quarta-feira, 21 de abril de 2010

UM FILHO TATUADO NO PEITO

Ainda levaria uns bons minutos até que eu fosse atendida. Sala de espera típica de qualquer outro consultório, quatro mulheres aguardando para serem examinadas, todas nós com aquela cara de paisagem que fazemos quando vamos ao ginecologista. Sabemos que é incômodo, desagradável, ridículo até. Mas ninguém comenta. O médico está invariavelmente atrasado com as consultas, mas todas esperamos caladinhas, feito gado.

Começo a puxar conversa com a senhora que estava ao meu lado. Vinha trazer a filha. Menina ainda, 17 anos, grávida do namorado. Imediatamente fiz a viagem do túnel do tempo, de volta aos meus 17 anos, quando era eu quem estava grávida, na sala de espera de um consultório de ginecologia. Durante a adolescência, desenvolvemos um superpoder heróico, e nada nos pode atingir. Podemos transar com o namorado sem camisinha, tomamos a pílula dia sim três dias não, tatuamos o nome do nosso amado no corpo, porque aquele amor é para sempre e porque nada de mal nos acontecerá. Ainda temos bastante latente dentro de nós o coração da Cinderela, à espera de que o príncipe nos livre das garras de domínio dos nossos pais, trazendo-nos para a felicidade plena. Felicidade com ele, é claro.

Até que percebemos que a menstruação não veio, como deveria vir, cheia de cólicas e atrapalhando a nossa praia de sábado. Esperamos mais um bocado, porque ainda existe a certeza de que somos invencíveis, com superpoderes fantásticos e nada nos pode abalar. Até que finalmente, chegamos ao laboratório, com a amiga, e abrimos o terrível papelzinho que diz: POSITIVO. O frio na espinha sobe e desce, a mistura de emoções despenca como avalanche. O primeiro pensamento é: Como contar à minha mãe/ao meu pai? Assim é para todas nós. O que diferencia são as histórias de cada uma até chegarmos à concepção. Há as que engravidaram por puro desleixo, acreditando realmente nos superpoderes da adolescência e sonhando com a casinha de bonecas e o bebê cor de rosa, há as que terminaram um namoro e ficaram com outro numa festa, "pra esquecer", e engravidaram deste outro, que sequer sabiam quem era, há as que engravidam de namorados cretinos que jamais assumirão a criança, há as que têm o apoio dos pais e as que ficam sozinhas. Mas uma coisa é comum a todas nós: Nossa infância acabou bruscamente, nos cuidados com assaduras e nos intervalos das amamentações. De repente temos um aluguel a pagar, brevemente uma creche, escolinha, festinha de primeiro ano, roupinhas e brinquedos. O pré vestibular ficou para trás, a faculdade terá que esperar e o sonho da formatura foi adiado, muitas vezes para sempre. Nossa cabeça ainda é de adolescente, mas nossas tarefas e responsabilidades são de uma adulta. E descobrimos que não temos superpoderes, não somos invencíveis e amores não duram a vida toda. Mas tatuagens sim, e filhos também.

Às doces meninas-mães do meu coração, sobrinhas adotivas e àquelas que eu nunca vi, mas cujas adolescências ainda estão aí, e já não serão mais vividas, o meu beijo.

Verónica Vidal

quinta-feira, 15 de abril de 2010

ESCOLHAS

Minha paciência anda curta para muita coisa. Talvez tenha sofrido deste mal desde sempre. Passo a vida a justificar o porquê do Vasco ter ido para a segunda divisão, o porquê do Lula ter fama de beberrão, o porquê de pedirmos uma Coca e não uma Cola. Que saco! Acabo por pedir uma Pepsi.

Adoraria ser magrinha feito as BBB's que posam para as Paparazzi da vida. E ter 22 anos também. Mas, ao mesmo tempo, adoro um belo crepe com sorvete e calda de chocolate, o que, à partida, não combinaria com o look magrinha capa de Play Boy. Meus 22 anos também já lá se foram há uns (poucos) anos. O que me faz pensar que não podemos, de fato, ter tudo o que queremos, ao mesmo tempo. Não podemos ter desejos antagônicos. Se meu sonho é uma bunda durinha, preciso esquecer a cama quentinha e levantar cedo para ir à academia. Se meu desejo é uma barriga chapadinha, o crepe com sorvete terá que ficar de lado (isso é sim, muito injusto!).

Conheci um sujeito que vivia uma vida faustosa. Nada de grandes espantos, mas, como muitos outros, gastava bem mais do que os seus ganhos lhe permitiam. Comprava roupas de boa marca, hospedava-se em hotéis quando sua realidade não lhe permitiria sequer uma pensão barata, pagava almoços e jantares com mais freqüência do que a sua conta bancária lhe deixava. E assim seguiu sua vida, por anos a fio. Era um cara legal, simpático, na dele, gente boa. Acumulou dívidas e não construiu nada. Era bem conhecido, há anos, dos serviços de proteção ao crédito. Há algum tempo atrás, ele anuncia, com ares de prosperidade, que havia entrado num bom negócio. No mesmo dia do tal anúncio, sua filha pede-lhe ajuda para pagar a faculdade. E ele diz: "Não dá." Não podemos ter desejos antagônicos. Não podemos viver como se não tivéssemos filhos, se já os tivemos. Lamento por este sujeito. Ele teve 3 filhos, não ajudou nenhum, não criou nenhum. A vida lhe concedia uma última oportunidade. Era preciso fazer a escolha, e ele escolheu mal.

Sou vascaína, estando o Vasco em qualquer divisão. Não sou jogadora, e sim torcedora. Sou brasileira, por isso peço uma Coca Zero e nem gosto de Pepsi. Se o Lula bebe é problema dele, eu quero é um país justo e uma qualidade de vida compatível com a riqueza do país, para toda a população. Vou aprender a usar o photoshop.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

PAPO PIPOCA

Ontem fui ao cinema. Semana passada também. E na anterior e na antes dessa. Costumamos ir ao cinema às quintas-feiras, com poucas variações. É o dia das estréias dos filmes aqui na cidade e aproveitamos para quebrar a rotina da semana. Nestas épocas de entregas de oscares, ursos e palmas, entre outras tantas premiações que envolvem a sétima arte, pego-me a querer conversar sobre o filme, o que vi e não vi, o que gostei e não gostei. Sinto falta da minha irmã, companheira fiel durante meus longos anos de casamento-abandono. Hoje, que tenho um casamento de sonho, marido presente, etc e tal, dou por mim a sentir falta da minha companhia principal para o pós pipoca. Não tenho mais com quem falar sobre o filme cult que assisti, sobre o popularíssimo que detestei.

Um dia destes fomos - eu e meu marido - assistir Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, em 3ª dimensão. Filme comentadíssimo, muito esperado, sucesso de público. Saí no meio do filme. Uma chatice sem tamanho, uma decepção completa. Até então, só havia saído no meio de um filme, salvo engano: O Senhor do Anéis. E estávamos juntas, eu e minha irmã. Hoje, quero falar mal do filme e não tenho com quem. Meu marido vai ao cinema para se desligar do mundo por duas horas, não gosta de comentar filmes. Eu tenho a necessidade de espinafrar com um filme que custou o suor do meu rosto ao pagar o bilhete e duas horas da minha vida ao assisti-lo, caso não me agrade.

Com a mesma intensidade tenho o desejo de enaltecer filmes que me encantaram e falar dos pormenores que muitas vezes passam despercebidos. Adorei "Precious". Pela crueza da narrativa, sem dramatizações da desgraça, com um jeito que beira ao documentário. Sem música, sem maquiagem e sem gente "bonita". Lembrava-me os filmes vistos nos cinemas Estação. Filmes "mundo cão". É como ela se refere a este tipo de filmes.

Pois bem. Mas eu comecei este assunto a dizer que ontem fui ao cinema. Tive uma grata surpresa ao assistir ao filme "O Livro de Eli". Não tinha idéia da história, só sabia que era protagonizado pelo Denzel Washington e para mim isso já bastava para fechar bem o dia. O desenrolar da história foi me dando a certeza de que a escolha, embora aleatória, não poderia ter sido melhor. É um filme para assistir nas entrelinhas - ou entrecenas, entresons. Bruto e delicadíssimo. Passa-se numa América pós hecatombe nuclear, onde Eli (Denzel) tem a missão de levar um livro para o oeste e nada pode detê-lo de sua missão. Pode-se ler aí, o desejo humano de perpetuação de uma cultura, de propagação da fé, e de domínio sobre as massas. Um argumento antigo, num cenário batido, com uma história atual. E, apesar de tudo, surpreendente. Ai, ai... e eu aqui, a escrever o que eu gostaria de ter falado, de ter comentado, de ter repensado. Cadê a minha irmã cinéfila? Com quem vou comer um quiche de palmito com queijo? Onde estão Bruninho e Betinho? É, somos as famosas garotas das bolinhas de queijo...

Para a minha irmã, Viviane, que bem me lembrou que aguentamos até ao finzinho o Senhor do Anéis: Que será feito de Bruninho e Betinho?

sexta-feira, 12 de março de 2010

Uma voltinha de Velotrol

Minha filha me liga e grita: "Mãe, peguei a carteira!!!" Respondi com a resposta previsível, as felicitações esperadas e fiquei sinceramente feliz por ela. Passado o enlevo da sua exclamação, meu estômago resolveu dar sinal de vida e avisou, com aquele friozinho que lhe é peculiar, de que eu estava com medo. Com medo de que? Pensei. Medo dela sofrer um acidente de trânsito? Não, porque isso poderia acontecer sendo ela ou outra pessoa a conduzir. Medo de...e pensei ainda um pouco mais, não querendo mesmo aceitar o motivo, a razão do meu medo. Tive - e tenho - medo porque ela cresceu, porque eu envelheci, porque ainda tenho a foto dela, de fraldas, a andar de velotrol pela sala de casa. O velotrol, com suas enormes rodas vermelhas, ficou para trás. Hoje, ela conduz um carro, vai para o bloco de carnaval com uma latinha de cerveja na mão e eu nem estou lá. Quando foi que a cerveja substitui o guaraná? Quando foi que ela começou a atravessar a rua sem precisar me dar a mão? Quando foi que o jazz no ginásio da escola virou samba no bloco de carnaval? Eu me perdi no tempo, perdi capítulos inteiros das vidas das minhas filhas. E percebo que a novela da vida não para, à espera de que nos habituemos às suas mudanças, à entrada de novos personagens, ao delinear de novos rumos.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

COMO ANTIGAMENTE

Há alguns anos atrás, recebi o telefonema de uma antiga colega de escola, que encontrou meu número na lista telefônica. Ela se dedicava a reunir o pessoal amigo da escola. Nós estudamos juntas da 5ª à 7ª série, e a partir daí reencontrei muitos amigos queridos, já meio esquecidos na memória embotada. Fui a alguns encontros, trocamos alguns e-mails e retomei de leve o contato com este pedacinho da minha adolescência.

Há alguns meses atrás, encontrei num site de relacionamento um antigo colega de escola. Participava da comunidade de ex-alunos desta. Através dele, fui retomando contato com mais uns poucos. Travei uma conversa fantástica via messenger com uma antiga amiga. E falamos de pessoas que eu já nem me lembrava mais, mas que tiveram um papel importante à época. O retrato dos meus colegas de escola, outrora à sépia, hoje brilha a cores vivas. Graças a essa minha amiga. E por isso e por outras coisas, descobri que não deixei de amá-la. Não deixamos de amar nossas amigas queridas, apenas as guardamos na gaveta da nossa memória.

Há alguns dias atrás, uma amiga minha, de outro lugar, de outra época, me reencontra no Skype. Travamos uma verdadeira conversa de comadres, e o tempo e a distância que nos separava já não mais existia. Já falei dela aqui. Sempre a amei.

Viver fora do nosso meio, longe dos nossos amigos, nos faz amá-los mais. Percebemos a falta de cada um deles e notamos que não se substitui um amigo, ainda que possamos fazer novos. A tecnologia trouxe a mim esse bálsamo: O reencontro com amigas queridas, há muito guardadas. Só quem não as tem por perto poderá compreender a falta que elas fazem. Homens travam amizades, mas mulheres são verdadeiramente amigas e confidentes. Amigas, confidenciam sentimentos, que é o mais precioso e mais perecível de todos os bens. E assim, via skype, messenger e afins, continuamos comadres, igualzinho a antigamente.

Verónica

À vocês, minhas amigas queridas, por quem muito tenho declarado afeto mas que nunca me soa redundante repetir.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Jujubas da TV

Outro dia teria sido o aniversário do meu pai, se ele ainda estivesse vivo. Sempre lembro dos aniversários, nunca sei as datas de falecimento. Considero-me uma privilegiada. Tenho memória seletiva e, quanto mais o tempo passa, mais seleta são as coisas que se fixam na minha memória. Lembro pouco ou nada de gente aborrecida, de rusgas e de acontecimentos tristes. Sobra a saudade de uma vida não lá muito bem vivida, mas muito bem imaginada.

Do meu relacionamento com meu pai, pouca coisa guardei, muita coisa fantasiei. Não tive um pai dos filmes e novelas, que levam filhos ao parque a soltam pipas no gramado. Éramos todas meninas, e naquela época era mais difícil encontrar pais que se relacionassem com filhas. E se não era, gosto de pensar que sim, porque assim era para mim. Nada me marcou mais - positivamente - do que uma noite qualquer, dessas em que aos 7 anos a gente levanta da cama diretinho para o banheiro, apertada. Tínhamos uma TV muito grande, em preto e branco, daquelas de válvulas. Meu pai chegava do bar e tirava do bolso da calça 3 pacotes de jujubas, daquelas jujubas grandes e redondas, coloridas, dispostas uma em cima da outra e que formam uma lingüiça. Eram as minhas preferidas! Colocou-as em cima da televisão, ao lado da antena. Eu sabia que só as receberia no dia seguinte, mas a visão daquelas jujubas em cima da TV encheu meu coração de amor pelo meu pai.

Passado algum tempo, esqueci disso. Comecei a pensar que nada me compraria. Hoje vejo que não. Ainda sou comprada por jujubas. Não quero saber de pessoas perfeitas, não quero o politicamente correto, não espero o sucesso em todos. Fico feliz com as jujubas que trouxerem para mim.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Natais Perfeitos


Natais Perfeitos

Acredito que todos temos vários natais dentro de nós. Por algum tempo, especialmente em crianças, vivemos natais coloridos com bolas nas árvores e papel de presente. Noutros tempos, vivemos um natal religioso, com aquela deliciosa sensação de proximidade de Deus, com consciência de Sua misericórdia. Há períodos em que vivemos o natal social, quando doamos dinheiro, brinquedos, comida, agasalhos e o que mais vier, àqueles que não têm condições para obtê-los por meios próprios. E, pensando assim, pensei que o natal é um bocadinho como o nosso corpo. Ele se transforma ao sabor do tempo, dependente ou não da nossa vontade. Crescemos, envelhecemos, engordamos, emagrecemos, nosso cabelo embranquece, cai, mudamos de escola, de casa, de círculo de amigos, de estilo de roupa. Mas, assim como nós seremos sempre nós, o natal será sempre natal.

O meu natal perfeito é na verdade, a mistura de diversos natais que já passei. É o natal dos meus 8 anos de idade, quando meu pai voltou do Japão e trouxe uma mala cheia de presentes. Trouxe um gravador e gravamos a voz de todos na família. Inventamos musiquinhas de natal horrorosas e conseguimos piorá-las cantando-as. Meu avô contava os presentes que havia ganho: “...cueca, cueca, cueca!”. Inesquecível foi o natal dos meus 10 anos, quando ganhei uma bicicleta. O tempo passou, meu corpo cresceu, e meu natal tornou-se em religioso, denso, importante. Mas vivia ainda, nos olhos das minhas filhas, o natal colorido. E neste dia, tiramos uma grande foto de família, que enfeita a sala da minha avó até hoje.

Há alguns dias recebi um pedido de autorização. Era da minha tia, menina, aquela que tem estrelinhas de Carnaval nos olhos e veste pareô. Ela pedia para que o natal fosse em sua casa este ano. Pode? Sempre pode. Mas será sempre o Natal da Casa da minha Avó. Que, assim como nós, também se transforma, muda de casa. Minha lágrima escorre hoje do olho porque eu queria muito estar lá, porque na verdade nunca de lá saí. Queria jogar pique-bandeira na vila, com a minha irmã, minha prima e a minha tia menina. Colocar os chinelos como trave de gol, brincar de Mulher-Maravilha com a minha irmãzinha e laçá-la com o laço da verdade. Queria roubar Chantibon do congelador com ela. Queria ouvir minha mãe chamando para tomar banho, porque nossos “pescoços já faziam um cordão de caraca”.

Neste natal, não terei minha mãe a me conferir as orelhas, nem minha madrinha a me pentear os cabelos, nem minha irmãzinha a pegar na toalha e fazer de capa de super-herói depois do banho, nem minha irmã maior a reclamar porque eu tinha roubado a roupa da Susie dela e colocado na minha, nem a minha avó a me dizer: “dorme aqui, vai embora amanhã”. Mas este será mais um natal. Diferente e igual. Fará parte do cardápio de natais memoráveis. Onde nem todos estarão juntos, mas para onde todos os corações estarão voltados. O meu já lá está. Feliz Natal!

Às minhas filhas, que construam natais ainda mais fabulosos que os meus. 
Verônica Vidal