quarta-feira, 20 de março de 2013

Pés que Correm - Ultrapassando Limites

Minha brilhante conclusão é a de que a enorme façanha da vida muitas vezes não vai além do sair dos lençóis. Inúmeros dias meu desejo solene é estar enroscada feito um caracol, até que a velhice me leve e que o pó me consuma. Passo a semana toda esperando ardentemente pela sexta-feira, simplesmente para que chegue o sábado e eu não saiba o que fazer com ele. Às vezes para não fazer nada. Falta-me propósito. Falta-me o tesão. 

Pela primeira vez, meu marido e mais um casal de amigos correram uma maratona inteirinha. São 42,195 km. É muito chão. E você até pode dizer: E daí? Muita gente corre maratonas. Talvez você conheça alguns, talvez você corra. Eu não corro nem daqui à esquina, na verdade não me dá prazer algum em correr, o que não me impede de admirar a determinação de quem o faça. Muito além da admiração, faz-me pensar na vida e nos seus propósitos.

Por que afinal, corriam eles, se não era por medalhas, por fama ou por dinheiro? Por que afinal, correm aqueles mais de 7 mil anônimos que lá estavam inscritos na famosa maratona de Sevilla? Para superar suas próprias marcas, para testar seus limites, respondia uma vozinha lá no fundo.

E por ter essa mania de pensar, segui pensando. Pensei que todos nós temos limites que precisamos superar. Sejam os ponteiros da balanca que têm que descer um bocadinho, seja aquele curso que queríamos ter feito há uns 20 anos atrás e nunca fizemos, seja a carta de condução que nunca tiramos, ou que tiramos, engavetamos, mas não conduzimos. Todos nós temos limites a superar, sejam eles da enormidade de maratonas, sejam minúsculos como uma caminhada à esquina, todos são, para nós, grandes façanhas. Toda grande façanha começará com um passo. De cada vez. Todos os dias, uns poucos passos de cada vez. Algum investimento, alguma renúncia, um bocadão de esforço e plum! A felicidade do limite ultrapassado é indescritível. 

Sair da concha, afastar os lençóis para o lado, catar o tesão que caiu no chão, lavar a cara e falar tem sido minha maratona diária. Ir trabalhar é só o meu escudo. Meu marido é a minha inspiração. Porque, se hoje, ele vai dar uma corridinha, eu vou ler mais um bocadinho, e em voz alta, muitas palavras com R e com L, porque o rato não raro rói as palavras que queríamos falar e de tanto não falarmos, elas nos ficam enterradas no peito e na garganta, e nos morrem na cabeça, empurrando-nos de volta à concha e aos lençóis.

Verónica Vidal - Parabéns, Mário! Na maratona que é a nossa vida, és o meu campeão, com 4 min de vantagem!



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Natal III - Sobre esta Pedra edificarei a minha vida

No dia 26 precisávamos devolver o carro que tínhamos alugado. Fim de ano no Rio de Janeiro é sinônimo de cidade lotada, todos sabemos disso. Fazer reservas com antecipação, é obrigatório. Até mesmo nas Rent-a-Cars. Mas eu não estava nada triste, a cidade é bem provida de tranporte público, não tínhamos intenção de ir para longe e encontrar estacionamento na Zona Sul já se havia revelado um martírio. Ok. 

Eis que tia Denise - a tia miss, que apaixonou-se pela Bahia e pelo baiano, não nesta ordem, é claro - telefona e diz: "Vamos à casa da Gisele?". Eu já sabia que iria lá, não sabia como, mas iria. Falei com meu marido, que de férias topa tudo, até fila do INPS, e pedimos instruções para lá chegar. Ora bem: Tia Denise não vive mais no Rio há uns muitos anos. Eu não vivo mais no Rio há uns outros tantos. Como ir de ônibus de Botafogo à Pedra de Guaratiba? Resultado: 1:20 min à espera de um ônibus que nunca vinha, um português sentado na calçada e o tempo a correr. Telefonei de volta à minha tia e resolvemos pegar um ônibus comum para a Barra, e de lá pegaríamos um BRT, conhecido como "Ligeirão". Parecíamos duas figurinhas recém saídas de uma comunidade amish: Tudo era novo, tudo era "fixe". Desejei ter um Ligeirão do Zambujeiro a Coimbra. Fiquei a pensar porque os brasileiros engrandecem suas coisas ao batizá-las, como Ligeirão, Orelhão, Mineirão, Mergulhão, Mensalão... Bem, melhor deixar essas conversa para outra hora.

E, depois de muitos telefonemas daqui pra lá, de lá pra cá, chegamos. Minha madrinha estava à nossa espera na saída da estação. Tio Carvalho ao volante, abraços e beijos e lá fomos conhecer sua casa nova. Muitas coisas aconteceram naquele dia. Muitas coisas com palavras e montanhas de coisas sem um único fonema. Havia lá uma peixada à nossa espera. Segundo o meu Mário, o melhor almoço que ele já teve no Rio. Mas esse é o jeito dele de dizer: "Caraca, isso aqui tá uma delícia" (livre tradução minha).

Depois do almoço, Mário se esparrama na rede da varanda, enquanto eu e minhas tias tagarelamos na sala. Mulheres falam muito, eu sei. mas nós juntas, falamos mais. 

Tia Gisele e seu marido, Mário Carvalho (sim, ele também é Mário, um tipo porreiro, como diz o meu), vivem na Pedra de Guaratiba há uns tantos anos - sou péssima de datas, não exijam muito de mim - e são pastores líderes de uma igreja protestante. É óbvio que a vida não foi sempre assim. Ele é um tipo bonachão e prático. Ela é um tipo carismática e doce. 

Eu tenho uma relação muito especial com a minha madrinha. Sei que não é uma relação de amor em via única, há reciprocidade e muita, mas é que há coisas que não se explicam em palavras, porque não há letras suficientes para desenhar determinadas relações. Ela é jovem demais para ser minha mãe, mas nossas vidas sempre se entrelaçaram de um jeito ou de outro, empurradas por um não sei o quê de misterioso. Ela lá estava no meu primeiro emprego. E no segundo. Nunca me olhou torto e nunca me julgou. Sempre me abraçou. E passados muitos anos, quando ficamos pessoas grandes, conhecemos o mesmo Deus, e professamos a mesma fé, e falamos a mesma língua. E hoje eu olho para trás e vejo que esta é a língua que falamos desde sempre, o que não tínhamos era bons ouvidos. 

Saímos de lá com muita pena. Pena de não termos ficado mais tempo. Pena de não termos ficado para dormir. Pena de eu não ter mexido na maquiagem dela. E saímos felizes. Porque, se ela tivesse ido à casa da vovó na véspera de Natal, eu provavelmente não estaria ali. E é assim que Deus escreve. Certo. Nós é que entortamos as linhas. E eu me fui com a certeza de que Deus me ama. É mais um jeito que Ele tem de dizer.

Verónica Vidal - Quem tem ouvidos ouça

Natal II - A Morte do Boneco de Gengibre

Eu bem que tinha tentado trazer a novidade européia do biscoito de gengibre para o nosso Natal brazuca, mas ele não resistiu ao calor dos trópicos e desmanchou-se todo. Foi igualmente comido, mas nunca virou um homenzinho. Minha sobrinha pergunta: E não vai haver pudim de leite? Claro, eu faço o pudim para ela. São duas meninas completamente diferentes na personalidade, as minhas sobrinhas. Uma, com a doçura do mel, que já se adivinha a suavidade. A outra, com sabor a sapoti, mais rara, é preciso tirar a pele, e quem provou nunca mais esquece. Chegamos enfim à polémica do pudim: Valéria insistia que o pudim deveria levar 5 ovos e eu usei 6. E lá ficou aquela discussão infantil entre duas mulheres pra lá dos quarenta acerca da diferença de um ovo no pudim. Por mais idiota que se possa parecer, essas são coisas que só acontecem com irmãos. E eu sinto muita falta de discussões por um ovo, ou por quem vai sentar ao lado da mamãe. Mas o pudim ficou um espetáculo. O calor na cozinha era intenso e meu marido preparava o bacalhau - genuíno português, trazido em genuíno contrabando, escondido nas malas, entre vinhos e azeites. Afinal, como casar com um português, levar o português ao Brasil e não levar um bacalhau português no Natal? A alfândega que reveja seus processos, pois isso cria problemas familiares sérios, e a lei na minha família é primordial. O bacalhau foi feito em dose dupla. Já que teríamos dois natais. A cozinha fervia. O ventilador que lá estava para amenizar o calor, começava a tomar as formas do Tom Cruise. Passei a amá-lo com intensidade.

Partimos para o primeiro Natal. Eu com uma travessa de Bacalhau à Gomes de Sá ao colo, mala do carro cheia de presentes, fomos buscar Thaissa e seguimos para casa da vovó.

Saímos da casa da vovó antes das duas da manhã. Eu conduzia um carro alugado, que teimava em ter a embreagem mais alta do que o meu pé pequeno e que me obrigava a levantar a perna a cada mudança de marcha. É, confesso. Tenho preguiça de dirigir. Sou daqueles condutores de um carro só, cujo veículo vai praticamente sozinho de casa para o trabalho e que, quando precisa mudar de carro ou de percurso, ou se perde ou fica à procura dos botões de acender faróis, alavancas de limpa-para-brisas. Mas, não havia remédio. Eu tinha feito um acordo com o maridão de que, desta vez, ele podia estar à vontade para um ou outro copo de cerveja que eu conduziria na volta. Promessa é dívida. E sem GPS.

Minha memória falhou pouco e conseguimos cruzar a Serra Grajaú-Jacarepaguá e ao passar pela Teodoro da Silva, em Vila Isabel, minha infância e adolescência ainda martelavam aqui na memória. Era um tal de "morei ali", "estudei ali", e assim cruzamos o Rebouças e chegamos à Lagoa, ao Humaitá, onde vive a minha irmã que nos hospedou, mais espcificamente no quarto da minha sobrinha Taila, que cedeu, feliz e contente, seu quarto para a nossa estada. Encontramos acordados alguns dos remanescentes celebradores natalinos. Ainda haveria o Dia do Natal. O dia 25. A troca de presentes das filhas da D. Lina. Nestas horas, o meu pai sempre teve papel secundário, como eram os pais na maioria dos casos, pelo menos os da minha época de menina. Éramos as filha da Lina, e assim permanecemos, até hoje. E a organização da mesa de Natal e das festinhas ainda têm um quê da mamãe. 

Dormimos, acordamos e, quem estava já estava e quem não estava foi chegando. As filhas da D. Lina se multiplicaram em mais filhas, maridos, noivos, enteados, gatas e peixes. Por aqui não há a organização portuguesa de sentarem-se à mesa para almoçar ou jantar. Sentamos à mesa, sim. Mas levantamos, e sentamos de novo, ou levantamos e sentamos na almofada se não há lugar para todos. Nunca alguém deixou de ser convidado por falta de cadeiras e nunca alguém deixou de ir por falta de convite. E trocamos presentes. Claro, é Natal! Trago comigo todos os dias o cheiro deste Natal, pois meus presentes ou têm cheiro ou os carrego junto a mim, e cheiros despertam-me memórias. Minhas filhas riem de tudo e riem de nada. Minhas sobrinhas fazem o mesmo. E percebo que eu e minhas irmãs não somos diferentes. Temos apenas um pouco mais de anos e um pouco mais de quilos, já que acumulamos mais natais do que elas e ninguém passa incólume a uma mesa como a nossa.

Verónica Vidal - de perto, todos são loucos. Mas nós somos um bocadito mais. E eu gosto.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Natal I - Tradição existe para ser quebrada

 Os tempos por cá andam difíceis, toda a gente a reclamar da falta de dinheiro, muitos a perderem seus empregos e os negócios levando mais calotes do que se pode suportar. Assim sendo, ficou decidido que nestas férias eu daria a conhecer ao meu marido, in loco, duas das coisas que mais amo: O Natal na Casa da Minha Avó e o Reveillón de Copabana. Sem dúvida, é um desafio colocar aqui, em poucas palavras, eventos memoráveis como esses. 

Voltar para casa em épocas festivas tem sempre um sabor diferente. Comigo também é assim, claro. Ando fora do meu ninho há uns 10 anos, e passar Natal e Ano Novo em casa, é tudo no melhor estilo "De Volta Para o Passado".

Na falta de uma máquina do tempo, compramos uma passagem Lisboa - Rio pela TAP. Logo na chegada, fomos recebidos pelo delicioso bafo quente da minha cidade maravilhosa. Irmã, cunhado, sobrinho, filha e genro à minha espera no aeroporto. Porque brasileiro é assim. Nada de pegar táxi. Família espera mesmo é no aeroporto, ainda que o avião chegue de madrugada e atrase horas. E ali percebi que minha família me ama. É um jeito de dizer sem falar.

E isto acabou por virar um conto, e já que assim é, comecemos então por um capítulo.


Natal I - Tradição existe para ser quebrada


Fomos dos primeiros a chegar à casa da vovó. Lá estavam já alguns primos baianos acariocados, sua filhota fofa, minha tia miss Rio de Janeiro que abaianou e um amigo-gente-boa, que já tinha sido de tudo que era lugar mas aportou pelo Rio e ali foi ficando, por força da vida, por força das amizades, por força daquele não-sei-quê que a gente nunca sabe. Toni. Gaúcho. Era mais um sotaque, mais um na família, porque assim é que é, vai-se abraçando quem chega e quem chega vira dono e toma pedaço.

Logo aparece meu irmão, e eu esmago com abraços um homem feito, como se ainda 5 anos tivesse. Já não o via há tanto tempo. E conto-lhe do dia em que havia esquecido dele em casa. Foi numa festinha de aniversário da minha filha Camila, que iríamos comemorar no Corcovado. Meti a criançada no carro e seguia pelo túnel quando, diante do burburinho das crianças no carro eu reclamo: "Meninas, fiquem quietas, o único que está quietinho é o Washington"  E elas imediatamente respondem: "Mãe, o Washington não está aqui". Eu tinha me esquecido de ir buscá-lo! Ele devia ter uns 5 anos, na altura. Deixei as crianças junto aos outros pais, próximo ao lugar da festinha e corri de volta para buscar meu irmão. Com 5 aninhos ele estava todo arrumadinho, sentadinho na cama, a baloiçar os pezinhos e disse: "Você demorou!". Não lembro da minha explicação, mas decerto que não foi a verdadeira. Como dizer a uma criança de 5 aninhos que ela havia sido esquecida? Pois só agora, passados tantos anos, confessei meu pecado. Foi catártico.

Meu irmãozinho cresceu. Está noivo e dirige. Ele é fruto do segundo casamento do meu pai, que já por cá não anda, mas sua mãe lá estava, e, apesar de pequenina, com razão cresce uns poucos centímetros de orgulho que tem nele. Coincidência ou não, minha avó só decidiu entrar em cena depois que meu manito chegou. Até então, para ela, a festa de Natal ainda não havia começado.Tive uma ponta de vaidade por isso. Coisa feia esses sentimentos que teimo em não arrancar de mim.

Uma ou outra coisa muda, como a churrasqueira que já foi um monte de tijolos amontoados num canto ao pé da jaqueira, depois ao lado do muro e agora deu lugar a um aparato todo tecnológico, com entradas e saídas de vapor, e coisas do tipo. Fiquei achando que seria preciso tirar cursinho para usar a churrasqueira nova. Mas a verdade é que o churrasco estava lá. A turma do muro, aqueles que ficam mais perto da cerveja e dos petiscos, também lá estavam, bem mais contidos do que outrora, já que a lei seca não perdoa e o guaraná vira então o rei da noite, e isso só serviu para provar que álcool nunca fez falta para a alegria da festa. Havia um diversidade de petiscos, mas o sucesso geral foi a sacanagem. Nunca dei tanta credibilidade ao sabor em si, mas quem batizou esta mistureba espetada num palito é um génio. Anónimo, mas é. Você não sabe o que é sacanagem? Monique manda a receita. Guilherme faz. Na próxima, vai rolar até um molhinho. Ou não, sei lá. Sempre alguma coisa fica esquecida. É tradição nas festas da minha família e ainda assim está tudo muito bem.

Minha filha armou-se em criança e foi brincar de Polly, com a desculpa de montar o brinquedo da priminha, já que a distribuição de brinquedos para os menores foi mais cedo, uma vez que cambaleavam de sono e já ameaçavam com o chororô típico dos dois, três aninhos. O calor intenso nos obrigava a ficar na varanda, onde a festa estava animada pelo som de gosto tremendamente duvidoso do vizinho, mas ajudando na economia da contratação de um DJ para a nossa própria balada. De qualquer forma, ninguém se lembraria mesmo da música que tocava, pois a conversaria era tanta até que se faz tarde demais e nada da minha madrinha chegar. Como eu já disse, minha madrinha é minha tia, mas madrinhas e padrinhos são tios especiais, e a minha é a mais especial de todas, pois, além de ser minha, é madrinha de praticamente todas as crianças da família, grandes e pequenos, para o meu ciúme mortal. Preciso expurgar isso do meu coração. Coisa feia.

O que eu nunca disse, é que ela sempre foi uma atrasilda*, mas era perdoada pelo atraso pois vinha acompanhada de uma travessa com um quitute delicioso. Mas ela não foi. O quitute também não. E eu chorei. Porque esqueci que eu já era adulta e tinha entrado na minha máquina do tempo, no meu "de volta para o passado". E chorei muitos baldes de choro, pois as crianças de três anos já tinham recebido seus brinquedos e eu não tinha recebido o meu. E porque não se pode entrar numa máquina do tempo assim, sem mais nem menos, pois o dono do tempo é Deus. E eu nem sabia que Ele estava preparando para mim o meu presente de Natal. 

Lágrimas secas, minha tia miss, que sempre agitou a criançada e nunca deixou a peteca cair fez-me lembrar a minha avó. A lágrima pode durar um minuto, mas a alegria, há que perdurar para sempre. Porque é verdade.

Era a hora da oração, já quase meia noite. Era hora de distribuir presentes, de abraços e beijos, de Feliz Natal, de amigo oculto.

E a foto oficial ficou esquecida. Sempre alguma coisa fica esquecida. Mas ainda assim, fica tudo bem.

E a Monique me disse, uns dias depois, que no dia seguinte meu padrinho tinha ido de manhã à padaria comprar pão.




Verónica Vidal - Aprendendo que amor, tempo e festa, são coisas transcendentais. Não podem ocupar um um espaço determinado. Vou perceber um pouquinho mais disso, daqui a pouco.


* Nota do autor - Palavra inventada por alguém, ou por mim mesma, sei lá, porém sem registro autoral.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Uma História de Princesas e Castelos.

 Quando as minhas filhas eram pequenas, gostavam de ouvir histórias. Havia uns fascículos que eram vendidos aos domingos e assim completava-se uma coleção de historinhas infantis. Aquilo lá vinha acompanhado de umas fitas cassete, que não só contavam a historinha que o livrinho trazia escrito mas também as canções. Até hoje lembro de várias das musiquinhas. E vez por outra eu sinto falta do mundo mágico dos contos de fada das histórias infantis, das princesas e heróis, dos castelos e sapatinhos de cristal.

Ainda há poucos dias, tive a grata felicidade de perceber que continuamos rodeados dos heróis e princesas. Eles apenas mudaram de roupas. Sem dúvida, usar cristal nos pés não há de ser lá muito confortável.

Quando conheci meu marido, ele gostava de correr e já o fazia há muitos anos. Enfiava um short, metia uns tênis, e saía correndo. Para quem corre 5 km., está ótimo. Ao perceber que ele corria 20 km., minha chatice natural aflorou e passei a reclamar de inúmeras coisas. Uma delas era: O sapatinho já não poderia ser um qualquer. E assim começou. Daí para juntar-se a um grupo de amigos e correrem meias-maratonas, trails, maratonas, foi consequência. E é aí que nossa história começa.

Eu tinha certeza de que conhecia a moça de algum lugar, mas ainda não havia atinado de onde. Tinha aquela beleza clássica, desprovida de adornos, aquele meio sorriso tímido de quem quase pede desculpas por ser feliz.  E foi na preparação para uma destas maratonas que encontrei seu Cavaleiro, à procura de um sapatinho, indeciso na escolha. Maratona corrida, etapa vencida, a moça bonita lá estava, firme e linda, como se nada se tivesse passado, como se o frio não lhe tivesse congelado os dedos, como se a chuva não lhe tivesse fustigado a cara. Quis a divina vontade que eu viesse a viver numa terra recheada de castelos.  E quis ainda a vontade divina que houvesse tempestade neste dia e nos faltasse luz em casa. E lá fomos nós, conhecer o castelo da moça e seu Cavaleiro.
Edward Coke, um político do século XVI, já dizia que a casa de um homem é o seu castelo. Políticos não costumam dizer muita coisa que se aproveite, mas este aí, por acaso, falou algo de jeito. O fato é que, naquele castelo, respirava-se amor por todos os pontos. As casas contam histórias sobre seus habitantes. Casas extrememente arrumadinhas, como as de revista Vogue, dão-me uma qualquer impressão estéril, impessoal, assexuada, e não me fazem sentir que alguém ali vive. Aquela ali não, era mesmo um castelo. Desde o cobertor jogado no sofá, demostrando que aconchegava, à toalha de mesa aos quadradinhos, passando pela mobília antiga de sala displicentemente colocada. Notei um detalhe na mobília e a moça distraídamente me explicou: Foi comprada de segunda mão. Tinha uma expressão tão tocante, e tão rara nas pessoas de hoje em dia, que vivem para mostrar, que têm salas que não usam, cozinhas que não entram. Então, lembrei-me de onde eu a conhecia: Era do cinema, era dos livrinhos das histórias das minhas filhas, era do grande ecrã. Era a princesa Lara, que, sabendo-se princesa, vestia a armadura e lutava como um cavaleiro.

E o seu Cavaleiro, pode até nunca se decidir a escolher sapatilhas, mas escolhe uma princesa como ninguém!

Verónica Vidal - aprendendo a reconhecer a nobreza, mas feliz por ver que ela ainda existe.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Com um bocado de sorte, chego lá!

Gosto do meu canto, gosto de bons livros, detesto livros ruins, gosto de estar sozinha, odeio solidão. Adoro passear, mas não gosto de multidões, de ser apertada em lugares abafados e odeio fedor de cigarro. Enfim, sou das pessoas mais chatas que alguma vez já conheci. 

Passei por uma senhorinha, muito velhinha, que descia uma ladeira calçada de pedras. Tinha o andar vacilante próprio das senhorinhas velhinhas. Sua filha gritava com ela: "Despacha-te, mãe! Senão largo-te aqui, bem no meio da rua!" A peste da filha devia ter uns 50 e tantos anos, se tanto. E puxava a senhorinha pelo braço,  na infrutífera tentativa de apressar-lhe os passos. Tive vontade de bater na mulher. Tive vontade de matá-la, de estrangulá-la com minhas próprias mãos e ver sua cara grande e roxa entumescer de sangue e ela morrer sufocada. Odiei-a naquele preciso momento, pela forma com que ela tratava a mãe. Mas nada fiz, pois não se pode sair matando as pessoas e, na minha inércia, odiei-me a mim mesma por nada fazer. Mil velhos mal tratados passaram pela minha memória. Eram velhos que cruzei nos hospitais, eram pais de conhecidos que passavam fins de semana ora na casa de um filho, ora na casa de outro e tornavam-se antes um estorvo do que um prazer, eram idosos acamados abandonados em lares e sem visitas, cujos filhos viviam por ali, ao redor, mas alegavam não terem tempo para visitarem os pais ou quando muito, o faziam para serem vistos pelos olhos críticos de outrem, em visita tão rápida quanto o vento.

Penso que se meus pais fossem vivos, seriam velhos agora. Não tenho a sorte de tê-los comigo e se os tivesse é certo que não os trataria como a mulher peste de cara grande tratava a mãe. É bem verdade que pais nunca podem ser substituídos, mas podemos sempre ser confortados e Deus me deu o conforto de ter bons sogros, e eu roubei-lhes o carinho para colocar no lugar dos meus pais. Tenho os melhores sogros do mundo. Quem os ama cai nas minhas graças, mas se alguém tem a estúpida idéia de os prejudicar, meus instintos assassinos afloram com uma rapidez sem tamanho. Eles são ainda fortes e independentes. Mas pode ser que chegue um dia que fiquem fracos e dependentes. Espero que, chegada esta época, eles tenham paciência comigo. Pois eu lá estarei. E eu sou muito chata. É que eu não gosto de cigarros, nem de lugares abafados, nem de multidões. Mas ando devagar, se preciso for.

Verónica Vidal - Tem coisas que eu não entendo. Outras, nem quero entender.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Elas são cariocas!

É pois é. Eu andei um tempo caladinha, com medo de escrever e pagar imposto por isso. É que por cá, anda um Coelho a dar uns Passos trocados e quem sofre somos nós, que perdemos os nossos parcos trocados. Com a esfarrapada desculpa de que um tal Sócrates andou filosofando em causa própria, vimo-nos agora todos gregos para pagar as crateras lunares desvendadas em pura ironia socrática, mostrando a tolice e os absurdos somente e obviamente no governo seguinte, como é de praxe. Pois era de tanto ouvir esse trelelê nos telejornais e nas conversas de boteco por aqui, que dava-me uma preguicite mortal de escrever qualquer coisa. Pura falta de inspiração.


Até que uma garotinha muito miudinha aparece à minha frente. Tamanho de criança, jeitinho de 12 anos, mas 22 nos documentos. Para melhorar o pacote, ela é carioca, ela é carioca, olha o jeitinho dela andar... Pronto, minha carioquice forçosamente hibernada nestes 5 anos de fados conimbricences emergiu abruptamente, assim mesmo, de sopetão, e já queria eu levar a menina para casa, colocar lacinhos e vesti-la com um vestidinho de organza, mas a razão falou mais alto. Convidei a menina para passear, para conhecer os arredores da cidade. Bem assim, no melhor estilo carioquês de ser: Passo lá na tua casa, quer levar uma amiga? E ela levou duas. Nada poderia ter sido mais perfeito.
E assim, 3 meninas brasileiras, melhor do que brasileiras, cariocas, com todo o seu diferencial, cada qual com o seu jeito, cada qual com os seus gostos e todas se entendendo perfeitamente. Tem a apaixonada por cachorros e as que amam cachorro (quente). Tem a vegetariana e a que come de tudo e nunca engorda. A que namora desde sempre com seu doce príncipe e a que ainda faz uni-duni-tê e não namora ninguém. E eu, me fantasiei de tia inventada na hora, meio assim, feito bolinho de chuva que a gente vai fazendo sem receita. E fui roubando delas um bocado de risadas, um pedaço de alegria, uma nesga de sorriso. Aplaquei as saudades das minhas filhas e tive a certeza mais do que certa de que Deus vai me dando remédios santos à medida que eu necessite deles. É provável que nos dê a todos, apenas alguns de nós têm olhos para ver e outros simplesmente deixaram que a catarata da melancolia e da autocomiseração os cobrisse.

Veronica Vidal
Ainda exilada, com saudades e com frio, mas perder o sambalelê, jamais!