domingo, 14 de julho de 2013

Há noites quase perfeitas - é verão

E o verão que tanto demorava para aparecer chegou de sopetão. Apareceu tórrido, lancinante, a nos encher de calores, feito o António Banderas no filme... ah, todos! O verão daqui é um bafo quente e seco, diferente do Rio 40 graus a que eu estava acostumada onde, apesar dos famosos 40 graus - às vezes mais - quase sempre tem aquela brisazinha e invariavelmente é húmido, de forma a nos fazer transpirar feito torneiras rotas e assim regulando um bocadinho a temperatura corporal.

Tudo acontece no verão. Os festivais de música, as festas, as feiras populares e, é claro, as férias. Tenho a impressão de que as pessoas andavam enfiadas numa gaiola por 9 meses inteiros e no verão são soltas pelas ruas, desesperadas, sem saber o que aproveitar primeiro. E então vem a época da praia, as revistas que prometem a dieta detox-enxuga-últimos-quilos, e o arrependimento de ter passado todo o inverno agarrada a presuntos e salsichas, queijos e vinhos, leitão e pastéis de nata. Lá vai a mulherada para os centros de estética a fim de eliminarem as celulites e pneus que saltam pelo biquini. Os atletas de verão acotovelam-se nos parques e beiras das pistas, todos em prol da saúde e boa forma cuja determinação mais uma vez, só há de durar 3 meses.
 
As paixões de verão também nos parecem mais interessantes. Vamos combinar que sexo debaixo de dois cobertores e um edredom não é a mesma coisa que pular pelado em cima da cama. Ah, é claro, tem sempre o inconveniente dos mosquitos, do suor naquela noite excessivamente quente, já que nunca estamos preparados para o calorão, apesar dele chegar todos os anos, igualmente ardente feito malagueta em acarajé. Colecionamos cobertores e aquecedores, mas nunca temos um ventiladorzinho chinfrim encostado para os dias de calor. E basta o sol derreter nossos corpos debaixo dos telheiros da cidade, a correria desvairada às lojas para comprar ventiladores, ar-condicionado e afins, faz lembrar dia de Cosme e Damião no Rio. É, eu também comprei um. Era o penúltimo. Tive sorte.

Nem tudo é bom, nem tudo é ruim no verão das bandas do lado de cá. Para quem espera pelas férias, o calor escaldante até faz jeito, já que tenta-se a todo custo um bronzeado a jato nas leitosas peles que andaram cobertas por meses a fio. Para quem amarga o labor debaixo de suor, sem samba ou cerveja, só resta é reclamar do calor, coisa que o povo sabe fazer sempre bem.

Para mim, deliciosas são as longas tardes, as doces noites, onde se pode passear sem os pesados casacos. Apreciar a lua, ou a noite sem lua, passear à beira mar. Estes são os meus programas de verão. Há quem ame o sol. Eu prefiro a lua.

Verónica Vidal

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Desvire o Santo Antônio, que ele já não casa ninguém!

Quero um pedido de casamento inesquecível, que seja televisionado, que exploda na internet e tenha milhões de likes. Quero uma festa de casamento memorável, com vestido de princesa, dia da noiva e chegada em carruagem à igreja ornada de flores. Quero uma lua-de-mel em Paris, com fotos de beijos na Torre Eiffel e passeios pelo Sena. Hei de casar na primavera européia, quando as flores embelezam as cidades e todo o cenário esteja perfeito. Voltaremos para casa e seremos felizes para sempre. 

E pareceu-me que a felicidade ficou resumida a um único parágrafo, já que o árduo trabalho será a construção da vida a dois, que só se dará depois da festa. É o tijolo a tijolo, o bom dia querida/o, o real interesse no bem estar do outro é que fará fluir felicidade. Paris sem amor, será sempre somente uma cidade. É mais fácil conquistar um novo amor do que recuperar o que está perdido dentro da sua própria casa. O novo amor é sempre surpresa, não conhece seus defeitos, você não conhece os dele. Ele ainda não te decepcionou, você ainda não o magoou. Talvez por esse motivo, tantos casais se separem. Porque antes de tudo, perderam-se dentro de casa. Porque deixaram de andar de mãos dadas, deixaram de fazer carinho no rosto, massagens nos pés, deixaram de se elogiar, e, quando o fazem, é de forma mecânica e cheira a obrigação. Fazem sexo. Bem menos vezes e com menos animação. E, quando o fazem, é de forma mecânica e cheira a obrigação. Saem juntos, jantam juntos. Mas são apenas duas pessoas separadas, dispostas no mesmo espaço. Casamento sem namoro está fadado ao insucesso. Se você tem preguiça de namorar, não case. Nem ao menos vire o Santo Antônio de cabeça para baixo, siga meu conselho e mantenha sua solteirice intacta. Ou colecione divórcios. Ou infelicidade. Ou chifres. Ou um conjunto disso tudo, num cofret desastradamente embalado.

É verdade Santo António
Que pr'ocê fazer casar
É preciso que te deixem
Sempre de pernas pro ar?

Então eu vou te virar
E um pedido vou fazer
E só te deixo de pé
Depois que você me atender

...
Li essas quadras há muitos anos, num livro que havia lá por casa, parte integrante de uma enciclopédia que usávamos para fazer trabalhos de escola na primária. Nunca esqueci do poeminha, que tem mais duas estrofes. E, com o tempo, misturado às histórias de Cinderela que são contadas às meninas, notava que tudo acabava com o "achar um marido", como se esse fosse o objetivo de vida de todas nós, e a felicidade plena estaria aí. Mas eu não via felicidade plena na vida da minha mãe. Eu queria a felicidade plena dos filmes, dos livros, das histórias. Não aceito menos.

Eu não tive um pedido de casamento inesquecível, nem uma festa memorável. Não tenho ao menos uma foto do meu casamento e eu não era uma noiva especial. Era inverno e fazia frio. Não houve lua-de-mel em Paris. Tudo isso, ainda que lindo, é dispensável. O que não posso prescindir é de um casamento sem namoro.

"Se você quer ser meu namorado, ai que lindo namorado, você poderia ser. Se quiser ser somente meu, exatamente essa coisinha, essa coisa toda minha, que ninguém mais pode ter. Você tem que me fazer um juramento, de só ter um pensamento, ser só meu até morrer" (Vinicius de Moraes - adaptado)

terça-feira, 16 de abril de 2013

Coimbra Tem Mais Encanto em Vários Cantos

Rio Mondego e Parque Verde ao fundo - Coimbra
Hoje acordei com o canto dos passarinhos. De imediato lembrei-me da cena em que Branca de Neve canta com os bichinhos, no desenho de Walt Disney. Logo que o sono me saiu do olho, percebi que a primavera timidamente começava a se instalar, apesar das garras do inverno ainda estarem bem fincadas por aqui, com toda a sua pluviosidade cinzenta como o chumbo. Aqui e acolá já se notam flores a desabrocharem lentamente, arrancando mais sorrisos das pessoas, que também vão se abrindo junto com o tempo. As orquídeas da varanda abriram, as azaléas que já no ano passado pensei terem sido devoradas pelas formigas, ressuscitaram. A primavera por aqui é assim: faz-se notar, todos os dias, botão a botão.

Quando eu morava no Rio, fazia um lindo percurso de casa para o trabalho. Era um trajeto de cartão postal, absolutamente inesquecível. Cruzava a Ponte Rio-Niterói diariamente, com a linda vista da Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar, por uns bons 30 minutos em trânsito livre. Aquela vista era incansavelmente elogiada, por mim e por todos, com exceção dos mal humorados que são incapazes de se deleitar com uma vista bonita, ainda que seja a do Rio de Janeiro. Por alguns minutos, tudo fica perfeito, porque o céu se encontra com o mar, porque as nuvens são brancas e porque a topografia é um desenho de Deus, e Ele nos ama, para nos permitir viver ali, e apreciar aquela maravilha. Depois, voltamos a pensar nas nossas vidas e nos nossos problemas e nas contas para pagar, mas aqueles preciosos minutos de relaxamento fornecidos pela linda vista são uma bênção sem tamanho, são a recarga de energia necessárias para continuarmos com o fardo que algumas vezes é a vida. Eu preciso de um lugar bonito.Preciso desta energia visual para começar o meu dia, ou para terminá-lo. Competir com a vista do Rio de Janeiro seria difícil, muito difícil.

Logo que vim morar por aqui, debati-me como peixe fora d'água, agarrado pelo anzol. Somente via que perdera o mar, que não mais nadava no lindo oceano azul. Custei muito a perceber as belezas da nova terra, pois andava ocupada demais lamentando a falta que me fazia o calor e a música, a praticidade e toda uma facilidade de convívio que eu havia deixado para trás. Achava interessante uma e outra novidade, animais da fazendinha que antes só poderia ver no espaço "Bichos da Fazenda" dentro do Zoológico, atrás de uma grade, como pertencentes a uma realidade muito distante, agora podiam comer da minha mão e moravam no meu quintal. Ainda assim faltava a bela paisagem. Eu morria pelo visual carioca, pelo trajeto bonito de casa para o trabalho. Até que Caetano Veloso me disse, dentro do carro, às 8:30 da manhã: "...porque Narciso acha feio o que não é espelho...". E eu abri os olhos para apreciar a fileira de plátanos que se estendem pela estrada Nacional 111, desde a rotunda da Cidreira até chegar a Coimbra. Árvores ligeiramente inclinadas, que cresceram beijadas pelo vento, ordenadamente dispostas e que refletem as diferentes estações do ano com toda a magia. Até ontem estavam nuas do inverno. Hoje, já se vestem de folhas e uma ou outra flor vai colorindo o caminho. Chego ao trabalho e tenho o Parque Verde debruçado sobre mim, como que a convidar-me ao passeio à hora do almoço. Patinhos a pedirem migalhas de pão enquanto encantam meus olhos em seus tranquilos desfiles pelo rio Mondego. E eu, guardo a minha saudade no bolso e agradeço a Deus, porque Ele me ama, por me permitir viver aqui, e apreciar esta maravilha. Hoje volto para casa ouvindo uma música de Rui Veloso.


Verónica Vidal - ainda se encanta quando precisa parar na estrada para deixar passar um rebanho de ovelhas. 


quarta-feira, 20 de março de 2013

Pés que Correm - Ultrapassando Limites

Minha brilhante conclusão é a de que a enorme façanha da vida muitas vezes não vai além do sair dos lençóis. Inúmeros dias meu desejo solene é estar enroscada feito um caracol, até que a velhice me leve e que o pó me consuma. Passo a semana toda esperando ardentemente pela sexta-feira, simplesmente para que chegue o sábado e eu não saiba o que fazer com ele. Às vezes para não fazer nada. Falta-me propósito. Falta-me o tesão. 

Pela primeira vez, meu marido e mais um casal de amigos correram uma maratona inteirinha. São 42,195 km. É muito chão. E você até pode dizer: E daí? Muita gente corre maratonas. Talvez você conheça alguns, talvez você corra. Eu não corro nem daqui à esquina, na verdade não me dá prazer algum em correr, o que não me impede de admirar a determinação de quem o faça. Muito além da admiração, faz-me pensar na vida e nos seus propósitos.

Por que afinal, corriam eles, se não era por medalhas, por fama ou por dinheiro? Por que afinal, correm aqueles mais de 7 mil anônimos que lá estavam inscritos na famosa maratona de Sevilla? Para superar suas próprias marcas, para testar seus limites, respondia uma vozinha lá no fundo.

E por ter essa mania de pensar, segui pensando. Pensei que todos nós temos limites que precisamos superar. Sejam os ponteiros da balanca que têm que descer um bocadinho, seja aquele curso que queríamos ter feito há uns 20 anos atrás e nunca fizemos, seja a carta de condução que nunca tiramos, ou que tiramos, engavetamos, mas não conduzimos. Todos nós temos limites a superar, sejam eles da enormidade de maratonas, sejam minúsculos como uma caminhada à esquina, todos são, para nós, grandes façanhas. Toda grande façanha começará com um passo. De cada vez. Todos os dias, uns poucos passos de cada vez. Algum investimento, alguma renúncia, um bocadão de esforço e plum! A felicidade do limite ultrapassado é indescritível. 

Sair da concha, afastar os lençóis para o lado, catar o tesão que caiu no chão, lavar a cara e falar tem sido minha maratona diária. Ir trabalhar é só o meu escudo. Meu marido é a minha inspiração. Porque, se hoje, ele vai dar uma corridinha, eu vou ler mais um bocadinho, e em voz alta, muitas palavras com R e com L, porque o rato não raro rói as palavras que queríamos falar e de tanto não falarmos, elas nos ficam enterradas no peito e na garganta, e nos morrem na cabeça, empurrando-nos de volta à concha e aos lençóis.

Verónica Vidal - Parabéns, Mário! Na maratona que é a nossa vida, és o meu campeão, com 4 min de vantagem!



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Natal III - Sobre esta Pedra edificarei a minha vida

No dia 26 precisávamos devolver o carro que tínhamos alugado. Fim de ano no Rio de Janeiro é sinônimo de cidade lotada, todos sabemos disso. Fazer reservas com antecipação, é obrigatório. Até mesmo nas Rent-a-Cars. Mas eu não estava nada triste, a cidade é bem provida de tranporte público, não tínhamos intenção de ir para longe e encontrar estacionamento na Zona Sul já se havia revelado um martírio. Ok. 

Eis que tia Denise - a tia miss, que apaixonou-se pela Bahia e pelo baiano, não nesta ordem, é claro - telefona e diz: "Vamos à casa da Gisele?". Eu já sabia que iria lá, não sabia como, mas iria. Falei com meu marido, que de férias topa tudo, até fila do INPS, e pedimos instruções para lá chegar. Ora bem: Tia Denise não vive mais no Rio há uns muitos anos. Eu não vivo mais no Rio há uns outros tantos. Como ir de ônibus de Botafogo à Pedra de Guaratiba? Resultado: 1:20 min à espera de um ônibus que nunca vinha, um português sentado na calçada e o tempo a correr. Telefonei de volta à minha tia e resolvemos pegar um ônibus comum para a Barra, e de lá pegaríamos um BRT, conhecido como "Ligeirão". Parecíamos duas figurinhas recém saídas de uma comunidade amish: Tudo era novo, tudo era "fixe". Desejei ter um Ligeirão do Zambujeiro a Coimbra. Fiquei a pensar porque os brasileiros engrandecem suas coisas ao batizá-las, como Ligeirão, Orelhão, Mineirão, Mergulhão, Mensalão... Bem, melhor deixar essas conversa para outra hora.

E, depois de muitos telefonemas daqui pra lá, de lá pra cá, chegamos. Minha madrinha estava à nossa espera na saída da estação. Tio Carvalho ao volante, abraços e beijos e lá fomos conhecer sua casa nova. Muitas coisas aconteceram naquele dia. Muitas coisas com palavras e montanhas de coisas sem um único fonema. Havia lá uma peixada à nossa espera. Segundo o meu Mário, o melhor almoço que ele já teve no Rio. Mas esse é o jeito dele de dizer: "Caraca, isso aqui tá uma delícia" (livre tradução minha).

Depois do almoço, Mário se esparrama na rede da varanda, enquanto eu e minhas tias tagarelamos na sala. Mulheres falam muito, eu sei. mas nós juntas, falamos mais. 

Tia Gisele e seu marido, Mário Carvalho (sim, ele também é Mário, um tipo porreiro, como diz o meu), vivem na Pedra de Guaratiba há uns tantos anos - sou péssima de datas, não exijam muito de mim - e são pastores líderes de uma igreja protestante. É óbvio que a vida não foi sempre assim. Ele é um tipo bonachão e prático. Ela é um tipo carismática e doce. 

Eu tenho uma relação muito especial com a minha madrinha. Sei que não é uma relação de amor em via única, há reciprocidade e muita, mas é que há coisas que não se explicam em palavras, porque não há letras suficientes para desenhar determinadas relações. Ela é jovem demais para ser minha mãe, mas nossas vidas sempre se entrelaçaram de um jeito ou de outro, empurradas por um não sei o quê de misterioso. Ela lá estava no meu primeiro emprego. E no segundo. Nunca me olhou torto e nunca me julgou. Sempre me abraçou. E passados muitos anos, quando ficamos pessoas grandes, conhecemos o mesmo Deus, e professamos a mesma fé, e falamos a mesma língua. E hoje eu olho para trás e vejo que esta é a língua que falamos desde sempre, o que não tínhamos era bons ouvidos. 

Saímos de lá com muita pena. Pena de não termos ficado mais tempo. Pena de não termos ficado para dormir. Pena de eu não ter mexido na maquiagem dela. E saímos felizes. Porque, se ela tivesse ido à casa da vovó na véspera de Natal, eu provavelmente não estaria ali. E é assim que Deus escreve. Certo. Nós é que entortamos as linhas. E eu me fui com a certeza de que Deus me ama. É mais um jeito que Ele tem de dizer.

Verónica Vidal - Quem tem ouvidos ouça

Natal II - A Morte do Boneco de Gengibre

Eu bem que tinha tentado trazer a novidade européia do biscoito de gengibre para o nosso Natal brazuca, mas ele não resistiu ao calor dos trópicos e desmanchou-se todo. Foi igualmente comido, mas nunca virou um homenzinho. Minha sobrinha pergunta: E não vai haver pudim de leite? Claro, eu faço o pudim para ela. São duas meninas completamente diferentes na personalidade, as minhas sobrinhas. Uma, com a doçura do mel, que já se adivinha a suavidade. A outra, com sabor a sapoti, mais rara, é preciso tirar a pele, e quem provou nunca mais esquece. Chegamos enfim à polémica do pudim: Valéria insistia que o pudim deveria levar 5 ovos e eu usei 6. E lá ficou aquela discussão infantil entre duas mulheres pra lá dos quarenta acerca da diferença de um ovo no pudim. Por mais idiota que se possa parecer, essas são coisas que só acontecem com irmãos. E eu sinto muita falta de discussões por um ovo, ou por quem vai sentar ao lado da mamãe. Mas o pudim ficou um espetáculo. O calor na cozinha era intenso e meu marido preparava o bacalhau - genuíno português, trazido em genuíno contrabando, escondido nas malas, entre vinhos e azeites. Afinal, como casar com um português, levar o português ao Brasil e não levar um bacalhau português no Natal? A alfândega que reveja seus processos, pois isso cria problemas familiares sérios, e a lei na minha família é primordial. O bacalhau foi feito em dose dupla. Já que teríamos dois natais. A cozinha fervia. O ventilador que lá estava para amenizar o calor, começava a tomar as formas do Tom Cruise. Passei a amá-lo com intensidade.

Partimos para o primeiro Natal. Eu com uma travessa de Bacalhau à Gomes de Sá ao colo, mala do carro cheia de presentes, fomos buscar Thaissa e seguimos para casa da vovó.

Saímos da casa da vovó antes das duas da manhã. Eu conduzia um carro alugado, que teimava em ter a embreagem mais alta do que o meu pé pequeno e que me obrigava a levantar a perna a cada mudança de marcha. É, confesso. Tenho preguiça de dirigir. Sou daqueles condutores de um carro só, cujo veículo vai praticamente sozinho de casa para o trabalho e que, quando precisa mudar de carro ou de percurso, ou se perde ou fica à procura dos botões de acender faróis, alavancas de limpa-para-brisas. Mas, não havia remédio. Eu tinha feito um acordo com o maridão de que, desta vez, ele podia estar à vontade para um ou outro copo de cerveja que eu conduziria na volta. Promessa é dívida. E sem GPS.

Minha memória falhou pouco e conseguimos cruzar a Serra Grajaú-Jacarepaguá e ao passar pela Teodoro da Silva, em Vila Isabel, minha infância e adolescência ainda martelavam aqui na memória. Era um tal de "morei ali", "estudei ali", e assim cruzamos o Rebouças e chegamos à Lagoa, ao Humaitá, onde vive a minha irmã que nos hospedou, mais espcificamente no quarto da minha sobrinha Taila, que cedeu, feliz e contente, seu quarto para a nossa estada. Encontramos acordados alguns dos remanescentes celebradores natalinos. Ainda haveria o Dia do Natal. O dia 25. A troca de presentes das filhas da D. Lina. Nestas horas, o meu pai sempre teve papel secundário, como eram os pais na maioria dos casos, pelo menos os da minha época de menina. Éramos as filha da Lina, e assim permanecemos, até hoje. E a organização da mesa de Natal e das festinhas ainda têm um quê da mamãe. 

Dormimos, acordamos e, quem estava já estava e quem não estava foi chegando. As filhas da D. Lina se multiplicaram em mais filhas, maridos, noivos, enteados, gatas e peixes. Por aqui não há a organização portuguesa de sentarem-se à mesa para almoçar ou jantar. Sentamos à mesa, sim. Mas levantamos, e sentamos de novo, ou levantamos e sentamos na almofada se não há lugar para todos. Nunca alguém deixou de ser convidado por falta de cadeiras e nunca alguém deixou de ir por falta de convite. E trocamos presentes. Claro, é Natal! Trago comigo todos os dias o cheiro deste Natal, pois meus presentes ou têm cheiro ou os carrego junto a mim, e cheiros despertam-me memórias. Minhas filhas riem de tudo e riem de nada. Minhas sobrinhas fazem o mesmo. E percebo que eu e minhas irmãs não somos diferentes. Temos apenas um pouco mais de anos e um pouco mais de quilos, já que acumulamos mais natais do que elas e ninguém passa incólume a uma mesa como a nossa.

Verónica Vidal - de perto, todos são loucos. Mas nós somos um bocadito mais. E eu gosto.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Natal I - Tradição existe para ser quebrada

 Os tempos por cá andam difíceis, toda a gente a reclamar da falta de dinheiro, muitos a perderem seus empregos e os negócios levando mais calotes do que se pode suportar. Assim sendo, ficou decidido que nestas férias eu daria a conhecer ao meu marido, in loco, duas das coisas que mais amo: O Natal na Casa da Minha Avó e o Reveillón de Copabana. Sem dúvida, é um desafio colocar aqui, em poucas palavras, eventos memoráveis como esses. 

Voltar para casa em épocas festivas tem sempre um sabor diferente. Comigo também é assim, claro. Ando fora do meu ninho há uns 10 anos, e passar Natal e Ano Novo em casa, é tudo no melhor estilo "De Volta Para o Passado".

Na falta de uma máquina do tempo, compramos uma passagem Lisboa - Rio pela TAP. Logo na chegada, fomos recebidos pelo delicioso bafo quente da minha cidade maravilhosa. Irmã, cunhado, sobrinho, filha e genro à minha espera no aeroporto. Porque brasileiro é assim. Nada de pegar táxi. Família espera mesmo é no aeroporto, ainda que o avião chegue de madrugada e atrase horas. E ali percebi que minha família me ama. É um jeito de dizer sem falar.

E isto acabou por virar um conto, e já que assim é, comecemos então por um capítulo.


Natal I - Tradição existe para ser quebrada


Fomos dos primeiros a chegar à casa da vovó. Lá estavam já alguns primos baianos acariocados, sua filhota fofa, minha tia miss Rio de Janeiro que abaianou e um amigo-gente-boa, que já tinha sido de tudo que era lugar mas aportou pelo Rio e ali foi ficando, por força da vida, por força das amizades, por força daquele não-sei-quê que a gente nunca sabe. Toni. Gaúcho. Era mais um sotaque, mais um na família, porque assim é que é, vai-se abraçando quem chega e quem chega vira dono e toma pedaço.

Logo aparece meu irmão, e eu esmago com abraços um homem feito, como se ainda 5 anos tivesse. Já não o via há tanto tempo. E conto-lhe do dia em que havia esquecido dele em casa. Foi numa festinha de aniversário da minha filha Camila, que iríamos comemorar no Corcovado. Meti a criançada no carro e seguia pelo túnel quando, diante do burburinho das crianças no carro eu reclamo: "Meninas, fiquem quietas, o único que está quietinho é o Washington"  E elas imediatamente respondem: "Mãe, o Washington não está aqui". Eu tinha me esquecido de ir buscá-lo! Ele devia ter uns 5 anos, na altura. Deixei as crianças junto aos outros pais, próximo ao lugar da festinha e corri de volta para buscar meu irmão. Com 5 aninhos ele estava todo arrumadinho, sentadinho na cama, a baloiçar os pezinhos e disse: "Você demorou!". Não lembro da minha explicação, mas decerto que não foi a verdadeira. Como dizer a uma criança de 5 aninhos que ela havia sido esquecida? Pois só agora, passados tantos anos, confessei meu pecado. Foi catártico.

Meu irmãozinho cresceu. Está noivo e dirige. Ele é fruto do segundo casamento do meu pai, que já por cá não anda, mas sua mãe lá estava, e, apesar de pequenina, com razão cresce uns poucos centímetros de orgulho que tem nele. Coincidência ou não, minha avó só decidiu entrar em cena depois que meu manito chegou. Até então, para ela, a festa de Natal ainda não havia começado.Tive uma ponta de vaidade por isso. Coisa feia esses sentimentos que teimo em não arrancar de mim.

Uma ou outra coisa muda, como a churrasqueira que já foi um monte de tijolos amontoados num canto ao pé da jaqueira, depois ao lado do muro e agora deu lugar a um aparato todo tecnológico, com entradas e saídas de vapor, e coisas do tipo. Fiquei achando que seria preciso tirar cursinho para usar a churrasqueira nova. Mas a verdade é que o churrasco estava lá. A turma do muro, aqueles que ficam mais perto da cerveja e dos petiscos, também lá estavam, bem mais contidos do que outrora, já que a lei seca não perdoa e o guaraná vira então o rei da noite, e isso só serviu para provar que álcool nunca fez falta para a alegria da festa. Havia um diversidade de petiscos, mas o sucesso geral foi a sacanagem. Nunca dei tanta credibilidade ao sabor em si, mas quem batizou esta mistureba espetada num palito é um génio. Anónimo, mas é. Você não sabe o que é sacanagem? Monique manda a receita. Guilherme faz. Na próxima, vai rolar até um molhinho. Ou não, sei lá. Sempre alguma coisa fica esquecida. É tradição nas festas da minha família e ainda assim está tudo muito bem.

Minha filha armou-se em criança e foi brincar de Polly, com a desculpa de montar o brinquedo da priminha, já que a distribuição de brinquedos para os menores foi mais cedo, uma vez que cambaleavam de sono e já ameaçavam com o chororô típico dos dois, três aninhos. O calor intenso nos obrigava a ficar na varanda, onde a festa estava animada pelo som de gosto tremendamente duvidoso do vizinho, mas ajudando na economia da contratação de um DJ para a nossa própria balada. De qualquer forma, ninguém se lembraria mesmo da música que tocava, pois a conversaria era tanta até que se faz tarde demais e nada da minha madrinha chegar. Como eu já disse, minha madrinha é minha tia, mas madrinhas e padrinhos são tios especiais, e a minha é a mais especial de todas, pois, além de ser minha, é madrinha de praticamente todas as crianças da família, grandes e pequenos, para o meu ciúme mortal. Preciso expurgar isso do meu coração. Coisa feia.

O que eu nunca disse, é que ela sempre foi uma atrasilda*, mas era perdoada pelo atraso pois vinha acompanhada de uma travessa com um quitute delicioso. Mas ela não foi. O quitute também não. E eu chorei. Porque esqueci que eu já era adulta e tinha entrado na minha máquina do tempo, no meu "de volta para o passado". E chorei muitos baldes de choro, pois as crianças de três anos já tinham recebido seus brinquedos e eu não tinha recebido o meu. E porque não se pode entrar numa máquina do tempo assim, sem mais nem menos, pois o dono do tempo é Deus. E eu nem sabia que Ele estava preparando para mim o meu presente de Natal. 

Lágrimas secas, minha tia miss, que sempre agitou a criançada e nunca deixou a peteca cair fez-me lembrar a minha avó. A lágrima pode durar um minuto, mas a alegria, há que perdurar para sempre. Porque é verdade.

Era a hora da oração, já quase meia noite. Era hora de distribuir presentes, de abraços e beijos, de Feliz Natal, de amigo oculto.

E a foto oficial ficou esquecida. Sempre alguma coisa fica esquecida. Mas ainda assim, fica tudo bem.

E a Monique me disse, uns dias depois, que no dia seguinte meu padrinho tinha ido de manhã à padaria comprar pão.




Verónica Vidal - Aprendendo que amor, tempo e festa, são coisas transcendentais. Não podem ocupar um um espaço determinado. Vou perceber um pouquinho mais disso, daqui a pouco.


* Nota do autor - Palavra inventada por alguém, ou por mim mesma, sei lá, porém sem registro autoral.