entendi a família: é onde se desenrola a sublime tapeçaria de vidas, que se entrelaçam umas com as outras e dessas misturas saem tecidos fabulosos, coloridos, leves, fortes e cheios de vida. A tapeçaria da nossa família é formada de muitos pontos e cores, uns mais pisados do que outros, alguns ligeiramente gastos e outros ainda brilhantes da linha nova, mas precisamos de todos e todos precisam uns dos outros para formarem os mais belos panos que agasalharão o mundo.

E meu marido, parte integrante dos desenhos dessa bela tapeçaria, fez o seu já famoso Bacalhau à Brás (mais conhecido por aqui como Bacalhau do Mário) e comemos e bebemos, rimos e passeamos. Foram tão poucos os dias quanto intensa a presença. Desliguei-me do meu mundinho do dia a dia para beber do amor que cada um exalava. E tão rápido chegaram como rápido partiram, assim, feito o arco-íris que aparece imponente no céu e logo se esfumaça. As pessoas saíram, foram embora. Mas a casa não os deixou partir. Ainda ecoam nas paredes da minha sala o riso e a música. Ontem encontrei uma capinha de escova de dentes que pertencia a um deles, ficou na pia do banheiro um frasquinho de água que lavava os olhos de outro. No livro de ouro ficaram algumas assinaturas, mas no meu coração permanece a marca indelével da união e do amor.

Verónica Vidal




13 comentários:

  1. Doces momentos tão bem pintados

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    1. Obrigada, Joana. É tão bom construirmos memórias doces, não é?

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  2. Experiência inesquecível para a gente. Melhor impossível. Sua palavras expressam bem o sentimento de todos nós.

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    1. E eu fico por aqui, sempre na esperança de recebê-los de novo, de ver o Vitor singrar. Beijo, meu primo querido! Até um dia desses.

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  3. Se estar com vocês já é bom demais, imagina a vontade de voltar depois de ler esse lindo e emocionante relato.
    Obrigada minha sobrinha querida. Amo vocês!

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    1. Vocês têm Cartão Fidelidade. São obrigados a voltar e voltar e voltar. Quando eu for grande, quero ser como tu, minha tia Miss. Acho que já sou até um bocadinho - não loura de olhos azuis, mas livre. Beijo gigante!

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  4. A vida é uma tapeçaria sim .Que o autor
    nos deu todos os tipos de linha. As vezes erramos o ponto,desmanchamos e começamos tudo de novo. Vale PERCEVERAR!!! Realizar nossos sonhos com a ajuda do AUTOR e amigos.

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    1. Sim, tia. E assim tecemos os tapetes da nossa vida, que se entrelaça com outros e com outros e outros. Somos todos parte da grande obra divina. Amo!

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  5. Lindo! É ótimo ter visitas e sentir a familia assim pertinho. São esses os momentos que mais sinto falta.

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    1. Não é? Para nós, que moramos desgarrados, esses momentos são únicos e queremos espremê-los até o infinito. Tão bom!

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  6. Que lindo 🥰 me senti lá mesmo sem estar .

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    1. Mas tu estavas sempre. Nas conversas, nos risos. As paredes da minha casa não te deixam ir embora. Beijos.

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Vá, coragem, diga alguma coisa, comente, não dói nadinha... Beijos!