sábado, 14 de setembro de 2013

Meia-idade em crise

 
E quando a dúvida bate à porta, a insegurança esbraveja e não há quem nos ouça, empurrando-nos para um lago mudo de tristeza? Seriam estes alguns dos sintomas da crise existencial que nos assola na meia idade?
 
Seria esta sensação de impotência diante de um futuro que antes vislumbrávamos sereno, como prémio por uma dura vida de plantio, mas que se apresenta ácido e estreito devido à pilhagem que o sistema impiedosamente tem feito aos nossos celeiros, o sentimento de desesperança que nos tornará seniores?
 
Talvez a tal crise da meia-idade ataque mais comumente a homens que a mulheres. Nossos meninos passam então a se sentir emasculados, uma vez que o governo é o primeiro a lhes capar a virilidade financeira enquanto nós exibimos a nossa independência conquistada à custa de queima de sutiãs. Quando é que o fosso entre as Amélias e as Pagus da vida será eliminado? Ainda teremos por quanto tempo guerras sexistas veladas dentro de casa, que fazem com que releguemos os nossos companheiros à categoria de competidores inimigos e eles nos enxerguem como usurpadoras da sua preciosa masculinidade?
 
Ganhamos hoje companheiros - maridos, namorados, amantes - que tendem a lutar contra um sem fim de cobranças, numa idade que já deveriam supostamente ter encontrado o equilíbrio financeiro e emocional. Às portas de mudarem de categoria no escalão da vida, quando deixarão então de serem adultos produtivos para se tornarem velhos ociosos, o medo lhes invade a alma, pois percebem que tudo o que haviam sonhado, planejado e construído desfaz-se como um castelo de cartas. E é nessa hora que o nosso título de companheira deveria lhes valer. Mas não. Enterramo-nos nas nossas conversas fiadas de filhos e netos e cores de vernizes e lipgloss, orgulhamo-nos em pagar o batom com o nosso próprio salário e chamamos a isso independência. Mas ainda assim, queremos que ele nos pague a conta do restaurante. Mais um paradigma social.
 
E nos surpreendemos quando cada vez mais aumenta o número de amigos, conhecidos e celebridades que decidem jogar tudo para o alto à beira dos quarenta, cinquenta anos. Largam trabalhos estáveis,  longos e insossos casamentos pelo simples resgate da juventude, da esperança, como última chance de fazer o novo de novo, numa tentativa de valorização pessoal.
 
"E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele." Gen. 2:18
Se não somos ajudadoras, negamos a nossa origem, o nosso propósito.
 
Verónica Vidal
 
 

sábado, 31 de agosto de 2013

A menina e o cookie

A menina brincava de bonecas de papel, casinha e Barbies. Vivia no seu mundo cor-de-rosa de menina. Todos os domingos, vestia o seu melhor vestido e tocava piano para encantar as visitas, que muito se admiravam do bom comportamento da menina. Não dizia asneiras e na escola suas notas eram azuis como o mais limpo céu.
 
Um dia, a menina foi à cozinha e viu um cookie.
 
Era um cookie num jarro de vidro transparente. Um daqueles cookies cheios de pepitas de chocolate. O jarro de vidro estava fechado, em cima de uma prateleira muito alta, impossível da criança alcançar.
 
Mas a menina passou a ir à cozinha mais vezes, por gosto até. Sabia ser o cookie um biscoito, nunca tinha comido um, mas aquele não era um biscoito como as bolachas de leite lisinhas que lhe davam para o lanche. Era diferente. As imperfeições da sua superfície o tornavam tão fascinante que ela já não podia mais parar de pensar nele. Sabia perfeitamente que o cookie não era para ela. Cookies são para adultos, não para meninas pequenas. As pepitas de chocolate sujariam seu lindo vestido. Ela sabia disso. Ainda assim, começou a pensar em formas de chegar à prateleira. Uma escada, talvez. Não, poderia cair e quebrar a perna.  E como abrir o vidro?
 
Ser uma menina bem comportada e que toca piano é muito difícil.

Verónica Vidal

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Liberdade na Mordaça


E porque esta minha língua enrolada, que misturou-se a línguas estrangeiras e  perdeu-se no sentido e na loucura e castigada foi de tanto falar o que lhe ia na alma mas que socialmente não era aceite dizer, insiste em tentar buscar sons onde não existe eco. Porque já adormecida estava, e entorpecida e largada, fui então sacudida e despertada, arrancada do lodaçal da minha mesmice, do doce conforto da minha gaiola, para o rasgar do desejo incontido, do proibido gritante, sem palavras para gritar. Porque  tinha que haver música, tinha que haver dança, tinha que haver poesia, tinha que haver risos, tinha que haver paixão. Era imperioso fazer-me perder o fôlego, fazer arder-me estômago, tremer as pernas, na vontade surda da fusão, o unir de bocas, o juntar de corpos, o lamber suores, mas como é quente aqui! E o meu coração mostruoso, adestrado para calar, nasceu de retalhos picados, como um Frankenstein de Mary Shelley, parte dócil e castrado e a outra furiosamente egoísta.


Verónica Vidal - ser boazinha todos os dias é muito chato. Quer dizer, deve ser. Eu nunca fui. Nem um dia.








segunda-feira, 15 de julho de 2013

Hombres enamorados - No creo, pero que los hay, los hay!

E neste último sábado, dia 13 fui a uma sessão de autógrafos do livro de poesias "Templo do Fogo Insaciável", de António Vilhena.
 
Uma conversa leve e descontraída com o autor, que correu na loja de uma amiga, a livraria Celas, e foi esta a primeira vez que fui a um evento literário aqui em Coimbra. Muito diferente das grandes festas normalmente patrocinadas pelas Saraiva da vida lá no Rio, ou dos lançamentos nas bienais do livro, este cabia na sala da nossa casa. E isso criava um clima de intimidade que seria impossível se ali estivessem apinhadas trezentas pessoas. De brinde ganhávamos a leitura de algumas das poesias do livro, lidas ali pelo próprio criador. A leitura de um poema, quando provém diretamente da boca do autor, tem um outro perfume. Vem com a entonação que ele quis dar ao seu texto, com uma veracidade e um calor que ele mesmo quis imprimir à obra. Nem sempre nós conseguimos o mesmo efeito quando a lemos em casa. O fato é que eu não estava preparada para uma poesia que me roubasse o coração. Já conhecia o autor de uma outra obra, também de poesias, que me havia sido ofertada. Mas este livro é diferente do anterior. Ardente, inquietante, de uma poesia arrebatadora que nos rouba a alma. E de todo eu não esperava aquele momento perturbador. Menos ainda que um homem desnudasse ali os meus próprios sentimentos como se deles fossem. Faltou-me a roupa, senti-me nua, faltou-me o fôlego, vi-me muda.

Intriga-me saber que homens possam sofrer de carências afetivas, sentimentos tão tipicamente femininos. Talvez a minha quase total ignorância sobre o universo masculino tenha me tornado numa crítica ferrenha do chamado sexo forte. Cresci rodeada de mulheres. Mãe, irmãs, filhas, amigas, amigas das irmãs, amigas das filhas. Enfim, muito laçarote cor-de-rosa pela minha casa. Ouvir de um homem que o que ele precisa é de um abraço é desconcertante, posto que é raro. A maioria quer mesmo é pegar no teu peito. Talvez este tenha descoberto que o caminho mais sexy seja, na realidade, o do abraço, o do entrelaçar de mãos. Talvez uma mulher já lhe  tenha segredado e ele, finalmente, a tenha escutado. Ou talvez, só talvez, haja mesmo homens cujo carinho não seja apenas ingrediente para a conquista, mas tempero para a vida.

E assim nós, homens ou mulheres, seres concebidos com a necessidade incontrolável da paixão, pessoas que não se contentam com o beijo de ontem ou o abraço da semana passada, antes carecem do seu quinhão diário de toque, do eu te amo fora de horas, somos meio assim, feito cãezinhos abandonados. Apaixonamo-nos por quem nos dê migalhas de carinho, por quem nos estenda a mão.  Ainda que por breves momentos, que por poucas semanas, apaixonamo-nos. Pelo professor de matemática, pelo carteiro, pelo escritor que até já morreu, pelo colega de classe, pelo namorado, pelo marido. Porque o que amamos, sempre, é o amor.

Verónica Vidal  -“Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay” -  a Miguel de Cervantes Saavedra  é imputada a autoria da frase, que caiu no dito popular espanhol.

domingo, 14 de julho de 2013

Há noites quase perfeitas - é verão

E o verão que tanto demorava para aparecer chegou de sopetão. Apareceu tórrido, lancinante, a nos encher de calores, feito o António Banderas no filme... ah, todos! O verão daqui é um bafo quente e seco, diferente do Rio 40 graus a que eu estava acostumada onde, apesar dos famosos 40 graus - às vezes mais - quase sempre tem aquela brisazinha e invariavelmente é húmido, de forma a nos fazer transpirar feito torneiras rotas e assim regulando um bocadinho a temperatura corporal.

Tudo acontece no verão. Os festivais de música, as festas, as feiras populares e, é claro, as férias. Tenho a impressão de que as pessoas andavam enfiadas numa gaiola por 9 meses inteiros e no verão são soltas pelas ruas, desesperadas, sem saber o que aproveitar primeiro. E então vem a época da praia, as revistas que prometem a dieta detox-enxuga-últimos-quilos, e o arrependimento de ter passado todo o inverno agarrada a presuntos e salsichas, queijos e vinhos, leitão e pastéis de nata. Lá vai a mulherada para os centros de estética a fim de eliminarem as celulites e pneus que saltam pelo biquini. Os atletas de verão acotovelam-se nos parques e beiras das pistas, todos em prol da saúde e boa forma cuja determinação mais uma vez, só há de durar 3 meses.
 
As paixões de verão também nos parecem mais interessantes. Vamos combinar que sexo debaixo de dois cobertores e um edredom não é a mesma coisa que pular pelado em cima da cama. Ah, é claro, tem sempre o inconveniente dos mosquitos, do suor naquela noite excessivamente quente, já que nunca estamos preparados para o calorão, apesar dele chegar todos os anos, igualmente ardente feito malagueta em acarajé. Colecionamos cobertores e aquecedores, mas nunca temos um ventiladorzinho chinfrim encostado para os dias de calor. E basta o sol derreter nossos corpos debaixo dos telheiros da cidade, a correria desvairada às lojas para comprar ventiladores, ar-condicionado e afins, faz lembrar dia de Cosme e Damião no Rio. É, eu também comprei um. Era o penúltimo. Tive sorte.

Nem tudo é bom, nem tudo é ruim no verão das bandas do lado de cá. Para quem espera pelas férias, o calor escaldante até faz jeito, já que tenta-se a todo custo um bronzeado a jato nas leitosas peles que andaram cobertas por meses a fio. Para quem amarga o labor debaixo de suor, sem samba ou cerveja, só resta é reclamar do calor, coisa que o povo sabe fazer sempre bem.

Para mim, deliciosas são as longas tardes, as doces noites, onde se pode passear sem os pesados casacos. Apreciar a lua, ou a noite sem lua, passear à beira mar. Estes são os meus programas de verão. Há quem ame o sol. Eu prefiro a lua.

Verónica Vidal

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Desvire o Santo Antônio, que ele já não casa ninguém!

Quero um pedido de casamento inesquecível, que seja televisionado, que exploda na internet e tenha milhões de likes. Quero uma festa de casamento memorável, com vestido de princesa, dia da noiva e chegada em carruagem à igreja ornada de flores. Quero uma lua-de-mel em Paris, com fotos de beijos na Torre Eiffel e passeios pelo Sena. Hei de casar na primavera européia, quando as flores embelezam as cidades e todo o cenário esteja perfeito. Voltaremos para casa e seremos felizes para sempre. 

E pareceu-me que a felicidade ficou resumida a um único parágrafo, já que o árduo trabalho será a construção da vida a dois, que só se dará depois da festa. É o tijolo a tijolo, o bom dia querida/o, o real interesse no bem estar do outro é que fará fluir felicidade. Paris sem amor, será sempre somente uma cidade. É mais fácil conquistar um novo amor do que recuperar o que está perdido dentro da sua própria casa. O novo amor é sempre surpresa, não conhece seus defeitos, você não conhece os dele. Ele ainda não te decepcionou, você ainda não o magoou. Talvez por esse motivo, tantos casais se separem. Porque antes de tudo, perderam-se dentro de casa. Porque deixaram de andar de mãos dadas, deixaram de fazer carinho no rosto, massagens nos pés, deixaram de se elogiar, e, quando o fazem, é de forma mecânica e cheira a obrigação. Fazem sexo. Bem menos vezes e com menos animação. E, quando o fazem, é de forma mecânica e cheira a obrigação. Saem juntos, jantam juntos. Mas são apenas duas pessoas separadas, dispostas no mesmo espaço. Casamento sem namoro está fadado ao insucesso. Se você tem preguiça de namorar, não case. Nem ao menos vire o Santo Antônio de cabeça para baixo, siga meu conselho e mantenha sua solteirice intacta. Ou colecione divórcios. Ou infelicidade. Ou chifres. Ou um conjunto disso tudo, num cofret desastradamente embalado.

É verdade Santo António
Que pr'ocê fazer casar
É preciso que te deixem
Sempre de pernas pro ar?

Então eu vou te virar
E um pedido vou fazer
E só te deixo de pé
Depois que você me atender

...
Li essas quadras há muitos anos, num livro que havia lá por casa, parte integrante de uma enciclopédia que usávamos para fazer trabalhos de escola na primária. Nunca esqueci do poeminha, que tem mais duas estrofes. E, com o tempo, misturado às histórias de Cinderela que são contadas às meninas, notava que tudo acabava com o "achar um marido", como se esse fosse o objetivo de vida de todas nós, e a felicidade plena estaria aí. Mas eu não via felicidade plena na vida da minha mãe. Eu queria a felicidade plena dos filmes, dos livros, das histórias. Não aceito menos.

Eu não tive um pedido de casamento inesquecível, nem uma festa memorável. Não tenho ao menos uma foto do meu casamento e eu não era uma noiva especial. Era inverno e fazia frio. Não houve lua-de-mel em Paris. Tudo isso, ainda que lindo, é dispensável. O que não posso prescindir é de um casamento sem namoro.

"Se você quer ser meu namorado, ai que lindo namorado, você poderia ser. Se quiser ser somente meu, exatamente essa coisinha, essa coisa toda minha, que ninguém mais pode ter. Você tem que me fazer um juramento, de só ter um pensamento, ser só meu até morrer" (Vinicius de Moraes - adaptado)

terça-feira, 16 de abril de 2013

Coimbra Tem Mais Encanto em Vários Cantos

Rio Mondego e Parque Verde ao fundo - Coimbra
Hoje acordei com o canto dos passarinhos. De imediato lembrei-me da cena em que Branca de Neve canta com os bichinhos, no desenho de Walt Disney. Logo que o sono me saiu do olho, percebi que a primavera timidamente começava a se instalar, apesar das garras do inverno ainda estarem bem fincadas por aqui, com toda a sua pluviosidade cinzenta como o chumbo. Aqui e acolá já se notam flores a desabrocharem lentamente, arrancando mais sorrisos das pessoas, que também vão se abrindo junto com o tempo. As orquídeas da varanda abriram, as azaléas que já no ano passado pensei terem sido devoradas pelas formigas, ressuscitaram. A primavera por aqui é assim: faz-se notar, todos os dias, botão a botão.

Quando eu morava no Rio, fazia um lindo percurso de casa para o trabalho. Era um trajeto de cartão postal, absolutamente inesquecível. Cruzava a Ponte Rio-Niterói diariamente, com a linda vista da Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, por uns bons 30 minutos em trânsito livre. Aquela vista era incansavelmente elogiada, por mim e por todos, com exceção dos mal humorados que são incapazes de se deleitar com uma vista bonita, ainda que seja a do Rio de Janeiro. Por alguns minutos, tudo fica perfeito, porque o céu se encontra com o mar, porque as nuvens são brancas e porque a topografia é um desenho de Deus, e Ele nos ama, para nos permitir viver ali, e apreciar aquela maravilha. Depois, voltamos a pensar nas nossas vidas e nos nossos problemas e nas contas para pagar, mas aqueles preciosos minutos de relaxamento fornecidos pela linda vista são uma bênção sem tamanho, são a recarga de energia necessárias para continuarmos com o fardo que algumas vezes é a vida. Eu preciso de um lugar bonito.Preciso desta energia visual para começar o meu dia, ou para terminá-lo. Competir com a vista do Rio de Janeiro seria difícil, muito difícil.

Logo que vim morar por aqui, debati-me como peixe fora d'água, agarrado pelo anzol. Somente via que perdera o mar, que não mais nadava no lindo oceano azul. Custei muito a perceber as belezas da nova terra, pois andava ocupada demais lamentando a falta que me fazia o calor e a música, a praticidade e toda uma facilidade de convívio que eu havia deixado para trás. Achava interessante uma e outra novidade, animais da fazendinha que antes só poderia ver no espaço "Bichos da Fazenda" dentro do Zoológico, atrás de uma grade, como pertencentes a uma realidade muito distante, agora podiam comer da minha mão e moravam no meu quintal. Ainda assim faltava a bela paisagem. Eu morria pelo visual carioca, pelo trajeto bonito de casa para o trabalho. Até que Caetano Veloso me disse, dentro do carro, às 8:30 da manhã: "...porque Narciso acha feio o que não é espelho...". E eu abri os olhos para apreciar a fileira de plátanos que se estendem pela estrada Nacional 111, desde a rotunda da Cidreira até chegar a Coimbra. Árvores ligeiramente inclinadas, que cresceram beijadas pelo vento, ordenadamente dispostas e que refletem as diferentes estações do ano com toda a magia. Até ontem estavam nuas do inverno. Hoje, já se vestem de folhas e uma ou outra flor vai colorindo o caminho. Chego ao trabalho e tenho o Parque Verde debruçado sobre mim, como que a convidar-me ao passeio à hora do almoço. Patinhos a pedirem migalhas de pão enquanto encantam meus olhos em seus tranquilos desfiles pelo rio Mondego. E eu, guardo a minha saudade no bolso e agradeço a Deus, porque Ele me ama, por me permitir viver aqui, e apreciar esta maravilha. Hoje volto para casa ouvindo uma música de Rui Veloso.


Verónica Vidal - ainda se encanta quando precisa parar na estrada para deixar passar um rebanho de ovelhas.