terça-feira, 21 de junho de 2016

Doces Brasileiras em Terras Lusas

Aproveitamos melhor a nossa infância na maturidade. Não tenho a menor dúvida disso. Hoje, aos 48 anos, aproveito a minha infância como não a fiz aos 8. Talvez porque não tivesse à época qualquer consciência da efemeridade das fases da vida, talvez porque estivesse concentrada em aproveitar o momento e fotografá-lo na memória porque secretamente sabia que dias viriam em que eu iria amar me lembrar desses instantes.

Minha tão esperada visita da tia Gisele se fez real. Finalmente! Depois de nove anos de exílio autoimpingido e após um planejamento frustrado, minha tia/madrinha veio passar uns dias comigo. poucos, mas bons. E junto veio minha tia menina Alice, mulher viajante, menina de estrelinhas. E com elas veio Sandra, prima misteriosa que deslindou o fio da meada entrelaçada da nossa família misturada e eu acabei por ser lembrada de que tinha uma tia que não era tia mas havia sido tia porque meu avô que não era avô virou avô. Logo, Sandra é minha prima. Simples assim e claro feito água como todas as coisas na minha família. Para coroar, trouxeram Rose, amiga da tia Gisele. Se bem conheço o histórico da família e o bom encaixe de Rose nessa tresloucada mistura, meus netos ainda a chamarão de tia e se um dia alguém disser que ela não é tia será complicado explicar sua origem.

Casa cheia, dividi com meu marido as nossas visitas: Eu ficaria encarregue das quatro brasileiras e ele dos quatro portugueses. Ah, sim, porque visitas cá em casa quando aparecem vêm em bando. E espaço arranja-se. E lá fomos as cinco mulheres de meia idade, ou quase isso, sapecando pela região centro de Portugal. Do passeio nos moliceiros de Aveiro, com a doce brisa a beijar o nosso rosto e o belo Pedro que nos abandonou chorosas, levamos no peito as saudades e no estômago o peixe grelhado e as tripas d'Aveiro. Milagrosamente eu consegui perder a Lagoa de Mira, mas em se tratando de uma pessoa como eu na condução, perder um acidente geológico como uma lagoa ou uma montanha, não é fato inédito. O jantar nos esperava. um bacalhau português, feito em Portugal por um autêntico português. Já não importava mais quantas vezes tínhamo-nos perdido ou se o cansaço nos dominava. Chegamos em casa. Bacalhau e vinho. E conversa fiada. Tudo isso ao mesmo tempo todo mundo junto e misturado.

E largamos nossos sorrisos pelas ruelas de Óbidos, perdemo-nos nas lojinhas e já ninguém se preocupava com o excesso de peso da mala. E depois das promessas não cumpridas de nada mais comprar, paramos em Nazaré, porque eu queria deslumbrá-las com a vista daquela praia espatacular, do casario branco e dos enormes penhascos enquanto Rose queria deslumbrar suas cachorrinhas com presentinhos portugueses - só mais estes!

Por cá torcemos para clubes diferentes, temos religiões diferentes ou nenhuma, temos nacionalidades distintas, discordamos de algumas coisas, concordamos com outras tantas. Falamos todos de uma só vez porque há muito o que dizer, muito o que ouvir e pouco tempo para tudo. Temos todos sede de amor, amor demais para dar e ele vai saindo por todos os cantos e jeitos, em forma de frases, de abraços e de comida, de passeios e de risos, de vinho, de orações, de presentes e de lágrimas. Quem por cá chega é família. 

E descobrimos que Coimbra tem muitos encantos e não só na hora da despedida. Vimos que a cidade é uma lição de sonho e nós fazemos a tradição. Nossa faculdade é o viver e o conviver, é o rir de um tudo e de um nada. Nosso livro é de ouro e a tinta da nossa caneta é indelével: Amor.

Verónica Vidal - é impossível resumir quatro dias em tão poucas linhas. Só me resta dizer uma coisa: Quem ficou com a foto do Pedro????