sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Sou retalho de tapete, sou a mistura de várias pessoas

 


E um pedacinho da minha doce e mágica família veio passar o Ano Novo aqui comigo. Trouxeram o calor para amenizar o frio com que dezembro nos tortura todos os anos por estas bandas de cá. Por pouquinhos dias eu ouvi o doce cantarolar do sotaque baiano que enchia o meu pequeno apartamento de musicalidade, de ginga, de xodó. E, de repente, meu pequenino apê virou a Casa da Minha Avó. E lá apareceram os travesseiros e os colchonetes, decidimos quem dormia onde, mudamos de ideias e lá ficamos todos distribuídos pela casa, junto a malas, vinhos, restos de enfeites de Natal e uma gata tranquilona que não estava entendendo nada.

Meu primo e a mulher viajaram para fora do país pela primeira vez, com o objetivo de trazerem seu filho para um intercâmbio. Mas eu desconfio que esta viagem foi todinha planejada por Deus, para que eles me viessem visitar. O menino há de ficar por aqui algum tempo, para estudar, jogar futebol, socializar e aprender como é viver longe das mãos protetoras dos pais. E então eu testemunhei, ali, pai e mãe, hesitantes em largar a corda para que o menino se vá e voe mais longe. Vi o medo e a esperança nos olhos de ambos, brilhando feito as luzinhas da árvore de Natal. Senti a mistura de cautela e coragem, do desejo que o filho tenha todas as chances e oportunidades que lhe aparecerem e da necessidade visceral de aninhá-lo e levá-lo de volta para casa. Mais uma vez senti o orgulho gigantesco que eu tenho pela minha família. Talvez essa seja uma das provas de amor mais contundentes que possamos dar a um filho: Deixá-lo ir, quando o nosso coração grita para que ele fique.

Vivo num mundo doce, e foi assim que eu sempre entendi a família: é onde se desenrola a sublime tapeçaria de vidas, que se entrelaçam umas com as outras e dessas misturas saem tecidos fabulosos, coloridos, leves, fortes e cheios de vida. A tapeçaria da nossa família é formada de muitos pontos e cores, uns mais pisados do que outros, alguns ligeiramente gastos e outros ainda brilhantes da linha nova, mas precisamos de todos e todos precisam uns dos outros para formarem os mais belos panos que agasalharão o mundo.

E meu marido, parte integrante dos desenhos dessa bela tapeçaria, fez o seu já famoso Bacalhau à Brás (mais conhecido por aqui como Bacalhau do Mário) e comemos e bebemos, rimos e passeamos. Foram tão poucos os dias quanto intensa a presença. Desliguei-me do meu mundinho do dia a dia para beber do amor que cada um exalava. E tão rápido chegaram como rápido partiram, assim, feito o arco-íris que aparece imponente no céu e logo se esfumaça. As pessoas saíram, foram embora. Mas a casa não os deixou partir. Ainda ecoam nas paredes da minha sala o riso e a música. Ontem encontrei uma capinha de escova de dentes que pertencia a um deles, ficou na pia do banheiro um frasquinho de água que lavava os olhos de outro. No livro de ouro ficaram algumas assinaturas, mas no meu coração permanece a marca indelével da união e do amor.

Verónica Vidal




quarta-feira, 5 de março de 2025

Pedro - 2 aninhos de pura alegria!

 Querido Pedro,

No dia 4 de Março, aqui pelas terras que mora a vovó, choveu e fez sol. Havia um vento gelado que sismava em soprar o dia inteiro. Foi um dia de Carnaval molhado, um dia de preguiça, sofá e manta. 

Mas, não importa o tempo ou o lugar. A verdade é que já há dois anos que o dia 4 de Março é o dia mais especial do ano. É o teu aniversário, meu amor. E há dois anos inteirinhos que tu tens enchido a vida de todos nós de amor, risos, alegrias e novidades. Minha vida é muito mais rica depois de ti, meu querido. E eu tenho quase a certeza de que a vida de toda a gente ficou mais feliz depois que tu vieste ao mundo. Tu nos ensinas que a vida é demasiado curta para nos darmos ao luxo de não brincar, que o pipiu mora no buraco da árvore e que ele come acerola. De ti eu soube que o nome real do Capitão América é Camécala (muito mais legal) e que a estrelinha brilha.

Só quem te conhece tem a noção do que é ser arrebatado por um comboio de carinho, atropelado por um camião de felicidade e atingido pela explosão de amor que vem de ti. Tu és único e perfeito. Crescerás semeando amor por onde passares, porque esta é a tua essência e continuarás a contagiar o mundo com felicidade, até que todos nós cresçamos em cores brilhantes e sabores de frutas. Serás rei e criarás novas leis: Brinquedos serão pagos com sorrisos e roupa de super-herói será obrigatória a toda a gente. Hás de voar mais alto que a Lua e mergulhar no mais profundo dos oceanos. Porque tu és o meu neto amado, a quem eu abençôo com a abundância de tudo.

Feliz aniversário, Pedro!

Tua avó Verónica, que mora lá, lá longe, mas que te ama um mundo inteirinho.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Cuidado com as mulheres que leem

 

 

Foi neste ajuntamento de maravilhosas mulheres que eu encontrei meu ninho. Uma mistura de gostos e opiniões, de sentimentos e desejos. Com uma linha de amor que nos cose a todas numa única colcha de retalhos: Os livros. Não apenas a literatura em si, mas também os livros, suas capas, suas traduções, seus cheiros, seus apontamentos. Ainda que as opiniões sejam divergentes, o respeito e o carinho ali existente é quase palpável. Há quem prefira o livro físico, há quem defenda os leitores eletrónicos. Há quem dobre a página, sublinhe e escreva notas, há quem venere o livro como objeto sagrado, que o leia com o cuidado de um livro raro. E estamos todas bem.

Eu cheguei no clube há menos de um ano, com um curriculum de livros clássicos. Buscava conhecer gente que me tirasse da mesmice literária. Sou uma leitora preguiçosa. Voraz, mas preguiçosa. Sempre busquei os títulos clássicos e os autores já consagrados pela crítica por pura preguiça de tentar o novo. Meu único pensamento era: Já me dececiono tanto na vida, não gosto de me dececionar com um livro.

Sob a influência do clube, amadureci.  Minha estante, repleta de Murakami, Valter Hugo Mãe, Helena Ferrante, Margareth Atwood, Saramago, Kafka, Gabo, enfim, começou a dar espaço para as leituras mais leves, para Freida, Coleen Hoover e coisas do gênero. Deixei de chorar horrores quando um livro terminava, porque sabia que podia ler um levinho em seguida que ficaria consolada. 

Descobri os autores portugueses menos conhecidos. Descobri as autoras portuguesas e encantei-me com suas obras. Perdi o medo de ler o novo. Encontramo-nos uma vez por mês e a este último encontro eu estava em viagem. Faltei. Tive pena, muita pena. Mas vi os relatos e as fotos das mulheres felizes que se encontraram para falar das suas leituras, para estreitar seus laços de amizade e senti um orgulho enorme. Por ser mulher, por ler, por fazer parte de algo que cheira a amor, a respeito, a maturidade. 

Verónica Vidal - Obrigada, Sandra Matias, pela iniciativa de fundar o Clube de Leitura da Figueira da Foz.  Meus títulos preferidos ainda são "Cem Anos de Solidão" e "A Turma da Mônica", mas tenho tentado ser cada vez mais eclética, juro.





segunda-feira, 4 de março de 2024

Porque tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei o meu amor

Querido Pedro,

Quando o dia amanheceu hoje, nesta terra de marços frios e húmidos, o sol brilhava em meio ao nevoeiro. Eu acordei sentindo-me especial num dia muito especial. Já desde ontem sentia a ansiedade a bater no peito porque hoje completarias 1 aninho. E neste teu primeiro ano de vida tanto se passou, tanto aconteceu! Aprendeste a sentar, começaste a comer frutas e legumes, e carnes e peixes, e pães e bolos. Nasceram-te dentinhos e gatinhaste por toda a casa. Tens muitas horas de choro e mais horas ainda de risadinhas fofas que encantam a toda a gente. E durante todo este ano, vi-te crescer à distância, por relatos, por fotos, por vídeos e vídeo-chamadas. Estive contigo nos teus primeiros dias de vida e agradeço a Deus por aqueles dias preciosos. Doeu-me tantas vezes não estar aí contigo em vários momentos únicos. Mas sabe de uma coisa, Pedro? Aprendi que 'longe é um lugar que não existe' e que o amor transcende fronteiras e ultrapassa distâncias.

Eu amo-te só porque sim, amo-te porque sou tua avó Tua avó que mora longe e, se longe é um lugar que não existe, sou a tua avó que mora aí, junto de ti. Sou a tua avó que ora por ti todos os dias, pedindo a Deus que te proteja e te dê saúde e alegrias. Descobri em ti um amor gigante, diferente, profundo. Um amor de perpetuação, uma certeza do sempre. És o meu sempre, Pedrinho.

Para ti, desejo uma vida inteira de felicidade, de amor, de sabedoria e graça. Que do teu coração brote a bondade, que é o escudo para tudo o que há de ruim no mundo. Partilhe amor. Porque amor é dessas coisas que crescem muito quando são partilhadas. E eu amo-te até ao sempre.

Feliz aniversário, meu netinho lindo!

Vovó Verónica




sábado, 15 de abril de 2023

A cria da cria


 Ainda no outro dia eu te sentia dentro de mim. Sentia a tua vida misturada à minha, sem começo e sem fim. Sabia entretanto que o dia chegaria. O dia em que te separarias de mim. Queria ver-te crescer, queria ver-te vencer, mas queria manter-te dentro de mim. E neste misto de querer, tu quiseste nascer e te apartaste de mim.

E eu te levava nos braços, apoiava-te nos teu primeiros passos, enquanto tu corrias para longe. E te foste. Senti tua falta, senti. 

Uma vida se formava dentro de ti, que era a minha vida. Vida dentro de outra e dentro de outra, como um caleidoscópio de amor pulsante, batimentos cardíacos, movimentos constantes. Tua vida cresceu, espigou-se, saiu de dentro de ti. Minha vida dava vida, minha vida alimentava vida. Num misturar de mãos e dedos, de bocas e peitos, eu já não mais encontrava lugar ali, e, tão desnecessária estava, tão longe, que parti. Levei tempo para ocupar meu lugar de expectadora de ti. Ainda calco o chão, ainda dou passos vacilantes, como se só agora  eu aprendesse a andar.

Um amor diferente brotou dentro do meu peito. Um amor mais doce, mais livre, sem medos e sem exigências. Uma certeza de sucesso, de perfeição, como se aquele perfume eu já tivesse sentido, como se aquele livro eu já tivesse lido. O livro bom, o perfume suave. 

Sei que vais sofrer todas as dores da incerteza, vais verter todas as lágrimas amargas da maternidade dorida, de um amor impossível e sem medida, de um medo constante e terrível. Mas também sei que vais experimentar a felicidade plena, a continuidade da tua própria vida em cada sorriso desdentado, em cada passinho cambaleante, em cada desenho em giz de cera. E eu estarei aqui, expectante e mentirosa, a falar constantemente da minha alegria em te ver crescer com sucesso e longe de mim, quando tudo o que eu mais quero é te pegar no colo, segurar tuas mãos e ajudar-te a caminhar. Mães mentem quando soltam as rédeas do filho. Mães nunca as soltam. 

Verónica Vidal

À minha filha Camila, mãe do Pedro, que começa agora a experimentar os sorrisos e as lágrimas dessa mágica chamada maternidade.


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

É um vazio que ocupa imenso espaço

Não nos despimos do luto, ainda que não nos vistamos de preto. 

Não nos despimos do luto, ainda que celebremos a vida. 

Nosso luto fica cravado na alma, acumula-se junto às outras perdas dolorosas. A dor da perda não é mensurável, não pode ser comparada, não dói mais em mim do que em ti. Nascemos para a vida eterna e é simplesmente natural que não aceitemos a morte. O amor sobrevive ao fim da carne, ele continua mesmo após o último suspiro do ser amado. E não o teremos mais conosco.

Somos massa maleável, moldados por tantas coisas na vida. Nossos pais, o ambiente em que crescemos, a sociedade em que vivemos, a escola que frequentamos, os livros que lemos, as músicas que ouvimos, as pessoas que cruzaram os nosso caminhos, cada um, cada pequeno evento ajudou a construir o que somos hoje.

A minha avó foi uma grande influenciadora na minha vida. Com ela aprendi que choramos o que temos que chorar, porque amanhã a vida nos trará algum motivo para comemorar. Aprendi mas pouco usei. Sou egoísta, queria-a para sempre. 

Dela eu ouvi a primeira história do casamento da D. Baratinha. E foi a sua versão da história que eu contei para as minhas filhas e para os meus netos. Ainda sinto o cheiro e o sabor das empadinhas de queijo que só ela sabia fazer. Mentira, minha mãe também sabia, mas era receita da vovó. Talvez eu me agarre a uma meninice que todos sabemos que nunca mais voltará, mas assim é e eu não quero me soltar. Quero dormir e acordar com as lembranças do convívio com a minha avó. Das tardes ensolaradas e de brisa fresca nas areias de Iguaba. Das noites de Natal e do especial do Roberto Carlos, do relógio a badalar as doze horas e de toda a gente a se abraçar. Das festas juninas com o mesmo disco a tocar sem parar e os primos a acender o balãozinho japonês.

E disseram-me, com aquela tranquilidade de quem não se importa, que a minha avó já havia vivido por 101 anos. Que era muito. E disseram-me que eu sou adulta e vivo longe, e que isso era bom, diminuiria o meu sofrimento. E meu egoísmo não me permite pensar assim. Minha avó não tinha idade nem distância, tinha uma presença etérea que não se desfazia. Eu não herdei a sua força. Eu não herdei a sua capacidade de superação. Eu quero me enrolar debaixo dos cobertores e chorar a sua partida. Eu tenho 55 anos e não tenho avó, não sei o que fazer.

A morte da minha avó dividiu-me em duas: Na mulher forte que quer honrá-la e brindar a tudo o que foi a sua maravilhosa vida, e na menina pequena, órfã, perdida e sem rumo. Sei que hei de passar por mais esta perda, que hei de sorrir e de chorar e que só as boas lembranças ficarão, porque este é o preço que a vida nos cobra.

Verónica Vidal




segunda-feira, 11 de abril de 2022

A Vóternidade aos 101

 

101 anos de vovó Alice

Na minha cabeça, a minha avó Alice já nasceu avó. Sempre foi assim e assim seria para sempre. Só depois de muitos anos, quando eu me tornei avó, percebi que não existe uma palavra que defina essa transição. Para as mães, temos a maternidade, para os pais, a paternidade, mas e para as avós?

A vóternidade, assim, com acento agudo, palavra impossível na nossa língua, é vivida de forma intensa, ainda que sutil, pela minha avó Alice. Ela foi se tornando mais avó à medida que mais netos lhe nasciam, de tal forma que a sua vóternidade é hoje majestosa, imperial. Rio-me às gargalhadas quando atribuem longevidade ímpar à Rainha da Inglaterra, com apenas 95 anos. Minha avó Alice, na simplicidade dos seus 101 anos não alardeia fama, mas é a pessoa que governa a família inteira com um sorriso nos lábios e ao som de um Michel Teló na TV. E, convenhamos, a minha família mágica é muitíssimo mais importante do que toda a Grã Bretanha. Somos mais bonitos, mais simpáticos, mais divertidos e os nossos protocolos reais são seguidos sempre à risca: Há sempre festa. Não importa como ou quando, celebraremos.

Hoje, nos dias em que a vida me corre ao avesso, lembro-me da minha avó, ainda outro dia, a ouvir Roberto Carlos, sorrindo, de frente para a TV e sentada na sua cadeira de rodas. Ela dançava com os braços, e assim dizia-me que é importante que sejamos felizes com o que temos. E todas as minhas preocupações que então pareciam enormes, diminuíram de tamanho até que se desvaneceram totalmente. Vovó sempre ensinou-me sem palavras. E eu sigo o exemplo da minha avó Alice. Porque Deus não permite que uma pessoa complete 101 anos se a sua sabedoria não for superior à de todos. Minha avó Alice sabe das coisas.

Fui construída com as memórias que me ficaram gravadas no coração, feito tatuagem, para nunca mais saírem. De todas as minhas memórias a casa da minha avó lá está, viva, pulsante, barulhenta e cheia de amor. A minha família ganhou um nome, “a casa da minha avó” e ela é mesmo assim, um oásis de amor em meio a um mundo tumultuado. Cada vez mais espalhados pelas terras deste mundo, as sementes da minha avó derramam lágrimas de saudades, gargalhadas de alegria, abraços e beijos, tudo ao mesmo tempo. Oramos fervorosamente a Deus e contamos anedotas menos pudicas quase que na mesma frase. E é a minha avó Alice quem tudo orquestra, como se de longe estivesse, mas está tão imiscuída dentro de cada um de nós que já fica difícil separar quem somos, porque somos todos “a casa da minha avó”: Cada um de nós tem um pedaço dos natais, das festas, dos desempregos, das crises, dos casamentos, dos nascimentos, do tio Tão, do tio Jara e do papai, da Andréia e da tia Tete, da tia Leca e da mamãe, do avô Moacir e da Tide. Somos muitos, mas somos um só.

Feliz aniversário, vó. Confesso que ainda tenho ciúmes de ti, sei que é uma coisa infantil, às vezes queria ser a única neta. Mas no fim das contas sei perfeitamente que todos nós somos tu, vó. Confesso também que era eu que roubava o amendoim do topo dos cajuzinhos, mas isso é outra história. Beijo.


Verónica Vidal

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Somos Tão Bons

 

Somos pessoas tão boas, não somos? 

Mentira. 

Somos seres corruptos. Gostamos de parecer mais importantes do que realmente somos. Porque a nossa mediocridade não nos satisfaz. Mas a nossa preguiça em aprimorarmo-nos, seja lá no que for, é maior. Então mentimos. Ou falseamos a verdade. Induzimos o outro a nos julgar mais poderosos, mais inteligentes, mais estudados. Contraímos empréstimos para pagarmos o carro que nossos rendimentos não nos permitem ter, usamos maquilhagem para parecermos mais jovens, cintas para parecermos mais magros.

E vamos à igreja aos domingos. Sim, porque somos praticamente santos. O pináculo da criação. Ou não vamos à igreja porque a religião é corrupta e alardeamos que somos contra a corrupção. E sonegamos impostos. 

Repassamos posts nas redes sociais, revoltados com a fome na África e com a exploração infantil na China. E usamos as roupas fabricadas pelas pequeninas mãos exploradas pela indústria da moda, que reduzem seus custos à custa do sangue e da fome alheios. E escolhemos a alienação. Não vimos, não sentimos. A crítica serve para o outro e a desculpa serve para nós. 

Dizemos que sim, amamos os animais. Comemo-los porque somos onívoros. É a indústria que os tortura. Mas mantemos o nosso cão acorrentado no quintal, preso dia e noite, no verão e no inverno, por toda a vida. A ele, damos os restos da nossa comida. E tiramos fotos do nosso amigo, e sorrimos e nos sentimos benfeitores, porque este cão foi acolhido por nós, tem um lar. 

Revoltamo-nos quando descobrimos que um amigo nos criticou pelas costas. E criticamos impiedosamente este mesmo amigo, o vizinho, o cliente, o patrão, o empregado. Porque a falha do outro enaltece-nos. Nós não somos maus como os outros. Somos pessoas tão boas.

Verónica Vidal


Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano.
O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano.
Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.
O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!
Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado. (Lucas 18:10-14)




segunda-feira, 17 de maio de 2021

Nasce uma Estrela ou... um Escritor


 Já há cerca de um ano tenho este texto aqui meio escrito mas, por uma questão de elegância, fiquei à espera que primeiro o autor da obra abrisse a apresentação do seu livro. E já lá está, conhecido do grande público, o novo livro do Pedro Guimarães, "Criadores de Estrelas".

Não guardo segredo nenhum que, vez por outra, sou acometida de paixões lancinantes por alguns escritores. Sou mulher eclética e sem preconceitos e, do mesmo jeito que me apaixono por Isabel Allende ou Margaret Atwood, morro de amores por Valter Hugo Mãe, Saramago e Murakami Às vezes tenho até um certo receio de ser acusada de stalker ou qualquer coisa assim. Minha sorte é que muitas vezes o objeto da minha paixão já está morto e bem morto há muitos anos e a única coisa que eu persigo são mesmo livros. Livros não nos processam por perseguição.

Conheci o Pedro Guimarães - é, agora sou assim, tu cá, tu lá com o senhor - na apresentação do seu primeiro livro, "O Diário de um Morto", que me proporcionou grandes momentos de gargalhadas descontroladas e aquela cara estampada de tonta que só um leitor sabe que faz quando está imerso numa obra. Sim, caro amigo aficionado pela literatura: Você também faz uma cara peculiar quando mergulha numa obra assim, descuidadamente, em público. Pois bem, o então autor Pedro acabou por lançar um outro livro, igualmente delicioso e facilmente devorável, o "Crianças, Bichos e outros Patifes".

Ocorre que, a dado momento, escrever caiu-lhe no gosto e o senhor lá decidiu-se por lançar outra obra. Desta feita, não mais na primeira pessoa, mas um livro de mistério, romance e assassinatos, não necessariamente nesta ordem. E lança o "Criadores de Estrelas". Como já havia sido fisgada, li-o, claro. E durante o desenrolar da história, começo a perceber, no avançar das páginas, o nascimento de um escritor. Lembrei-me da personagem da Lady Gaga no filme (mentira, lembrei mesmo foi do Bradley Cooper, mas isso é outra história). Aquele que antes era autor de boas histórias, que contava experiências vividas na pele - dele próprio ou de outrem -, inicia agora a construção de um mundo imaginário, ainda que real. Entretanto, conseguiu manter a doce assinatura que fez com que nos apaixonássemos pela sua escrita. Se nos dois primeiros livros ele declara o amor pelas suas raízes, pela sua mulher e pelo seu neto, neste o Pedro declara o seu amor pela cidade de Coimbra. Os personagens passeiam pelos recantos da cidade e arredores e, de brinde, somos nós também transportados. Sem uma gota de pretensão, mantendo a linguagem simples e a narrativa direta que acabou por se tornar a sua assinatura, Pedro Guimarães deixa, com este livro, de ser um contador de histórias para ser um escritor. Presenteia-nos com uma crônica policial, meio ao estilo Rubem Fonseca, meio a jeito de conversa, que nos agarra às páginas, nos alimenta. Livro bom é aquele que agrada e Criadores de Estrelas agrada, põe-nos um sorriso de satisfação na cara. 

"O que realmente me impressiona é um livro que, quando você acaba de lê-lo, você deseja que o autor que o escreveu fosse um amigo incrível seu e que você pudesse ligar pra ele quando sentisse vontade." - J.D. Salinger (O Apanhador no Campo de Centeio(BR) /Uma Agulha no Palheiro(PT))

Verónica Vidal

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A vida a preto e branco


 Tenho saudades de mim mesma. Saudades de um eu que cá está mas que já não se mostra. Saudades de uma vida que a mim me sorria e eu para ela sorria de volta. Saudades de uma inocência que nunca mais voltará.

O passar do tempo cura feridas mas abre crateras. Aumenta distâncias, desfaz mitos, deixa cicatrizes e molda-nos o sorriso. Geralmente o rouba de nós. Vejo crianças muito felizes, a saltar poças d'água, a brincar nos baloiços. Vejo adolescentes em bando a rir de um tudo e de um nada, a criar uma linguagem única. Vejo jovens casais enamorados, a tocarem-se, a abraçarem-se, a sorrir. Vejo adultos preocupados com as contas da vida. Mudos. Vejo velhos tristes, à espera da morte. Estáticos. E pergunto-me o porquê. Quanto mais o tempo passa, menos sorrisos vemos nos rostos dos que vivem, menos vida vemos nos rostos dos que esperam diligentemente pela morte. A vida se descortina aos poucos e vai se mostrando, nua, seca. As cores, antes tão suaves e doces se vão escurecendo, acinzentando-se, perdendo o brilho. O céu, outrora azul, torna-se plúmbeo. E ainda tentamos, escavamos em busca da alegria da meninice, da inocência do antigamente, num eterno faz-de-conta-que-eu-não-sei, na vã tentativa de uma felicidade mentirosa. Boa. E falsa. 

De tanto escavar, cansamos. E vestimos as nossas vestes cinzentas. E esperamos a morte chegar.

Verónica Vidal

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Pedaços de mim

Vou deixando pedaços de mim pelos caminhos da vida. Mutilo-me a cada mágoa, a cada tristeza, a cada golpe. Meus olhos vêem hoje diferente de como viam dantes. As cores do verão são a cada dia mais cinzentas e é-me difícil sorrir da mesma forma que sorria antes. A neve das terras altas, dantes tão imaculadamente branca, é hoje lamacenta do degelo. As flores dos vasos desapareceram e o verde das folhas amarelaram. 

A lama sempre lá esteve. As folhas ressequidas sempre estiveram misturadas às verdejantes. Mas meus olhos nunca a viram. Eu admirava com prazer o colorido das flores que hoje não mais existem. Sou o resultado de tudo aquilo que permiti que me influenciasse, que me encantasse, que me tocasse o sentimento. E fechava os olhos para o inverno da vida a fim de me convencer de que o sol brilharia sempre, só porque era esse o meu desejo. O choro era de outrém. A dor nunca foi minha. 

Felicidade é um estado de espírito que pede cultivo. E eu a alimentava com alegria, com a vitória do outro, com a boa disposição para o mundo. Adubava a minha felicidade com o sopro do vento, com a esperança de vida. Tentava injetar amor sozinha, como quem se droga, para não ver a falta de amor que rondava à minha volta. Mas a vida é como tempestade: assola-te sem piedade, derruba-te se insistes em ficar de pé. Anula-te, só para mostrar que é assim que deves viver, que é isso o que mereces, o nada. E aceitei. E o véu se descortinou de diante dos meus olhos e vi. Vi a fealdade da vida, os excrementos dos vizinhos, senti o cheiro fétido do ar. Ouvi a maledicência que saía da boca do sacerdote, senti a faca que se enfiava nas minhas tripas pelas mãos dos que eu dizia amar, notei os vergões de chicote nas minhas costas, os grilhões que prendiam os meus pés, numa escravidão torturante e silenciosa. 

Hoje arrasto as minhas correntes pela casa, feito alma penada. Ainda penso em fingir felicidade, mas perdi o jeito, esqueci o texto e desisto. Espero que as semanas passem rápido, que os meses se atropelem que a vida se finde. 

Verónica Vidal





sábado, 11 de abril de 2020

O Amor em Tempos de Covid

10 de Abril de 2020. É Sexta-feira Santa.
A maior parte do mundo está de quarentena, encerrada em casa. A humanidade está enferma.
Muitos choram e lamentam os seus mortos. Outros bravos nascem em meio à pandemia que se instalou. Mas para a minha família há um motivo especial de celebração: É o aniversário da minha avó Alice.

E foi assim que celebramos os 99 anos da minha avó: Cada um da sua casa, tateando uma tecnologia que ainda é nova para muitos mas que nos fez ficar juntos por deliciosos minutos. E lá fomos nós, superando as dificuldades de vídeo, de áudio, juntarmo-nos para cantar os parabéns à avó Alice e revermo-nos um bocadinho. E toda a gente falava ao mesmo tempo, tal e qual a varanda da casa da minha avó. E tantas gerações ali se juntaram, tantas famílias ali reunidas, pura e simplesmente por amor. E minha avó nos via, a todos, e sorria, e demonstrava uma felicidade genuína, simples, de quem está acostumada a ver os anos passarem e as mudanças da vida transformarem tudo, até mesmo as festas de aniversário. E fizemos as fotos mais feias de toda a história dos encontros. Só que mesmo nessa imensa bagunça de rostos misturados e captados numa fealdade hilária e torta, com cabeças cortadas e imagens desfocadas, vê-se uma alegria quase palpável, uma felicidade que grita.

A minha família não tem uma árvore genealógica. É formada por um jardim genealógico, posto que outras árvores entrelaçaram seus ramos na nossa, de tal forma que nos é praticamente impossível definir a origem de todos. Eu tentava explicar à minha filha quem era quem, filho de quem, neto de quem e perdi-me no meio do caminho.

Minha avó atravessa uma estrada pedregosa há 99 anos. Pelo caminho precisou despedir-se de dois maridos, quatro filhos e uma neta. Enfrentou doenças complicadas e cirurgias perigosas. Nunca, nunca deixou-se vencer pelas perdas. E talvez seja por isso que a celebração de cada aniversário dela tenha uma importância agigantada para nós. Muito mais do que um aniversário, celebramos a vida, o amor, a família, as raízes, a aceitação do outro. D. Alice nunca foi mulher de grandes e célebres frases, mas sim de grandes e indeléveis atitudes.  E o bem contagia. Contagiou-nos a todos. Somos uma família do bem, um jardim de amor. A humanidade precisa de mais avós Alice espalhadas por aí. E assim, ela será curada.

Verónica Vidal - tentando levar a vida com a mesma positividade da avó. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Amar desmesuradamente - Crianças Bichos e Outros Patifes

Livro do acervo de Verónica Vidal

Não é segredo para ninguém que eu seja amante de livros. Tenho os meus gostos particulares, mas em geral sou até bastante eclética. Mas é que, como toda a gente que tem as suas manias, eu tenho cá as minhas. Quando apaixono-me por um autor, leio tudo o que brota ou já brotou das suas ideias e assim a minha estante vai se enchendo de nomes. É assim com Valter Hugo Mãe, Haruki Murakami, Margareth Atwood, Saramago, Eça de Queirós, Garcia Marquez, os Kepler, Isabel Allende e por aí vai.

Cada um dos autores me foi apresentado de forma diferente. Uns por livreiros, outros foram presentes de amigos, uns tantos caíram nas minhas mãos ao fuçar na livraria.

Até que eu fui à apresentação de um livro, aqui em Coimbra, autor local. "O Diário de um Morto", de Pedro Guimarães. Apaixonei-me pelo livro. Ou melhor, apaixonei-me mais especificamente pela narrativa, o que conferiria ao escritor um lugar de destaque na minha estante e a certeza de que seu livro seria lido umas duas ou três vezes. Problema: Era o primeiro livro do escritor e eu não teria mais nada dele para ler. Sem remédio, tive então que aguardar o próximo. Quem gosta mesmo da linguagem de um autor e tem prazer em ler, sabe bem do que eu falo. Vamos lendo um livro e outro, e outro, mas temos aquele fisgado, o objeto do nosso desejo, à espera de sair do forno. E, quando sai, vamos cheios de espectativas devorá-lo. E assim foi.

"Crianças, bichos e outros patifes" conta-nos as peripécias de um menino desde o seu nascimento até à maturidade dos seus sete anos, na convivência com o seu avô e restante família, incluindo cães, gatos e caracóis. Mais do que a vida de uma criança, lê-se nas entrelinhas o amor desmesurado de um avô. É um livro escrito como se de um diário se tratasse, como se tivéssemos a cavucar num baú e lêssemos a vida do outro, em condições tão parecidas com as nossas próprias. Impossível não nos identificarmos em várias das situações. Completamente despretencioso, numa linguagem fluida, leve, como uma conversa na varanda, o livro é um refresco para a alma. Faz-nos rir e esquecer que a conta de luz está pela hora da morte, o combustível aumentou e que agora temos que tomar medicação para a tensão alta.

A má notícia: Por enquanto só vende aqui em Portugal. Vocês terão que me vir visitar.

Verónica Vidal - única proprietária do livro da foto, um bocado para o amassado pelas andanças da vida.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Bom Sucesso para os Filhos do Ruy Barbosa!


"Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e a distância digam não", mesmo esquecendo a canção. O que importa é ouvir a voz que vem do coração." (Canção da América - Milton Nascimento)



Não se pode mensurar o amor que sentimos pelos amigos. Não se pode apagar a amizade cultivada na infância, aquela que invade a adolescência e, ainda que se pareça perdida na vida adulta, explode em milhões de cores quando tocada de volta.

Eu tive o imenso prazer de receber uma das minhas amigas de infância. Foi impossível não lembrarmos de tempos, para mim os melhores da minha vida, onde a inocência, as brincadeiras e os risos reinavam sempre, como parte do dia a dia. Naquela época não sabíamos a importância que isso teria nas nossas vidas. Não sabíamos que ainda lembraríamos com saudades do tempo em que corríamos desesperadas para não levarmos com um ovo pela cara, atirado por um qualquer delinquente, provavelmente nosso colega de turma. E tínhamos nossos professores preferidos, os que aturávamos e os que odiávamos. Hoje, lembro com carinho de todos eles. Mas os pontos altos do nosso dia a dia eram a hora do recreio e os tempos vagos. Pular elástico, jogar pião de fieira, escrever no "caderno de perguntas", segredar à amiga a nossa última paixão, ah, sim, esses eram momentos de puro deleite. E lembramos disso tudo e ainda mais.

Vanda, a minha amiga, chega cá em casa de mala e coração cheios. Não parecia em nada que já não nos víamos há mais de 15 anos. Imediatamente a ligação com o grupo remanescente do Ruy Barbosa se refez, e recebi as novidades sobre cada um. Crescemos e ficamos gente grande, fizemos faculdades e arranjamos empregos importantes, tivemos filhos e maridos e mulheres e cães e gatos. Mas seremos sempre cria do Ruy Barbosa. Cantaremos o samba "Natal, perdeu seu braço na Central...♪", vestiremos as nossas roupinhas de baiana azul e branco e nos apresentaremos à vida, regidos pela D. Jurema.

Verónica Vidal ex-aluna do Ruy Barbosa, ex-patrulheira, ex-monitora de turma e detentora das melhores lembranças que uma infância pode trazer.  








sexta-feira, 5 de abril de 2019

Confissões de uma neta

Olá, vovó.
Eu não estarei presente à festa de aniversário dos seus 98 anos este ano.
De novo.
Vovó, eu preciso confessar algumas coisas que me apoquentam a alma, já há algum tempo:

Vó, eu confesso que sempre senti ciúmes do seu amor pela minha irmã Valéria. Por quase toda a vida. Só mesmo quando eu me tornei avó, depois de nascido o meu segundo neto, é que percebi que esse era um ciúme infundado. É-nos impossível amar mais um neto do que o outro.

Vó, eu confesso que nessas questões de amor eu fui muito insegura. Lembro da vez em que eu chorei feito uma desalmada porque estávamos todos na praia de Sepetiba e minhas pernas ficaram cheias do lodo negro que havia por lá. Voltamos para a casa e eu chorei ainda mais alto para demonstrar todo o meu sofrimento e você só me disse: "Não é preciso chorar, lava que isso sai". Naquela época era um infortúnio monumental, mas hoje ainda uso essa frase para os dramas da minha vida: Não é preciso chorar, isso sai.

Vó, eu confesso que muitas vezes não entendia o porquê da Licinha ficar na casa da tia Norma e nós ficarmos na casa do Sr. Rufino, lá em Iguaba. Pensava que as férias haviam de ser todas juntas numa mesma casa. Demorei a entender que as casas não comportam todas as pessoas que eu quero. Às vezes ainda não entendo, acho que sou meio gato: Se tem um cantinho que cabe uma pessoa, dá para ficar. Mas sei que não é assim que funciona.

Vó, eu confesso que abria o armário que tinha por trás do espelho no banheiro da sua casa. De todas as casas, todas as vezes que ia. Nunca me curei disso. Até hoje, vez por outra, abro o armário do banheiro das pessoas e vejo as marcas das pastas de dentes, as escovas de dentes penduradas nos suportes, um ou outro remédio. No seu armário havia mercúrio-cromo. Como eu amava isso! Na minha casa era merthiolate, que ardia feito pimenta na ferida.

Vó, eu confesso ter usado o seu perfume um dia, quando dormimos na sua casa na Gonzaga Bastos. Fui ao seu quarto, abri o frasco de perfume mais bonito que havia ali, coloquei um pouquinho e sorrateiramente fechei-o. Pensei que nunca iria descobrir, até me tornar adulta e perceber que, obviamente, você sabia, sempre soube, deve ter-lhe cheirado de longe. Mas nunca ralhou comigo por isso, nem por nada. Hoje eu também relevo muitas traquinices dos meus netos porque sei que é pura curiosidade. Aprendi a relevar coisas com você, vó.

Eu tenho muito mais coisas para confessar, mas acho mesmo que todas elas você já sabe. Meus irmãos e meus primos devem também ter confissões a fazer, mas também essas você já conhece de antemão. Eu peço desculpas por estar longe. Ter um neto longe, ainda que tenhamos muitos por perto, é sempre uma dor, uma falta, uma tristeza. Acredite vó, também sinto que sempre falta um pedaço de mim. Mas é assim que funciona. Pode ser que um dia, mais à frente, a vida fique compreensível. Enquanto isso, aproveitemos o que nela há de bom. Isso, eu também aprendi com você. Não com palavras ditas, mas por essa osmose que me faz sugar o melhor do conhecimento e sabedoria de vida que você tem, vó. 

Feliz aniversário, vó. 

Verónica Vidal

terça-feira, 10 de abril de 2018

Viemos de um mundo que não existe - O mundo da minha avó


Eu costumo dizer que viverei até aos 120 anos. Bem sei que a vida não nos pertence e a qualquer momento ela escapará das nossas mãos mas, por precaução, vamos tomando as nossas medidas para que tenhamos longa vida na terra. Honrar pai e mãe é um dos segredos. Tão bom quanto comer fruta, beber água e fazer exercício.

Hoje minha avó completa 97 anos. Temos celebrado cada ano como uma vitória. Deus tem multiplicado a sua semente de tal forma que já quase não conseguimos contar. Somos tantos e tão fortes, tão diversos e tão iguais, tão jovens e tão maduros, mas uma coisa é sempre comum: Desde bem cedo aprendemos a honrar-nos uns aos outros.

Tenho imenso orgulho da minha família. Não somente pelo número de pessoas que a ela se foi juntando e que fez com que nos tornássemos incontáveis como os grãos de areia, mas também pela integridade de cada um de nós. Somos tantos e somos honrados.

Nos dias nublados que correm, a honestidade é bem precioso a se guardar. Hoje vejo a minha avó sendo cuidada por muitos e lembro dos dias em que era ela quem cuidava de muitos. Vejo a felicidade estampada nos seus olhos quando ela segura ao colo a sua primeira tataraneta. Vejo tudo isso em fotos e vídeos, porque meus pés me levaram para longe mas o meu coração ficou lá junto da minha avó. Vejo o beijo que meu irmão lhe dá e sinto que sou eu a beijá-la. Porque o meu irmão é um pedaço de mim e, portanto,  naquela foto eu também estou. Vejo a barriga da prima que anuncia a chegada de mais um bebé, mais uma semente da vovó. Vejo a vida que se renova, a família estendendo seus braços pelo mundo, o mundo abraçando a minha família. Domingo que vem estaremos todos lá, honrando a minha avó. Uns bons bocados estarão presentes de corpo e alma, outros tantos estarão distantes mas com o coração a comemorar os 97 aninhos da vovó. 

Sempre percebi a casa da minha avó como sendo um mundo, mas hoje entendo que ela transcende o mundo. Mesmo aqueles que já partiram lá estão, nos rostos dos filhos, nos gestos dos netos. Sei que em algum momento uma das tias há de desencavar a caixa das fotos antigas e vovó vai chorar e beijar várias delas. Sei também que, por mais mundo que eu conheça, o meu mundo será sempre a casa da minha avó.

Vó, este será mais um ano em que eu não vou dormir aí. Essa minha vida de estar longe de ti tem ficado cada dia mais chata. Feliz aniversário, vó. Eu sei que tem um montão de gente que te ama muito, mas eu também sei que eu te amo mais. Beijo.

Verónica Vidal - sabe que é adulta, mas ainda morre de ciúmes de todos os outros netos. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Uma história de natal

De tudo o que há na vida, o que se leva é o amor.
Era uma vez Deus. Ele então fez nascer uma mulher e disse-lhe: tenha filhos e povoe a Terra de amor. E a mulher, obediente, teve filhos, que tiveram filhos, que tiveram filhos e que tiveram filhos. E o amor se foi multiplicando e todos os anos transborda, por pura falta de espaço, nas festas de natal.

E estas festas de natal ganharam um nome especial: É o Natalice.

Alice é a minha avó. Sou a segunda filha do segundo filho da minha avó. Não herdei os poderes mágicos dela, mas o amor transborda em mim também nesta época do ano. E a minha vontade de lá estar explode em mil pedacinhos de saudades e deixa-me com aquele gostinho de rabanada com açúcar e canela que faz a casa toda cheirar a natal. Não sou eu o único galho da família que está distante. A família precisava se espalhar pelo país todo, pelo mundo, para que todo o amor que nos transborda ficasse espalhado pelo chão da terra, como semente de flor. Já era mandamento do Senhor desde antes de nascermos. Todos nós carregamos no peito a marca de Alice.

Quando ainda ninguém falava em diversidade, já minha família se misturava. E foram-se misturando cores e sotaques e jeitos de todos os tipos. E a família foi-se vestindo de graça e elegância, como os passarinhos, como as borboletas, como os gatinhos: De muitas cores, de muita beleza, de muita doçura. Todos somos diferentes e todos somos o mesmo. Estamos longe e estamos juntos. Somos únicos e somos um só.

A minha avó Alice não vive num país das maravilhas, mas criou um mundo de maravilhas para que vivêssemos todos nele. E descobrimos as maravilhas desse mundo quando nos juntamos, quando rimos, quando comemos, bebemos e falamos. E falamos de tudo e de nada, numa cacofonia tão grande que só nós entendemos. E então percebemos como é que Deus entende as nossas orações. É um poder que só Ele tem.

E Deus disse que era hora de uma nova geração. E decidiu que nasceria uma mulher e que esta mulher multiplicaria o amor que espalhamos pelo mundo. E ela nascerá plena, cheia de graça, lotada de amor. Seu pai é herói e sua mãe é artista. E sua mãe há de fotografar a nossa vida e veremos cores de um natal que nunca se acaba, que nasce dentro de cada um de nós todos os dias.

FIM

Verónica Vidal - sou quem sou porque venho de onde venho, e foi este o presente que Deus me deu.


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Amor mendigado

E ela foi prisioneira do amor. Quem mais devia amá-la encarcerou-a numa jaula de esperança. Quem mais devia amá-la era incapaz de amar. Quem mais devia amá-la mais a fez sofrer.

Existem pessoas más. Ainda que todos carreguemos as nossas máscaras de boa gente, ainda que toda a gente carregue seus traumas e razões, algumas são simples e tão somente más. Desprovidas de bondade, de desinteresse, de amor. Desenvolvem um coração de pedra. E triste daquele que tiver o infortúnio de amar um coração de pedra. Viverá prisioneiro do desejo de ser correspondido e receberá migalhas, para não morrer de fome de amor na jaula da esperança.

Perdoamos pessoas más e mentimos por elas. Dizemos que são doentes. Porque nos é impossível crer na incapacidade de amar. Mas a verdade é que só se consegue dar o que se tem. Quem não tem amor para dar nunca o terá para si. Porque amor é dessas coisas que, quanto mais se dá mais se tem e mais se deseja dar. Amar gera prazer e o desamor gera inveja. Aquele que é incapaz de amar invejará aquele que construiu a sua rede de amor. Invejará os beijos, os carinhos, os passeios de mãos dadas, a criança ao colo, os risos, o aconchego no sofá e até a bagunça na casa. Quanto menos pensamos em nós mesmos e mais desejamos o bem do outro, maior é o nosso prazer. Mas é preciso primeiro destruir o egocentrismo, desejar a felicidade do outro antes de nossa. E aí então, seremos felizes. 

"E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece." 1 Coríntios 13:3,4


Verónica Vidal

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Pequenos Passos

Imagem: Twin Heart, by Christian Schloe 
E nós íamos juntas ao colégio Guanabara, cada uma de nós segura pelas mãos da D. Lina. E envergávamos nossas lancheiras cor-de-rosa e amávamos nossa professora, a tia Conceição. Era o pré-primário, nosso primeiro ano de escolinha.

E brincávamos de roda e de pique alto na vila onde morávamos. E desfolhávamos marias-sem-vergonhas para fazermos unhas postiças, bem presas nos nossos dedos com cuspe. E disputávamos quem embalava melhor o carrinho da bebé.

Mas ela logo entrou para a primeira série e eu fiquei para trás. Já não podia mais estar na mesma sala de aula da minha irmã. Ela tem um ano a mais, é mais esperta, está à frente. E eu fui, mal e mal, seguindo os seus passos.
Nos bailinhos de carnaval no Clube Vasco da Gama, onde exibíamos as nossas fantasias – sempre iguais, nunca repetidas – habilmente confeccionadas pela D. Lina – dançávamos sempre de mãos dadas ou bem pertinho uma da outra, que era para não nos perdermos. Fomos índias, baianas, havaianas, empregadas domésticas, usamos sarongues e pareôs.
Nossa primeira vez na discoteca foi memorável. D. Lina nos levou e por lá ficou, enquanto nos acabávamos na matiné de domingo do Olaria. E um dia fomos à discoteca no clube de Iguaba. Sem a mamãe. À noite. Com rapazes. Não, não fomos. Minha irmã foi. Eu era só a irmã mais nova que tinha que ir também. E fui junto.

E fui crescendo à volta dos amigos da minha irmã, que sempre compartilhou comigo um bocadinho de tudo. Era como se ela primeiro experimentasse a sopa a ver se estava muito quente, muito salgada, para só depois eu ir provar também. Toda a nossa infância e pré-adolescência foi assim, até que ficamos gente grande e cada uma seguiu seus próprios passos. Já não usamos mais roupas iguais, já não frequentamos mais os mesmos lugares, já nem vivemos mais no mesmo país. Mas para sempre ela será a primeira, a minha irmã mais velha.

Verónica Vidal
À minha irmã Valéria, que não é minha gémea mas toda a gente achava que sim, os meus parabéns!

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A verdadeira história da Mulher Maravilha e seu filho herói

Imagens não cedidas. Fonte: Arquivo secreto da Mulher Maravilha
Ainda no outro dia assisti o filme da Mulher Maravilha. Impossível não bater aquela saudade da infância. Eu costumava brincar de Mulher Maravilha com a minha irmã mais nova. E saltávamos da janela para o sofá a fim de salvarmos um qualquer personagem imaginário em perigo. E cantávamos a música da série, no nosso inglês inventado, para dar ênfase às ações de salvamento. 

Mas a verdade é que nós conhecemos a Mulher Maravilha verdadeira e toda a sua história.

JP, filho dos meus primos Monique e Cunha, nasceu com espinha bífida - ou mielomeningocele. É dessas coisas que lemos e temos que ir ao google para descobrir o que é. Quando eu conheci JP, ele era um bebê de uns 6 a 8 meses, com as duas perninhas engessadas. Era gorducho e fofinho como todo bebê, mas com pouca esperança de vida, assim diziam os médicos e assim nos foi segredado. Só que o JP é filho da minha prima, mulher nascida na família mágica que é a minha. E ele foi crescendo em meio a zilhões de cirurgias nas pernas, na cabeça e sabe-se mais lá o que, intervaladas com infecções de urina, com curativos e com amor. Muito amor. E a minha prima Monique o carregava ao colo, muito depois desse tempo de bebê, sendo já JP um garoto crescido e pesado, levava-o para um sem fim de tratamentos, de hospitais, de exames, mas também a aulas e a festas. E JP foi crescendo sabendo que era amado e que era especial, porque seus pais nunca esconderam dele os seus superpoderes. Foi mais ou menos nesta época que eu comecei a desconfiar de que ela era a Mulher Maravilha. É mais do que uma semi-deusa. É que o próprio Deus está com ela, todos os dias.

Casou-se com um policial, homem grande e forte, que livra os mortais dos perigos das ruas. Não poderia ser diferente. E, sendo a mulher que é, deu ao JP uma linda irmã bailarina e cor-de-rosa. Assim a família completou-se perfeitamente, como num filme. Vive dia a dia a sua missão e colhe aqui e acolá os louros da vitória. Luta com seus braceletes mágicos e agarra a vida com o laço da verdade.

JP cresceu desafiando a ciência e as previsões da medicina. Fez um ano, dois, três, quatro e muito antes disso já sabíamos que a conversa da vida breve viraria história. Foi pajem no casamento da nossa prima. Eu, que sempre sonhei ser daminha de casamento e nunca fui contemplada, via e revia as fotos da cerimónia, com aquele crescente orgulho de prima. E lá estava JP, de fraque, sentado na sua super cadeira de rodas, sorriso aberto a cada flash. Nunca vi uma foto sequer com JP sério ou triste. Todas elas exibem aquele sorrisão delicioso.

Hoje JP ingressa na Universidade Federal do Rio de Janeiro. É curioso como ele passa os dias a ensinar a todos nós como se deve viver a vida. Agora vai ensinar a mais pessoas que o importante é viver, amar e sorrir, além das informações acadêmicas que acabam por ser importantes para a vida profissional. Heróis são assim. Sabem sempre um bocado mais do que nós e usam seus superpoderes para nos proteger. João Pedro é o herói que nos ensina que tudo se pode superar, que todos temos superpoderes, só precisamos é aprender a usá-los.

Verónica Vidal - a orgulhosa prima da Mulher Maravilha e do seu filho herói.