sexta-feira, 12 de março de 2010

Uma voltinha de Velotrol

Minha filha me liga e grita: "Mãe, peguei a carteira!!!" Respondi com a resposta previsível, as felicitações esperadas e fiquei sinceramente feliz por ela. Passado o enlevo da sua exclamação, meu estômago resolveu dar sinal de vida e avisou, com aquele friozinho que lhe é peculiar, de que eu estava com medo. Com medo de que? Pensei. Medo dela sofrer um acidente de trânsito? Não, porque isso poderia acontecer sendo ela ou outra pessoa a conduzir. Medo de...e pensei ainda um pouco mais, não querendo mesmo aceitar o motivo, a razão do meu medo. Tive - e tenho - medo porque ela cresceu, porque eu envelheci, porque ainda tenho a foto dela, de fraldas, a andar de velotrol pela sala de casa. O velotrol, com suas enormes rodas vermelhas, ficou para trás. Hoje, ela conduz um carro, vai para o bloco de carnaval com uma latinha de cerveja na mão e eu nem estou lá. Quando foi que a cerveja substitui o guaraná? Quando foi que ela começou a atravessar a rua sem precisar me dar a mão? Quando foi que o jazz no ginásio da escola virou samba no bloco de carnaval? Eu me perdi no tempo, perdi capítulos inteiros das vidas das minhas filhas. E percebo que a novela da vida não para, à espera de que nos habituemos às suas mudanças, à entrada de novos personagens, ao delinear de novos rumos.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

COMO ANTIGAMENTE

Há alguns anos atrás, recebi o telefonema de uma antiga colega de escola, que encontrou meu número na lista telefônica. Ela se dedicava a reunir o pessoal amigo da escola. Nós estudamos juntas da 5ª à 7ª série, e a partir daí reencontrei muitos amigos queridos, já meio esquecidos na memória embotada. Fui a alguns encontros, trocamos alguns e-mails e retomei de leve o contato com este pedacinho da minha adolescência.

Há alguns meses atrás, encontrei num site de relacionamento um antigo colega de escola. Participava da comunidade de ex-alunos desta. Através dele, fui retomando contato com mais uns poucos. Travei uma conversa fantástica via messenger com uma antiga amiga. E falamos de pessoas que eu já nem me lembrava mais, mas que tiveram um papel importante à época. O retrato dos meus colegas de escola, outrora à sépia, hoje brilha a cores vivas. Graças a essa minha amiga. E por isso e por outras coisas, descobri que não deixei de amá-la. Não deixamos de amar nossas amigas queridas, apenas as guardamos na gaveta da nossa memória.

Há alguns dias atrás, uma amiga minha, de outro lugar, de outra época, me reencontra no Skype. Travamos uma verdadeira conversa de comadres, e o tempo e a distância que nos separava já não mais existia. Já falei dela aqui. Sempre a amei.

Viver fora do nosso meio, longe dos nossos amigos, nos faz amá-los mais. Percebemos a falta de cada um deles e notamos que não se substitui um amigo, ainda que possamos fazer novos. A tecnologia trouxe a mim esse bálsamo: O reencontro com amigas queridas, há muito guardadas. Só quem não as tem por perto poderá compreender a falta que elas fazem. Homens travam amizades, mas mulheres são verdadeiramente amigas e confidentes. Amigas, confidenciam sentimentos, que é o mais precioso e mais perecível de todos os bens. E assim, via skype, messenger e afins, continuamos comadres, igualzinho a antigamente.

Verónica

À vocês, minhas amigas queridas, por quem muito tenho declarado afeto mas que nunca me soa redundante repetir.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Jujubas da TV

Outro dia teria sido o aniversário do meu pai, se ele ainda estivesse vivo. Sempre lembro dos aniversários, nunca sei as datas de falecimento. Considero-me uma privilegiada. Tenho memória seletiva e, quanto mais o tempo passa, mais seleta são as coisas que se fixam na minha memória. Lembro pouco ou nada de gente aborrecida, de rusgas e de acontecimentos tristes. Sobra a saudade de uma vida não lá muito bem vivida, mas muito bem imaginada.

Do meu relacionamento com meu pai, pouca coisa guardei, muita coisa fantasiei. Não tive um pai dos filmes e novelas, que levam filhos ao parque a soltam pipas no gramado. Éramos todas meninas, e naquela época era mais difícil encontrar pais que se relacionassem com filhas. E se não era, gosto de pensar que sim, porque assim era para mim. Nada me marcou mais - positivamente - do que uma noite qualquer, dessas em que aos 7 anos a gente levanta da cama diretinho para o banheiro, apertada. Tínhamos uma TV muito grande, em preto e branco, daquelas de válvulas. Meu pai chegava do bar e tirava do bolso da calça 3 pacotes de jujubas, daquelas jujubas grandes e redondas, coloridas, dispostas uma em cima da outra e que formam uma lingüiça. Eram as minhas preferidas! Colocou-as em cima da televisão, ao lado da antena. Eu sabia que só as receberia no dia seguinte, mas a visão daquelas jujubas em cima da TV encheu meu coração de amor pelo meu pai.

Passado algum tempo, esqueci disso. Comecei a pensar que nada me compraria. Hoje vejo que não. Ainda sou comprada por jujubas. Não quero saber de pessoas perfeitas, não quero o politicamente correto, não espero o sucesso em todos. Fico feliz com as jujubas que trouxerem para mim.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Natais Perfeitos


Natais Perfeitos

Acredito que todos temos vários natais dentro de nós. Por algum tempo, especialmente em crianças, vivemos natais coloridos com bolas nas árvores e papel de presente. Noutros tempos, vivemos um natal religioso, com aquela deliciosa sensação de proximidade de Deus, com consciência de Sua misericórdia. Há períodos em que vivemos o natal social, quando doamos dinheiro, brinquedos, comida, agasalhos e o que mais vier, àqueles que não têm condições para obtê-los por meios próprios. E, pensando assim, pensei que o natal é um bocadinho como o nosso corpo. Ele se transforma ao sabor do tempo, dependente ou não da nossa vontade. Crescemos, envelhecemos, engordamos, emagrecemos, nosso cabelo embranquece, cai, mudamos de escola, de casa, de círculo de amigos, de estilo de roupa. Mas, assim como nós seremos sempre nós, o natal será sempre natal.

O meu natal perfeito é na verdade, a mistura de diversos natais que já passei. É o natal dos meus 8 anos de idade, quando meu pai voltou do Japão e trouxe uma mala cheia de presentes. Trouxe um gravador e gravamos a voz de todos na família. Inventamos musiquinhas de natal horrorosas e conseguimos piorá-las cantando-as. Meu avô contava os presentes que havia ganho: “...cueca, cueca, cueca!”. Inesquecível foi o natal dos meus 10 anos, quando ganhei uma bicicleta. O tempo passou, meu corpo cresceu, e meu natal tornou-se em religioso, denso, importante. Mas vivia ainda, nos olhos das minhas filhas, o natal colorido. E neste dia, tiramos uma grande foto de família, que enfeita a sala da minha avó até hoje.

Há alguns dias recebi um pedido de autorização. Era da minha tia, menina, aquela que tem estrelinhas de Carnaval nos olhos e veste pareô. Ela pedia para que o natal fosse em sua casa este ano. Pode? Sempre pode. Mas será sempre o Natal da Casa da minha Avó. Que, assim como nós, também se transforma, muda de casa. Minha lágrima escorre hoje do olho porque eu queria muito estar lá, porque na verdade nunca de lá saí. Queria jogar pique-bandeira na vila, com a minha irmã, minha prima e a minha tia menina. Colocar os chinelos como trave de gol, brincar de Mulher-Maravilha com a minha irmãzinha e laçá-la com o laço da verdade. Queria roubar Chantibon do congelador com ela. Queria ouvir minha mãe chamando para tomar banho, porque nossos “pescoços já faziam um cordão de caraca”.

Neste natal, não terei minha mãe a me conferir as orelhas, nem minha madrinha a me pentear os cabelos, nem minha irmãzinha a pegar na toalha e fazer de capa de super-herói depois do banho, nem minha irmã maior a reclamar porque eu tinha roubado a roupa da Susie dela e colocado na minha, nem a minha avó a me dizer: “dorme aqui, vai embora amanhã”. Mas este será mais um natal. Diferente e igual. Fará parte do cardápio de natais memoráveis. Onde nem todos estarão juntos, mas para onde todos os corações estarão voltados. O meu já lá está. Feliz Natal!

Às minhas filhas, que construam natais ainda mais fabulosos que os meus. 
Verônica Vidal

sábado, 24 de outubro de 2009

Vou pintar minha casa de verde e amarelo

Ai, como a vida é difusa e confusa! Porque se espalha deliciosa e tempestuosamente por todos os lados. Confusa porque ora estamos radiantes e desejosas de cheirar todas as florzinhas do jardim, ora estamos dispostas a morrer ao raiar do dia. Será mesmo assim a vida, ou serei eu, com os meus dois lados  femininos, difusa e confusa? Ando mesmo numa onda de romantismo sem remédio, delicioso romantismo desenfreado que me tomou de assalto desde o dia em que aportei no Cairo. Ora, pois é. Pisei meu doce pé na África, pela primeiríssima vez. patinhei nas águas do mágico rio Nilo respirei a poeira das tumbas dos faraós. Voltei assim: Contaminada de romantismo e grandiosidade. Vi mulheres cobertas de lenços e túnicas, mais sorridentes do que as nossas passistas nuas com tapa-sexos. Ouvi os chamados para as orações desde as 4 da manhã, e não ouvi os gritos surdos dos nossos filhos drogados por cola e crack, que às 4 se vão deitar no banco da praça e nos bueiros das cidades. Voltei enxergando o nosso mal hábito de apontar o dedo para a ferida alheia, sem sequer lavar a nossa própria chaga. Isso me lembra a história do cisco no olho do outro e da trave no olho do um. Mal. Como eu posso condenar o tratamento dado à mulher do meio oriente, porque ela se cobre - ou deve se cobrir - quando eu exponho a minha como carne no açougue? Quem é exatamente explorada, humilhada, vendida? Não venho cá defender burcas, até porque falamos aqui do Egito, e burca não faz parte da roupa tradicional da mulher egípcia, e sim da árabe beduína e outras tantas. Venho sim, condenar a escravidão que nós passamos, pela ditadura da beleza e da nudez. Triste ver que nossas meninas desejam antes de tudo participar do novo concurso de miss que é o Big Brother, para de lá saírem vencedoras de uma página central na PlayBoy. Lamentável perceber como reclamamos que do outro lado do mundo a mulher é tratada como objeto, enquanto deste nosso lado as mulheres fruta imperam gloriosamente peladas pelas páginas e telas, vendendo não sei o que. Somos hipócritas, somos promíscuos.

Lamentavelmente tenho vivido num país tremendamente racista. Todos dizem que não o são, entretanto lidam mal com a raça negra, por eles chamados "os pretos". É coisa tão enraizada por aqui, que eles mal percebem os absurdos que falam. Há poucos dias, falávamos numa mesa de almoço sobre Angola. E um pobre de alma abre a boca para vomitar a seguinte pérola: "É pena que aquilo é explorado pelos pretos. Se fossem os brancos, Angola seria uma potência". Imediatamente atirei: "Portugal foi colonizador de Angola durante quanto tempo? Porque não a tornou uma potência?" Enfim, coisas como estas, tenho cansado de ouvir por aqui. Enoja-me. Ando cansada do ser humano pequeno, do ser humano pouco humano. Já não tenho mais o desejo de mudar o mundo e lutar contra a desigualdade e injustiça. Já tenho vontade de simplesmente sair, deixar o pobre de alma a falar como se superior fosse,  vê-lo ir à banca comprar uma Playboy, ligar para a amante, e dizer, orgulhoso, que uma barragem qualquer em Portugal é a maior do mundo. Vou para casa. Pintá-la de verde e amarelo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

ÀS VEZES ATIRAMOS NA ANDORINHA E ACERTAMOS O SABIÁ

. Já disse que detesto homem snobe? É, acho que sim. Sabe, aquele sujeito metido a mais que todo mundo? Metido não, ele realmente se acha mais do que nós, pobres mortais. Seja porque estudou um mês ou dez anos a mais, seja porque ganha dez ou mil euros a mais ou porque é mais alto ou sei lá porque cargas d’água, um sujeito resolve que é mais e pronto. É claro que, se estou por cá a escrever isso é porque encontrei um dito cujo exactamente assim. É alto, lá pelos seus cinquentinha, baloiça ligeiramente seus fartos cabelos grisalhos quando fala, ciente e consciente de que é bonitão. Gosta de ser chamado de doutor. Noto bem que ele dá aquele meio sorriso e aquela estufada de peito quando uma desavisada amiga diz: “Senhor Doutor”. Eu cá comigo, de início, achava que usavam deste artifício porque simplesmente não se lembravam do nome do moço. Mas não. O Senhor Doutor gosta de ser assim chamado. Seja feita a sua vontade, e economizemos os nossos neurónios a fim de os utilizarmos em coisas mais importantes, como decidir qual será a cor do esmalte a ser usada neste fim-de-semana.

Euzinha, com toda a sinceridade, até que, a princípio, fiquei ligeiramente balançada pelos olhos azuis do sinhô doutô. Sabe como é… nem sempre são os neurónios que falam mais alto, dependendo do tempo da seca, qualquer nuvenzinha mais escura nos parece um temporal. Que atire a primeira pedra a mulher que nunca se encantou por um homem que tivesse um saco vazio no lugar do cérebro. Esse tipo de homem é até necessário, podemos usá-los para testar o nosso poder de sedução, podemos até sair com eles de vez em quando para fazer inveja às amigas. O problema é que essas coisas falam. E daí… puff! Lá se vai todo o encantamento! Eles falam e falam e não falam nada. E se repetem no nada falado. Não satisfeitos com o vazio deixado por suas palavras, falam mais e mais e dizem menos e menos. Provavelmente falam tanto porque amam o som da sua própria voz. Tanto que até mesmo nem percebem a nossa cara de enfado e até o leve ressonar que damos durante as conversas travadas com eles. Conversas essas, é claro, que viram monólogo. Dá um soninho…

Entretanto… como a vida não é feita só de senhores doutores e eu sou mais adepta a um estilo estivador do cais, não é que, durante uma das minhas cochiladas - tiradas durante as desinteressantes conversas com meu ex-encanto – eu me deparo com um vislumbre de cabeça masculina pensante? É facto certo que, uma vez que dantes a minha nova vítima só pensava e nada falava, eu só consegui perceber que este monumento existia depois de já estar enfadada do sinhozinho, cuja falta de assunto me havia tirado quase toda a paciência.

Agora, meninas, retomo meu fôlego e vou à luta, já que esse bad boy tem cara de mau, mas me olha melhor, me cheira melhor, me ouve melhor e, bem, vamos ver até onde vai essa história.


Penélope

domingo, 13 de setembro de 2009

Penélope Borralheira

cinderelanaescada.gifDia dos namorados e cá estou eu, somente com um dos sapatinhos de cristal calçado no pé esquerdo. A Cinderela aqui ainda espera o príncipe descobrir que, debaixo dessa fuligem há uma princesinha lindinha que viverá feliz para sempre com ele. 


Pois é, mas acho que minha história está mais para Chapeuzinho Vermelho do que para Cinderela. O problema é que nem lobo para comer a Chapeuzinho tem. Quer dizer, ter até tem, mas é cada lobo mal parado que nem daria para comer a vovozinha, que dirá a Chapeuzinho aqui.

E ainda há quem diga que eu não tenho do que reclamar. Minha caixa postal vive cheia. E lá vou eu, sempre ansiosa para abri-la quando me deparo com aqueles famigerados e-mails do vizinho casadíssimo, barrigudíssimo e obviamente horroroso enviando páginas de todos os sites romanticamente melosos que vêm ao som do pior de Roberto Carlos. É sempre aquela frase maldita que causa arrepios: “Fulaninho viu este site e resolveu mandar para você” ou: “Fulaninho deseja enviar-lhe flores” e lá vem a página de rosas vermelhas que leva 15 min para sair do computador. Isso quando o maldito não manda os repasses de arquivos em power point que travam o troço. Ele deve mesmo me odiar. Eu deveria ter dado logo para ele só para que ele me deixasse em paz. Fico me perguntando: "Porque, mas porque, tem sempre um infeliz deste na minha cola e os bonitões e gostosões nem aparecem? O que eu fiz de errado para merecer isso?"

Pensando bem, é melhor nem perguntar pois vai que a resposta vem e eu recebo pela
cara todas as coisas estúpidas que já fiz em matéria de caçar o sexo oposto.


 É, fazer o quê? Vou comprar um pote de sorvete e alugar um DVD. Vou beijar o primeiro cara que aparecer. Não. Vai que é o famigerado vizinho? Já sei: Vou beijar o primeiro bonitão que aparecer. Vou dar logo para ele antes que ele se recupere do susto. Vou seqüestrá-lo e abusar sexualmente dele. Não, vai que o sujeito dá queixa e isso dá cadeia. Eu ia viver o resto da vida cercada de mulheres. Ai, socorro! Acho que estou desesperada.


Penélope - mulher solteira procura (ou implora, o que der mais resultado.