segunda-feira, 11 de abril de 2022

A Vóternidade aos 101

 

101 anos de vovó Alice

Na minha cabeça, a minha avó Alice já nasceu avó. Sempre foi assim e assim seria para sempre. Só depois de muitos anos, quando eu me tornei avó, percebi que não existe uma palavra que defina essa transição. Para as mães, temos a maternidade, para os pais, a paternidade, mas e para as avós?

A vóternidade, assim, com acento agudo, palavra impossível na nossa língua, é vivida de forma intensa, ainda que sutil, pela minha avó Alice. Ela foi se tornando mais avó à medida que mais netos lhe nasciam, de tal forma que a sua vóternidade é hoje majestosa, imperial. Rio-me às gargalhadas quando atribuem longevidade ímpar à Rainha da Inglaterra, com apenas 95 anos. Minha avó Alice, na simplicidade dos seus 101 anos não alardeia fama, mas é a pessoa que governa a família inteira com um sorriso nos lábios e ao som de um Michel Teló na TV. E, convenhamos, a minha família mágica é muitíssimo mais importante do que toda a Grã Bretanha. Somos mais bonitos, mais simpáticos, mais divertidos e os nossos protocolos reais são seguidos sempre à risca: Há sempre festa. Não importa como ou quando, celebraremos.

Hoje, nos dias em que a vida me corre ao avesso, lembro-me da minha avó, ainda outro dia, a ouvir Roberto Carlos, sorrindo, de frente para a TV e sentada na sua cadeira de rodas. Ela dançava com os braços, e assim dizia-me que é importante que sejamos felizes com o que temos. E todas as minhas preocupações que então pareciam enormes, diminuíram de tamanho até que se desvaneceram totalmente. Vovó sempre ensinou-me sem palavras. E eu sigo o exemplo da minha avó Alice. Porque Deus não permite que uma pessoa complete 101 anos se a sua sabedoria não for superior à de todos. Minha avó Alice sabe das coisas.

Fui construída com as memórias que me ficaram gravadas no coração, feito tatuagem, para nunca mais saírem. De todas as minhas memórias a casa da minha avó lá está, viva, pulsante, barulhenta e cheia de amor. A minha família ganhou um nome, “a casa da minha avó” e ela é mesmo assim, um oásis de amor em meio a um mundo tumultuado. Cada vez mais espalhados pelas terras deste mundo, as sementes da minha avó derramam lágrimas de saudades, gargalhadas de alegria, abraços e beijos, tudo ao mesmo tempo. Oramos fervorosamente a Deus e contamos anedotas menos pudicas quase que na mesma frase. E é a minha avó Alice quem tudo orquestra, como se de longe estivesse, mas está tão imiscuída dentro de cada um de nós que já fica difícil separar quem somos, porque somos todos “a casa da minha avó”: Cada um de nós tem um pedaço dos natais, das festas, dos desempregos, das crises, dos casamentos, dos nascimentos, do tio Tão, do tio Jara e do papai, da Andréia e da tia Tete, da tia Leca e da mamãe, do avô Moacir e da Tide. Somos muitos, mas somos um só.

Feliz aniversário, vó. Confesso que ainda tenho ciúmes de ti, sei que é uma coisa infantil, às vezes queria ser a única neta. Mas no fim das contas sei perfeitamente que todos nós somos tu, vó. Confesso também que era eu que roubava o amendoim do topo dos cajuzinhos, mas isso é outra história. Beijo.


Verónica Vidal

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Somos Tão Bons

 

Somos pessoas tão boas, não somos? 

Mentira. 

Somos seres corruptos. Gostamos de parecer mais importantes do que realmente somos. Porque a nossa mediocridade não nos satisfaz. Mas a nossa preguiça em aprimorarmo-nos, seja lá no que for, é maior. Então mentimos. Ou falseamos a verdade. Induzimos o outro a nos julgar mais poderosos, mais inteligentes, mais estudados. Contraímos empréstimos para pagarmos o carro que nossos rendimentos não nos permitem ter, usamos maquilhagem para parecermos mais jovens, cintas para parecermos mais magros.

E vamos à igreja aos domingos. Sim, porque somos praticamente santos. O pináculo da criação. Ou não vamos à igreja porque a religião é corrupta e alardeamos que somos contra a corrupção. E sonegamos impostos. 

Repassamos posts nas redes sociais, revoltados com a fome na África e com a exploração infantil na China. E usamos as roupas fabricadas pelas pequeninas mãos exploradas pela indústria da moda, que reduzem seus custos à custa do sangue e da fome alheios. E escolhemos a alienação. Não vimos, não sentimos. A crítica serve para o outro e a desculpa serve para nós. 

Dizemos que sim, amamos os animais. Comemo-los porque somos onívoros. É a indústria que os tortura. Mas mantemos o nosso cão acorrentado no quintal, preso dia e noite, no verão e no inverno, por toda a vida. A ele, damos os restos da nossa comida. E tiramos fotos do nosso amigo, e sorrimos e nos sentimos benfeitores, porque este cão foi acolhido por nós, tem um lar. 

Revoltamo-nos quando descobrimos que um amigo nos criticou pelas costas. E criticamos impiedosamente este mesmo amigo, o vizinho, o cliente, o patrão, o empregado. Porque a falha do outro enaltece-nos. Nós não somos maus como os outros. Somos pessoas tão boas.

Verónica Vidal


Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano.
O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano.
Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.
O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!
Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado. (Lucas 18:10-14)




segunda-feira, 17 de maio de 2021

Nasce uma Estrela ou... um Escritor


 Já há cerca de um ano tenho este texto aqui meio escrito mas, por uma questão de elegância, fiquei à espera que primeiro o autor da obra abrisse a apresentação do seu livro. E já lá está, conhecido do grande público, o novo livro do Pedro Guimarães, "Criadores de Estrelas".

Não guardo segredo nenhum que, vez por outra, sou acometida de paixões lancinantes por alguns escritores. Sou mulher eclética e sem preconceitos e, do mesmo jeito que me apaixono por Isabel Allende ou Margaret Atwood, morro de amores por Valter Hugo Mãe, Saramago e Murakami Às vezes tenho até um certo receio de ser acusada de stalker ou qualquer coisa assim. Minha sorte é que muitas vezes o objeto da minha paixão já está morto e bem morto há muitos anos e a única coisa que eu persigo são mesmo livros. Livros não nos processam por perseguição.

Conheci o Pedro Guimarães - é, agora sou assim, tu cá, tu lá com o senhor - na apresentação do seu primeiro livro, "O Diário de um Morto", que me proporcionou grandes momentos de gargalhadas descontroladas e aquela cara estampada de tonta que só um leitor sabe que faz quando está imerso numa obra. Sim, caro amigo aficionado pela literatura: Você também faz uma cara peculiar quando mergulha numa obra assim, descuidadamente, em público. Pois bem, o então autor Pedro acabou por lançar um outro livro, igualmente delicioso e facilmente devorável, o "Crianças, Bichos e outros Patifes".

Ocorre que, a dado momento, escrever caiu-lhe no gosto e o senhor lá decidiu-se por lançar outra obra. Desta feita, não mais na primeira pessoa, mas um livro de mistério, romance e assassinatos, não necessariamente nesta ordem. E lança o "Criadores de Estrelas". Como já havia sido fisgada, li-o, claro. E durante o desenrolar da história, começo a perceber, no avançar das páginas, o nascimento de um escritor. Lembrei-me da personagem da Lady Gaga no filme (mentira, lembrei mesmo foi do Bradley Cooper, mas isso é outra história). Aquele que antes era autor de boas histórias, que contava experiências vividas na pele - dele próprio ou de outrem -, inicia agora a construção de um mundo imaginário, ainda que real. Entretanto, conseguiu manter a doce assinatura que fez com que nos apaixonássemos pela sua escrita. Se nos dois primeiros livros ele declara o amor pelas suas raízes, pela sua mulher e pelo seu neto, neste o Pedro declara o seu amor pela cidade de Coimbra. Os personagens passeiam pelos recantos da cidade e arredores e, de brinde, somos nós também transportados. Sem uma gota de pretensão, mantendo a linguagem simples e a narrativa direta que acabou por se tornar a sua assinatura, Pedro Guimarães deixa, com este livro, de ser um contador de histórias para ser um escritor. Presenteia-nos com uma crônica policial, meio ao estilo Rubem Fonseca, meio a jeito de conversa, que nos agarra às páginas, nos alimenta. Livro bom é aquele que agrada e Criadores de Estrelas agrada, põe-nos um sorriso de satisfação na cara. 

"O que realmente me impressiona é um livro que, quando você acaba de lê-lo, você deseja que o autor que o escreveu fosse um amigo incrível seu e que você pudesse ligar pra ele quando sentisse vontade." - J.D. Salinger (O Apanhador no Campo de Centeio(BR) /Uma Agulha no Palheiro(PT))

Verónica Vidal

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A vida a preto e branco


 Tenho saudades de mim mesma. Saudades de um eu que cá está mas que já não se mostra. Saudades de uma vida que a mim me sorria e eu para ela sorria de volta. Saudades de uma inocência que nunca mais voltará.

O passar do tempo cura feridas mas abre crateras. Aumenta distâncias, desfaz mitos, deixa cicatrizes e molda-nos o sorriso. Geralmente o rouba de nós. Vejo crianças muito felizes, a saltar poças d'água, a brincar nos baloiços. Vejo adolescentes em bando a rir de um tudo e de um nada, a criar uma linguagem única. Vejo jovens casais enamorados, a tocarem-se, a abraçarem-se, a sorrir. Vejo adultos preocupados com as contas da vida. Mudos. Vejo velhos tristes, à espera da morte. Estáticos. E pergunto-me o porquê. Quanto mais o tempo passa, menos sorrisos vemos nos rostos dos que vivem, menos vida vemos nos rostos dos que esperam diligentemente pela morte. A vida se descortina aos poucos e vai se mostrando, nua, seca. As cores, antes tão suaves e doces se vão escurecendo, acinzentando-se, perdendo o brilho. O céu, outrora azul, torna-se plúmbeo. E ainda tentamos, escavamos em busca da alegria da meninice, da inocência do antigamente, num eterno faz-de-conta-que-eu-não-sei, na vã tentativa de uma felicidade mentirosa. Boa. E falsa. 

De tanto escavar, cansamos. E vestimos as nossas vestes cinzentas. E esperamos a morte chegar.

Verónica Vidal

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Pedaços de mim

Vou deixando pedaços de mim pelos caminhos da vida. Mutilo-me a cada mágoa, a cada tristeza, a cada golpe. Meus olhos vêem hoje diferente de como viam dantes. As cores do verão são a cada dia mais cinzentas e é-me difícil sorrir da mesma forma que sorria antes. A neve das terras altas, dantes tão imaculadamente branca, é hoje lamacenta do degelo. As flores dos vasos desapareceram e o verde das folhas amarelaram. 

A lama sempre lá esteve. As folhas ressequidas sempre estiveram misturadas às verdejantes. Mas meus olhos nunca a viram. Eu admirava com prazer o colorido das flores que hoje não mais existem. Sou o resultado de tudo aquilo que permiti que me influenciasse, que me encantasse, que me tocasse o sentimento. E fechava os olhos para o inverno da vida a fim de me convencer de que o sol brilharia sempre, só porque era esse o meu desejo. O choro era de outrém. A dor nunca foi minha. 

Felicidade é um estado de espírito que pede cultivo. E eu a alimentava com alegria, com a vitória do outro, com a boa disposição para o mundo. Adubava a minha felicidade com o sopro do vento, com a esperança de vida. Tentava injetar amor sozinha, como quem se droga, para não ver a falta de amor que rondava à minha volta. Mas a vida é como tempestade: assola-te sem piedade, derruba-te se insistes em ficar de pé. Anula-te, só para mostrar que é assim que deves viver, que é isso o que mereces, o nada. E aceitei. E o véu se descortinou de diante dos meus olhos e vi. Vi a fealdade da vida, os excrementos dos vizinhos, senti o cheiro fétido do ar. Ouvi a maledicência que saía da boca do sacerdote, senti a faca que se enfiava nas minhas tripas pelas mãos dos que eu dizia amar, notei os vergões de chicote nas minhas costas, os grilhões que prendiam os meus pés, numa escravidão torturante e silenciosa. 

Hoje arrasto as minhas correntes pela casa, feito alma penada. Ainda penso em fingir felicidade, mas perdi o jeito, esqueci o texto e desisto. Espero que as semanas passem rápido, que os meses se atropelem que a vida se finde. 

Verónica Vidal





sábado, 11 de abril de 2020

O Amor em Tempos de Covid

10 de Abril de 2020. É Sexta-feira Santa.
A maior parte do mundo está de quarentena, encerrada em casa. A humanidade está enferma.
Muitos choram e lamentam os seus mortos. Outros bravos nascem em meio à pandemia que se instalou. Mas para a minha família há um motivo especial de celebração: É o aniversário da minha avó Alice.

E foi assim que celebramos os 99 anos da minha avó: Cada um da sua casa, tateando uma tecnologia que ainda é nova para muitos mas que nos fez ficar juntos por deliciosos minutos. E lá fomos nós, superando as dificuldades de vídeo, de áudio, juntarmo-nos para cantar os parabéns à avó Alice e revermo-nos um bocadinho. E toda a gente falava ao mesmo tempo, tal e qual a varanda da casa da minha avó. E tantas gerações ali se juntaram, tantas famílias ali reunidas, pura e simplesmente por amor. E minha avó nos via, a todos, e sorria, e demonstrava uma felicidade genuína, simples, de quem está acostumada a ver os anos passarem e as mudanças da vida transformarem tudo, até mesmo as festas de aniversário. E fizemos as fotos mais feias de toda a história dos encontros. Só que mesmo nessa imensa bagunça de rostos misturados e captados numa fealdade hilária e torta, com cabeças cortadas e imagens desfocadas, vê-se uma alegria quase palpável, uma felicidade que grita.

A minha família não tem uma árvore genealógica. É formada por um jardim genealógico, posto que outras árvores entrelaçaram seus ramos na nossa, de tal forma que nos é praticamente impossível definir a origem de todos. Eu tentava explicar à minha filha quem era quem, filho de quem, neto de quem e perdi-me no meio do caminho.

Minha avó atravessa uma estrada pedregosa há 99 anos. Pelo caminho precisou despedir-se de dois maridos, quatro filhos e uma neta. Enfrentou doenças complicadas e cirurgias perigosas. Nunca, nunca deixou-se vencer pelas perdas. E talvez seja por isso que a celebração de cada aniversário dela tenha uma importância agigantada para nós. Muito mais do que um aniversário, celebramos a vida, o amor, a família, as raízes, a aceitação do outro. D. Alice nunca foi mulher de grandes e célebres frases, mas sim de grandes e indeléveis atitudes.  E o bem contagia. Contagiou-nos a todos. Somos uma família do bem, um jardim de amor. A humanidade precisa de mais avós Alice espalhadas por aí. E assim, ela será curada.

Verónica Vidal - tentando levar a vida com a mesma positividade da avó. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Amar desmesuradamente - Crianças Bichos e Outros Patifes

Livro do acervo de Verónica Vidal

Não é segredo para ninguém que eu seja amante de livros. Tenho os meus gostos particulares, mas em geral sou até bastante eclética. Mas é que, como toda a gente que tem as suas manias, eu tenho cá as minhas. Quando apaixono-me por um autor, leio tudo o que brota ou já brotou das suas ideias e assim a minha estante vai se enchendo de nomes. É assim com Valter Hugo Mãe, Haruki Murakami, Margareth Atwood, Saramago, Eça de Queirós, Garcia Marquez, os Kepler, Isabel Allende e por aí vai.

Cada um dos autores me foi apresentado de forma diferente. Uns por livreiros, outros foram presentes de amigos, uns tantos caíram nas minhas mãos ao fuçar na livraria.

Até que eu fui à apresentação de um livro, aqui em Coimbra, autor local. "O Diário de um Morto", de Pedro Guimarães. Apaixonei-me pelo livro. Ou melhor, apaixonei-me mais especificamente pela narrativa, o que conferiria ao escritor um lugar de destaque na minha estante e a certeza de que seu livro seria lido umas duas ou três vezes. Problema: Era o primeiro livro do escritor e eu não teria mais nada dele para ler. Sem remédio, tive então que aguardar o próximo. Quem gosta mesmo da linguagem de um autor e tem prazer em ler, sabe bem do que eu falo. Vamos lendo um livro e outro, e outro, mas temos aquele fisgado, o objeto do nosso desejo, à espera de sair do forno. E, quando sai, vamos cheios de espectativas devorá-lo. E assim foi.

"Crianças, bichos e outros patifes" conta-nos as peripécias de um menino desde o seu nascimento até à maturidade dos seus sete anos, na convivência com o seu avô e restante família, incluindo cães, gatos e caracóis. Mais do que a vida de uma criança, lê-se nas entrelinhas o amor desmesurado de um avô. É um livro escrito como se de um diário se tratasse, como se tivéssemos a cavucar num baú e lêssemos a vida do outro, em condições tão parecidas com as nossas próprias. Impossível não nos identificarmos em várias das situações. Completamente despretencioso, numa linguagem fluida, leve, como uma conversa na varanda, o livro é um refresco para a alma. Faz-nos rir e esquecer que a conta de luz está pela hora da morte, o combustível aumentou e que agora temos que tomar medicação para a tensão alta.

A má notícia: Por enquanto só vende aqui em Portugal. Vocês terão que me vir visitar.

Verónica Vidal - única proprietária do livro da foto, um bocado para o amassado pelas andanças da vida.